DIREITO A MEMÓRIA E A VERDADE
PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA / PARA QUE NUNCA MAIS ACONTEÇA

23 maio 2013

A COMISSÃO DA VERDADE, A SOFREGUIDÃO E OS HOLOFOTES

Por Celso Lungaretti

É suspeita a atitude de integrantes da Comissão Nacional da Verdade, de estarem desde já se posicionando publicamente a favor ou contra a revogação da anistia de 1979.

Isto porque nada será decidido agora. O xis da questão é se, no relatório final da Comissão, daqui a um ano e meio, vai ou não ser recomendada a anulação da aberração jurídica que permitiu aos assassinos oficiais anistiarem a si próprios.

Então, por que botaram o carro na frente dos bois, lançando o debate agora? Meu palpite é de que se trata de um terceiro tema controverso oferecido numa bandeja à imprensa, para que a Comissão da Verdade entre com destaque no noticiário. 

É verdade: a presidente Dilma Rousseff cobrou, há alguns meses, que dessem maior visibilidade aos trabalhos da Comissão. Mas, será que ela tinha em mente a espetacularização? Ou os conselheiros estão sendo mais realistas do que a rainha?

O certo é que coincidiram com o primeiro aniversário do colegiado:
  1. o anúncio da decisão de exumarem o corpo do ex-presidente João Goulart, que pode levar à comprovação de seu assassinato por envenenamento (ou, em caso contrário, fornecer um poderoso trunfo propagandístico às  viúvas da ditadura, daí haver sido uma leviandade trombetearem o que poderiam ter feito discretamente, deixando o obaoba para depois, se o resultado dos exames o justificasse);
  2. a totalmente inútil convocação do megatorturador Carlos Alberto Brilhante Ustra para bater boca com membros da Comissão, cuja sessão foi aberta ao público pela primeira vez exatamente para maximizar a repercussão do espetáculo... deprimente e constrangedor; e,
  3. agora, a também totalmente inútil antecipação de uma polêmica que só será travada para valer, se o for, no final de 2014.
Tal busca sôfrega por holofotes me fez lembrar um episódio emblemático. Em 2004, quando do 25º aniversário do simulacro de anistia que igualou as vítimas a seus carrascos, era previsível que a imprensa estivesse à cata de notícias para preencher os espaços dedicados à efeméride.

A Comissão de Anistia programou exatamente para aquele momento o julgamento do processo de Anita Leocádia Prestes (ela estava em grande evidência por causa do recém-lançado filme Olga) e divulgou triunfalmente que lhe concedera uma indenização.

Anita, contudo, retrucou dignamente que não pedira tal indenização e a doaria para caridade. Seu pleito era apenas de que o tempo passado no exílio fosse também considerado, na contagem dos anos para ela obter aposentadoria de professora; só queria aquilo que pedira, não o que fora acrescentado à sua revelia.

A CAPITULAÇÃO DECISIVA SE DEU EM 2008

Quanto ao fulcro da questão, reitero o que venho escrevendo desde meados de 2008, quando o Ministério se dividiu (Tarso Genro e Paulo Vannuchi encabeçavam a corrente a favor da revogação da Lei de Anistia e Nelson Jobim, a contrária) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se colocou ao lado do então ministro da Defesa, desperdiçando uma oportunidade única para expor o blefe de velhos militares que não falavam em nome das tropas:
  • a apuração dos crimes e atrocidades da ditadura, com a consequente punição dos responsáveis, era um dever que o Estado brasileiro deveria ter cumprido logo no início da redemocratização, em 1985 (mas, claro, não se poderia esperar que o arenoso José Sarney colocasse o próprio pescoço na forca, depois de ter sido o mais servil capacho dos militares);
  • por culpa de um sem-número de omissos, continuamos na estaca zero até hoje, no que diz respeito à punição das bestas-feras;
  • mesmo que se derrube a vergonhosa decisão de 2010 do Supremo Tribunal Federal, na contramão das recomendações da ONU e do enfoque legal dos países civilizados, já não há mais hipótese de a condenação dos criminosos hediondos transitar em julgado antes que eles morram todos de velhice, dada a lerdeza da Justiça brasileira e o número infinito de manobras protelatórias que faculta a quem pode contratar os melhores advogados;
  • então, devemos nos preocupar é com o legado que deixaremos aos pósteros, ou seja, batalharmos para que não permaneça legitimado o escabroso precedente de uma ditadura, em plena vigência, anistiar antecipadamente seus esbirros, concedendo-lhes uma espécie de habeas corpus preventivo.
Reposicionar tal questão dependeria, evidentemente, de uma articulação política.

Um equívoco da espetacularização 
Para eles, é inaceitável o cumprimento de penas, a perda de pensões e o pagamento de indenizações. 

Do nosso lado, uma vez que admitamos realisticamente o fato de que a possibilidade de vê-los um dia encarcerados se tornou quimérica,  o mais inaceitável passará a ser seu  enquadramento formal pelo Estado brasileiro como  anistiados  e não  como    criminosos.

Temos de, pelo menos, desestimular recaídas no arbítrio;  a completa impunidade sacramentada pelo STF vai exatamente na direção contrária, deixando, inclusive, os cidadãos desinformados em dúvida sobre sua culpa. Então, mesmo não havendo punições concretas, é preciso que fique bem evidenciada para o povo brasileiro a responsabilidade dos golpistas e seus paus mandados no verdadeiro festival de horrores que aqui teve lugar.

A infame decisão da STF não pode ser a palavra final nesta questão, a menos que nos assumamos como uma república das bananas, ignorante dos valores que norteiam a vida civilizada e disposta às mais abjetas concessões para afastar o espectro das quarteladas.

Para avançarmos, entretanto, se faz necessária uma negociação; e a resistência da caserna, que (embora superestimada) tem existido nos últimos anos, poderá ser esvaziada se descartarmos a hipótese de punições. Aí, sem dramas, os oficiais mais jovens não vão sentir-se moralmente obrigados a prestar solidariedade aos velhos carrascos. 

Enfim, é um desafio para o governo de Dilma Rousseff, para as forças progressistas e para os cidadãos com espírito de justiça e apreço pela democracia, darem um desfecho mais digno para a tragédia dos anos de chumbo, sem a repulsiva ambiguidade da anistia de 1979. 

A hora de punir pode ter passado, mas o Estado brasileiro deve afirmar inequivocamente que tais pessoas eram culpadas e mereciam punição. Só assim se criará uma expectativa de tratamento mais severo contra quem  tentar reinstalar o totalitarismo.

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22 maio 2013

Balanço de primeiro ano da Comissão Nacional da Verdade

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) apresentou no último dia 21, em Brasília, o balanço de seu primeiro ano de atividades.

O documento completo do balanço de um ano das atividades da CNV pode ser lido aqui.

Além do balanço, a Comissão Nacional da Verdade apresentou o resultado parcial de pesquisas conduzidas pela assessora da CNV Heloísa Starling, professora da UFMG e coordenadora do Projeto República que apontam que a Marinha sonegou informações sobre mortos e desaparecidos ao governo Itamar Franco.

Veja no vídeo abaixo como foi o evento. Para mais informações acesse o site da CNV.


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21 maio 2013

Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro


Dia 28 de maio, às 10h, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro acontece o “1º Testemunho da Verdade”, da Comissão Estadual da Verdade do Rio. 
 
A TV da Assembleia (TV ALERJ) vai transmitir o evento: 
 
Lúcia Murat, cineasta, presa e torturada nos anos 1971 e 1974. 
 
Dulce Pandolfi, historiadora e professora, presa em 1970 e torturada no DOI-CODI do I Exército/RJ.

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20 maio 2013

Jornalismo e diversidade

por Dênis de Moraes, publicado originalmente em ALAI, América Latina en Movimiento

O cenário que envolve o jornalismo atual é complexo e intrincado. De um lado, há uma profusão de conteúdos industrializados na proporção exigida por canais multimídias em crescimento contínuo. De outro, há uma perversa concentração das informações nas mãos de poucos conglomerados empresariais, em sintonia com a meta de ampliar o valor mercantil e os padrões de acumulação e lucratividade do setor. Se apontamos essa concentração em torno de estruturas de industrialização de notícias pertencentes a megagrupos, o que é produzido obedece a uma escala de valores e de visões geralmente restrita às avaliações e conveniências das fontes controladoras. A "diversidade" apregoada pelos arautos do neoliberalismo está, quase sempre, sob forte controle das fontes de emissão, responsáveis pela mercantilização generalizada da produção simbólica.

Por outro lado, o acesso aos conteúdos é profundamente desigual. Há grave assimetria entre a expansão dos sistemas tecnológicos e a capacidade de inclusão da base da sociedade nos benefícios decorrentes. Os países mais ricos e as elites dominantes são os que mais desfrutam dos acessos, usos e vantagens do excesso de estímulos impressos e audiovisuais. Tanto os usos das tecnologias avançadas quanto a propalada "diversidade" são estratificadas e sob controle, não são para todos. 
 
O quadro acima sumarizado provoca uma série de impactos na práxis jornalística. Costumo dizer que o jornalismo envolve, ao mesmo tempo, a melhor profissão do mundo e uma das profissões mais problemáticas do mundo. Porque, se nenhuma outra profissão tem a variedade de contatos e trocas com a condição humana como o jornalismo, é forçoso reconhecer que a estrutura empresarial que rege o jornalismo de mercado é profundamente verticalizada, avessa a expressões autônomas e participativas por parte dos jornalistas. Essa estrutura empresarial, sob a égide dos grupos econômicos, assume e controla, monopolicamente, os processos de produção e veiculação das informações que circulam socialmente. Trata-se de uma “estrutura piramidal”, como assinala Milton Santos: “No topo, ficam os que podem captar as informações, orientá-las a um centro coletor, que as seleciona, organiza e redistribui em função do interesse próprio. Para os demais, não há, praticamente, caminho de ida e volta. São apenas receptores, sobretudo os menos capazes de decifrar os sinais e os códigos com que a mídia trabalha.” (1)

Os mecanismos de controle cresceram enormemente nas empresas de mídia, gerando, como efeito colateral, uma sensível diminuição da possibilidade de interferência autoral dos jornalistas nos produtos e mensagens que elaboram. Resultam daí ambivalências e frustrações. Sem dúvida, há desvios nos processos informativos, provocados, em larga medida, pelas conveniências de toda ordem dos grupos empresariais do setor e pelos modelos autoritários que regem as relações internas das redações - um modelo que filtra e enquadra as notícias em sintonia com as ênfases e os ocultamentos determinados, unilateralmente, por cada veículo.

Frente a tal quadro, propício a desvios e prepotências, a impaciência analítica se manifesta quando só se mede a atividade jornalística por equívocos e manipulações. Trata-se, no caso, de achar que só existe um jornalismo, quando existem jornalismos, no plural. Ora, o jornalismo só se torna prisioneiro de si mesmo quando se contenta em ser de mão única, geralmente porta-voz das frações mais acirradas das classes dominantes e, não por acaso, sempre vulnerável ao que Rodolfo Walsh situou, primorosamente, como “mentiras irrisórias, calúnias pagas e estupidez elevada à virtude”. (2)

As experiências de meios contra-hegemônicos têm alguma coisa a ver com o jornalismo empresarial? Evidente que não. Isso não quer dizer, obviamente, que tudo que se faz no jornalismo dos grupos midiáticos seja um lixo. Absolutizar as impugnações é ceder ao dogmatismo e desconhecer as próprias contradições e ambivalências de cada meio noticioso, bem como ignorar circunstanciais olhares críticos e brechas de inteligência dentro dos domínios midiáticos (ainda que em espaços exíguos e ocasionais para se manifestar sem embaraços). Sem subestimar a reverberação do ideário dominante nos canais midiáticos, devemos reconhecer que fatores mercadológicos, socioculturais e políticos repercutem de alguma maneira na definição de conteúdos e programações. Os meios estão entranhados no mercado e dele dependem para suas ambições monopólicas. Um de seus traços distintivos da mídia, enquanto sistema de produção de sentido, é a capacidade de processar certas demandas da audiência, o máximo possível dentro das margens de controle delineadas por estrategistas e gestores corporativos.

O que diferencia os meios contra-hegemônicos é que eles produzem um outro tipo de jornalismo, mais insubordinado e comprometido com a crítica ao capitalismo, ao neoliberalismo e às elites dominantes – vale dizer, ao modo de produção elitista e excludente que serve de lastro a modelos verticalizados como os da maior parte das empresas de comunicação. São publicações que se pautam por temáticas e óticas comprometidas com o universo das necessidades, reivindicações, conflitos e expectativas sociais, nos diferentes planos da vida cotidiana. Recusam assumir o cinismo das formulações sobre “objetividade” e “neutralidade”, cujo fim último é dissimular ou apagar as marcas dos interesses de classe presentes nas enunciações das máquinas midiáticas. Têm ciência de que são produtores de interpretações e leituras do mundo, de acordo com suas convicções e alvos. Mas se propõem a não confundir o tomar partido com o silenciamento ou a interdição das posições antagônicas, através da estigmatização e até da destruição das razões do outro pela artilharia de editoriais, manchetes e textos tendenciosos.

Quando tomamos contato com veículos contra-hegemônicos e alternativos, verificamos, em muitos deles, múltiplas interpretações sobre acontecimentos e situações sociais, políticas, econômicas e culturais. É, tendencialmente, um tipo de jornalismo mais plural, inclusivo no sentido de revelar-se mais permeável às causas comunitárias e populares. E, no entanto, é jornalismo. E as pessoas que fazem essas publicações são jornalistas. Quem dirige essas redações são jornalistas. Insisto que devemos adotar um raciocínio dialético em relação aos jornalistas e pensar sua práxis de uma maneira abrangente e complexa.

As formas de atuação dos jornalistas dentro das corporações podem oscilar, seja por suas posturas, habilidades ou alinhamentos, seja pelas múltiplas experiências vividas, seja por nuanças ideológicas, programáticas e mercadológicas nas diretrizes empresariais. Não podemos esquecer que, entre os jornalistas da grande imprensa, existem aqueles que tentam explorar brechas, fissuras e fendas dentro dos próprios aparatos. Com efeito, é fundamental não reduzir o jornalismo enquanto atividade complexa e plural ao tipo de jornalismo com o qual estamos em desacordo, que é aquele jornalismo que neutraliza e menospreza expressões do contraditório.

A crítica à mídia é decisiva, imperiosa e inadiável. Impossível sermos indiferentes a distorções por ela praticadas. Os principais órgãos de difusão dizem representar a vontade geral, apresentando-se à opinião pública como intérpretes do senso comum e guardiães da moralidade, quando, em verdade, espelham prioridades comerciais, intentos políticos e pretensões de poder de seus controladores, eles próprios integrantes de frações das classes dominantes. Esses desvios se chocam com interesses coletivos, que deveriam ser o ponto central a ser preservado pelos atores participantes do campo jornalístico e dos processos informativos em particular, principalmente por veículos que detêm concessões públicas de canais de rádio e televisão.

Reivindico apenas que tenhamos um olhar mais abrangente sobre a produção jornalística como um todo. Não percamos de vista que o jornalismo, por definição, é uma atividade que, a despeito de limitações e coerções, tem a ver com a liberdade de expressão e a diversidade, estando em contato privilegiado com a condição humana, a partir de uma relação febril com a realidade social. O fascínio pelo jornalismo está, a meu ver, associado à sua relação com aspirações, vicissitudes e expectativas dos homens concretos, como também à possibilidade de traduzir em textos, sons e imagens os acontecimentos sociais, econômicos, políticos e esportivos, os conflitos humanos, as criações culturais, o entretenimento, os fatos da vida cotidiana etc.

Devemos manter o espírito crítico aceso em relação aos desvios e manipulações cometidas pelos veículos de massa, sem esquecer em momento algum que existem outros jornalismos. E quando me refiro a outros jornalismos não estou me referindo apenas ao jornalismo contra-hegemônico em sentido estrito; existem vários outros jornalismos: sindical, estudantil, cultural, científico, ambientalista... Sem contar revistas e tabloides, sites, portais, TVs universitárias e educativas, agências de notícias independentes, ONGs, coletivos de produção independente, o jornalismo dos movimentos sociais, o jornalismo das rádios e televisoras comunitárias, o jornalismo das redes sociais, dos blogs, dos tablets, dos celulares, dos murais...

Há uma pluralidade que tem que ser contemplada na análise, e nós não podemos confundir os vários jornalismos diante de nós com o jornalismo problemático da grande mídia. Nem podemos, igualmente, ignorar que o jornalismo alternativo enfrenta barreiras e tropeços: sustentabilidade; profissionalização e infra-estrutura limitadas; abrangência, circulação e penetração mais restritas. Entretanto, projetos participativos e criativos desenvolvem, presencial ou virtualmente, práticas editoriais, agendas informativas, enfoques, dinâmicas comunicacionais e interações que, não raro, põem em xeque o monolitismo ideológico-cultural que costuma caracterizar os meios tradicionais.

À luz desses pressupostos, parece-me essencial interferir nos múltiplos cenários que envolvem a atividade jornalística. A começar pela formação dos novos jornalistas, tentando superar insuficiências e percepções afoitas. Deveríamos, por exemplo, descartar a inculcação dos valores do sucesso, da competitividade e da ascensão a qualquer custo. Isso contribui para cristalizar a ideia fixa e preocupante de direcionar currículos e vocações para o mercado da grande mídia, como se fosse este o único destino promissor. Entre os efeitos colaterais dos cursos para o mercado, estão o desestímulo à reflexão crítica, o atrelamento aos tecnicismos e mandamentos corporativos, na medida em que se ajustam conteúdos ministrados a critérios e filtros estabelecidos pelas empresas de mídia para recrutar pessoas e compor seus quadros – critérios, via de regra, desfavoráveis a posturas críticas. Daí a importância de se tentar reequilibrar, progressivamente, as ênfases entre o aprendizado de técnicas e linguagens, a formação humanística e o espírito crítico, abrindo o leque de perspectivas para a atuação profissional.

Mais ainda: o outro jornalismo possível exige leis democráticas de comunicação, em países como o Brasil por exemplo, alterando o regime de concessões de licenças de rádio e televisão. A providência se impõe tanto para coibir o clientelismo político e abrir oportunidades a canais comunitários e a uma comunicação pública não-governamental quanto para ampliar os mecanismos democráticos de fiscalização das empresas concessionárias. O poder público precisa intensificar linhas de financiamento, apoios e patrocínios que fortaleçam os meios alternativos, comunitários, sindicais e populares, que se estruturam em torno da partilha, do intercâmbio e da colaboração, sem finalidades lucrativas.

Apesar dos obstáculos, há chances de evoluirmos para exercícios mais instigantes do jornalismo, inclusive aproveitando ferramentas e ecossistemas digitais (sem cair na ilusão de achar que a internet é a solução para todos os males, até porque os tentáculos da mercantilização se alastram pela rede) e desenvolvendo formas colaborativas, compartilhadas e descentralizadas de produção de conteúdos. Significa valorizar a diversidade informativa e cultural no sentido proposto por Eduardo Galeano: a variedade de mundos que o mundo contém.

NOTAS
(1) Milton Santos. O espaço do cidadão. São Paulo: Edusp, 2007, p. 155.
(2) Rodolfo Walsh. Ese hombre e otros papeles personales. Buenos Aires: Ediciones de la Flor, 2007, p. 223.

Dênis de Moraes é doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ (1993) e pós-doutor pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (Clacso, Argentina, 2005). 
Atualmente, é professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da UFF e pesquisador do CNPq e da FAPERJ. 
Autor de mais de 20 livros publicados no Brasil, na Espanha, na Argentina e em Cuba, entre os quais Mídia, poder e contrapoder: da concentração monopólica à democratização da informação (com Ignacio Ramonet e Pascual Serrano, 2013). Vozes abertas da América Latina (2011), La cruzada de los medios en América Latina (2011), Mutaciones de lo visible: comunicación y procesos culturales en la era digital (2010), A batalha da mídia (2009), Cultura mediática y poder mundial (2006), Sociedade midiatizada (2006) e Por uma outra comunicação (2003).

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IstoÉ DESMASCARA A FARSA E EXPÕE A CHANTAGEM BOLIVIANA. E AGORA, DILMA?


Por Celso Lungaretti


O advogado dos 12 torcedores corinthianos laçados pela polícia boliviana para servirem como bodes expiatórios da morte do jovem Kevin foi sondado pelo tio do pranteado defunto, o também advogado Jorge Ustarez Beltrán: a família se dispunha a reconhecer a inocência dos gaviões engaiolados, ajudando a defesa a desmontar a farsa, mediante o pagamento de 220 mil dólares (cerca de R$ 400 mil).

Como o Corinthians se recusou a ser extorquido e a Gaviões da Fiel não tem como arcar com um resgate tão vultoso, o dr. Sérgio de Moura Ribeiro Marques foi para o tudo ou nada, tornando pública a  proposta indecente. Pois, espertamente, gravara as conversas sem conhecimento do interlocutor. 

A história é contada na matéria de capa da revista IstoÉ desta semana, As provas da chantagem boliviana, e pode ser lida aqui

A  cantada  do titio ganancioso está neste trecho das gravações:
"...o que nós propomos a vocês é acabar de vez com esse processo. Uma vez retirada a denúncia, não é possível, portanto, um processo penal. Os familiares buscam uma reparação material, civil... entendo que essa responsabilidade poderia ser assumida pelo Corinthians... estou consciente de que os 12 não são culpados".
O  malandro otário  passou recibo da tentativa de extorsão, ao escrever de próprio punho a quantia ambicionada num papelucho que a IstoÉ reproduziu.

A revista também detalha o acordo costurado pelos dois advogados, mas frustrado por falta de quem se dispusesse a morrer numa grana preta: 
"...o tio de Kevin, segundo Marques, produziria uma petição na qual declararia, entre outros pontos, a inocência dos 12 brasileiros presos pela morte de Kevin.
E – mais importante – revelaria que o adolescente boliviano encontrava-se de costas para o campo quando foi alvejado pelo sinalizador. Além de Beltrán, Beymar Jonathan Trujillo Beltrán, primo de Kevin e única testemunha ouvida (em uma declaração de apenas cinco linhas) sobre a morte dele, assinaria o documento que seria incorporado ao processo de investigação.
Por ser uma declaração contundente de uma nova testemunha intimamente ligada ao adolescente morto, seria aberta uma grande possibilidade de libertação para os brasileiros. Apesar de não ter se pronunciado legalmente ainda, o tio de Kevin estava no jogo Corinthians e San José..."
Para completar a comédia de erros, o advogado Marques denuncia a existência de "pressão política" por parte do governo brasileiro e do Corinthians para que o escritório do qual é sócio seja afastado do processo. O motivo: “Querem que nós sejamos destituídos do caso e o governo colha o mérito da possível soltura dos torcedores”. 

Finalmente, eis a irrefutável conclusão do autor da reportagem, Rodrigo Cardoso:
"...se não há como provar a culpa dos 12 torcedores do Corinthians, eles têm de deixar a prisão em Oruro. Passou da hora de o governo brasileiro arregaçar as mangas de verdade e, livre de interesses paralelos, priorizar uma solução rápida para a prisão arbitrária de 12 de seus cidadãos que, na Bolívia, vivem dias de criminosos sem sequer terem sido acusados legalmente".
É a mesma posição que sustento há mais de dois meses. No artigo Vergonha: Bolívia faz 12 brasileiros de bodes expiatórios! (acesse aqui ), de 11/03/2013, já escrevi: 
"As autoridades de cá estão agindo com tibieza vergonhosa, ao não defenderem da forma mais enérgica BRASILEIROS FLAGRANTEMENTE INJUSTIÇADOS NOUTRO PAÍS.
Já passou da hora de mostrarem algum serviço, pois suas frouxas gestões não tiveram resultado prático nenhum e vêm sendo olimpicamente ignoradas pelos bolivianos".
Voltei ao assunto em Os 12 torcedores sequestrados na Bolívia e a tibieza brasileira (acesse aqui), do último dia 8, quando um grupo de deputados se reuniu em Brasília com representantes de três ministérios e da OAB para discutirem possíveis medidas a serem tomadas:
"Vamos ver se, a partir de hoje, nossas autoridades deixam de agir com a TIBIEZA VERGONHOSA que vem caracterizando sua atuação no episódio.
...Tenho certeza de que, se os injustiçados pertencessem à classe média ou à elite, as gestões brasileiras teriam sido incisivas e imediatas.
A Justiça boliviana está agindo de forma tão aberrante que já se justifica uma queixa à OEA.  É o caminho inescapável para o Brasil, caso o sequestro não cesse..."
Depois da revelação da IstoÉ, o nosso governo tem a obrigação moral de, finalmente, se fazer valer. Ou seremos obrigados a concluir que ele não vale nada.


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18 maio 2013

Lançamento do livro de Victória Grabois


28 de Maio de 2013 as 19 hs 

Teatro Studio Heleny Guariba 

Praça Roosevelt 184, Consolação, SP SP 

Também haverá Debate com a participação de Criméia Almeida e Rosalina Santa Cruz



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15 maio 2013

ACORDA, REBELO! É HORA DE REMOVER O ENTULHO AUTORITÁRIO DA CBF!


Por Celso Lungaretti

Quem entende um mínimo que seja de futebol, está careca de saber que Ronaldinho Gaúcho é, atualmente, o melhor jogador brasileiro em atividade, aqui ou no exterior. 

Cérebro e maestro do Atlético Mineiro, faz dele um time que consegue, ao mesmo tempo, deslumbrar a torcida e ser extremamente competitivo; tanto que acaba de aplicar sonoras goleadas em adversários fortes como o São Paulo e Cruzeiro, além de criar um sem-número de oportunidades para ampliar o marcador. 

[Contra o tricolor paulista, p. ex., foram duas bolas no travessão e uma que o zagueiro Tolói tirou da linha de gol, de forma que caberia perfeitamente um 7x1]. 

Preterir o Gaúcho na convocação para a Copa das Confederações, é mais do que burrice ou teimosia; trata-se de um crime contra a arte futebolística. O técnico Felipão tenta repetir uma matreirice imunda que deu certo em  2002, excluindo o  grande craque  (Romário, daquela vez) e estimulando os demais atletas a unirem-se contra as críticas e desconfiança generalizada. Quer  fechar o grupo, sem perceber que o prazo de validade destas artimanhas imorais venceu faz muito tempo.

Menos mal que a seleçãozinha tem tudo para dar vexame na Copa das Confederações, livrando-nos do  pesadelo Felipão  antes da Copa do Mundo, aquela que realmente importa. 

O futebol brasileiro não é, nem de longe, o melhor do planeta na atualidade. Está muito atrás da Alemanha, da Espanha e (por causa do Messi) da Argentina.

Então, precisamos é de um técnico estrategista como o corinthiano Tite, que teve competência para dar um nó tático no afamado Rafael Benítez, tornando menos desequilibrada a partida contra o Chelsea no Mundial de Clubes. Mesmo assim, o único título importante do Brasil nos últimos tempos dependeu também --e muito!-- dos milagres do goleiro Cássio. 

Com o rústico, tacanho,  ultrapassado e  traíra  (*) Felipão, que vem perdendo sistematicamente das equipes e seleções que praticam o futebol moderno, a tendência é de, mais uma vez, não passarmos das quartas-de-final. Podem anotar.

ESPÍRITO DA ERA MÉDICI

Para finalizar: se (graças ao Romário, Juca Kfouri e Ivo Herzog) cair o presidente da CBF que foi lambe-botas de ditadores, cairá também o técnico autoritário que encara o futebol como uma guerra. 

O primeiro não tem mínimas condições éticas para ocupar cargo tão importante quando os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil.

E o segundo, após ter sido o principal culpado pelo rebaixamento do Palmeiras no Brasileirão, estaria desempregado até hoje se o ladrão de medalhinhas não o tivesse  resgatado do ostracismo.

Para piorar, na hipótese improvável de  a moeda cair em pé, a vitória acabará beneficiando a turma do "ame-o ou deixe-o",  do "ninguém segura a juventude do Brasil".

Pois o espírito truculento e patrioteiro  da  era Médici  está entranhado até a medula em Felipão e Marin, embora só este último tenha se acumpliciado efetivamente com a ditadura dos generais. 

A última coisa de que precisamos é a exumação de conceitos fascistóides como o da "pátria em chuteiras", que levam água para o moinho da direita mais boçal e bestial.

Acorda, Rebelo! É hora de remover o entulho autoritário da CBF!

* no capítulo maucaratismo, vale lembrar que Scolari foi desleal com seu antecessor Mano Menezes, aceitando substitui-lo antes mesmo de ele ser demitido pela CBF; e com jogadores do Palmeiras, fazendo chegar às  maltas organizadas  os nomes de reais ou supostos baladeiros, para que fossem  colocados na linha. A segunda falseta vazou para o elenco palmeirense e causou tamanha revolta que Felipão não teve mais condições de dirigir o time, sendo obrigado a abandonar o barco quando já era concreta a possibilidade de queda para a série B.


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10 maio 2013

USTRA NA COMISSÃO DA VERDADE: O PITI ANUNCIADO


Por Celso Lungaretti
Reduzir a pó de  traque a racionália falaciosa e performance colérica do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra é tão fácil que, no meu caso, equivale a bater em bêbado. 

Então, não perderei muito tempo escrevendo uma  crônica do piti anunciado, que só serviria para dar destaque imerecido ao mafuá armado na Comissão da Verdade. 

Prefiro liquidar o assunto sucintamente:
  • Que a convocação do Ustra não lançaria luz nenhuma sobre assunto nenhum eram favas contadas. Como a presidente Dilma Rousseff, há alguns meses, cobrou da Comissão iniciativas que repercutissem mais na mídia, certamente o que se viu nesta 6ª feira (10/05) não passou de uma óbvia tentativa de atender a tal exigência de espetacularização --tanto que se tratou da primeira sessão do colegiado aberta ao público. Só que os crimes perpetrados por Ustra e seus cúmplices foram hediondos demais para que uma  tempestade de som e fúria significando nada  alivie minimamente nossa dor. Se não nos deram justiça, ao menos poupem-nos de farsas. 
  • Em meio à enxurrada de mentiras e asneiras, Ustra disse algo aproveitável: o Exército brasileiro e os generais ditadores foram mesmo os maiores culpados pelo festival de horrores para o qual ele concorreu como vil e servil instrumento. Considerada a correlação de forças do poder de então, um Delfim Netto, ao dar carta branca para o aparato repressivo (como signatário que foi do AI-5), teve responsabilidade muito maior nas carnificinas e atrocidades do que paus mandados como o Ustra, o Fleury e o Curió.
  • Foi pitoresco o Ustra negar a prática de torturas e, ao mesmo tempo, esquivar-se de responder se no DOI-Codi paulista, por ele comandado, existiam a  cadeira do dragão  e o  pau-de-arara. É claro que existiam! Ambos, aliás, me foram apresentados pelo tenente-coronel Waldyr Coelho, seu antecessor, quando por lá passei em abril de 1970. Como eu estivera muito próximo de um enfarte no dia anterior, cheguei do RJ com a recomendação de que não me torturassem em SP. Então, o frustrado comandante se limitou a me conduzir numa  turnê educativa  pelas dependências de sua filial do inferno, mostrando-me aquilo de que eu me safara por ser prisioneiro dos co-irmãos cariocas. Depois, sempre que pernoitava no DOI-Codi/SP após uma audiência nas auditorias do Exército, os gritos dos supliciados não me deixavam pregar o olho. Daí eu já ter comentado que só seria crível  a afirmação do Ustra, de desconhecer as torturas praticadas sob seu nariz, se ele apresentasse um atestado de surdez...
  • Há várias testemunhas, como o companheiro Ivan Seixas, de que o Ustra punha, sim, a mão na massa, participando pessoalmente das sevícias. Mas, no fundo, isto é secundário, em se tratando do comandante de um órgão sobre o qual pesam (durante sua gestão) mais de 500 denúncias de torturas e no qual pelo menos 50 prisioneiros indefesos foram covardemente executados. Os comandantes de Auschwitz e Buchenwald, tendo ou não assassinado eles próprios os presos, foram responsáveis por cada um dos exterminados nos respectivos campos de concentração. Eram bestas-feras; e o Ustra também.
  • A mais acachapante avaliação que alguém já fez de Ustra é a do ex-ministro da Justiça José Carlos Dias: "emporcalhou com o sangue de suas vítimas a farda que devera honrar". Ambos estiveram frente a frente na audiência da Comissão da Verdade e, como sempre, o  torturador símbolo do Brasil  foi incapaz de dar uma  resposta à altura, apesar das bravatas que vomita em livros e sites. Ele berra "lutei, lutei e lutei", mas vale muito pouco quando se trata de confrontar um homem em igualdade de condições.

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Canal com raps e poesias contra a redução da maioridade penal

Rappers e poetas de diversas cidades brasileiras estão criando raps e poesias com argumentos contrários à redução da maioridade penal. As criações ficam hospedadas em um canal do Youtube batizado de "Contra a Redução". A intenção do projeto é também estimular mais pessoas a criarem suas rimas e assim enriquecerem a discussão. 

Abaixo a participação da poetisa Carolina Peixoto Capella com o poema O outro lado. Pra mim umas das mais radicais, no sentido de ir à raiz do problema, interferências presentes até agora no canal. Curta ai os vídeos clicando aqui.



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09 maio 2013

A esquerda no século XXI, por Vladimir Safatle

Entrevista feita pelo deputado Giannazi (PSOL-SP) com Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP, para a TV ALESP.


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08 maio 2013

Censura em São Paulo e em Belo Monte



Sindicato critica mordaça do Governo de São Paulo

Força Nacional no canteiro de obras de Belo Monte

 Por Sturt Silva

O governo de São Paulo (PSDB) entrou na justiça para tirar do ar trechos de um informe publicitário pago que circula nas TVs de São Paulo. Na verdade trata-se das chamadas das assembleias da greve dos educadores da rede estadual de ensino do estado. Na conta no youtube da APEOESP, sindicato oficial dos professores do estado de São Paulo, tem vários exemplos de como as chamadas estão sendo feitas. 

A justiça acatou, como denuncia o deputado Carlos Giannazi do PSOL-SP neste vídeo. O trecho censurado é o que achei mais bem criativo e bem feito nos informes. É um pedido aos pais para apoiarem a luta, não enviando seus filhos à escola durante a greve. Segundo o sindicato da categoria a cada inserção na TV a multa será de 20 mil reais.

O vídeo abaixo é do anúncio da greve, mais ao longo da continuação da mesma o pedido continua, embora achei que no último, para a chamada da assembleia do dia 10 de maio, a pressão do governo e o papel vergonhoso da justiça já fizeram efeitos. O “não mande seus filhos à escola durante a greve” já não aparecem mais no informe.

  

Para obter resultados positivos para a categoria numa greve, ou numa mobilização que seja, é necessário mais que o aderir em massa da categoria e o combate firme e usos de táticas corretas do sindicato e do comando de greve, precisa-se também que a greve seja apoiada pela classe trabalhadora, que sofre o mesmo mal dos grevistas, e pela sociedade.  O convencimento dos pais de que a greve é um meio para que seu filho tenha uma educação de qualidade, e não um fim exclusivo para os professores obterem melhores salários, é fundamental para a vitória. Nesse sentido a tática de comunicação grevista foi a mais bem acertada possível.

Além de melhores salários ao trabalhador, uma "pátria educadora" como quer Dilma, necessita de transformações que mude a consciência política e que traga um novo comportamento cultural às massas trabalhadoras brasileiras.

O modelo e o processo educativo paulista está um caos. Repare bem como está às condições na rede de ensino. Preste atenção nas denúncias (vídeo abaixo) dos professores no informe para o dia 26 de Abril. Os professores que se submete a este caos e consegue exercer sua profissão, e ainda conseguir resultados positivos na formação educativa dos alunos, são verdadeiros heróis.


No outro lado do país, na Amazônia Brasileira, povos indígenas estão ocupando a Usina Belo Monte, que será responsável por impactos sociais e ambientais para os índios, as populações locais, enfim para todo conjunto dos ecossistemas da região.

Umas das reivindicações de oitos etnias indígenas que ocupam o canteiro das obras de Belo Monte é a consulta prévia aos povos da região sobre as construções dos empreendimentos. Para saber mais sobre a ocupação visite o blog do movimento.

Como defende o ex-diretor de Gás e Energia da Petrobrás e engenheiro Ildo Sauer, o problema maior não é nem a tragédia ambiental e social para região, mais sim a questão política. Belo Monte e as outras hidrelétricas fazem parte de um projeto de desenvolvimento executado por governo dito de esquerda que é um entulho resgatado da época da ditadura militar-civil de 64-85.

E mais: estruturalmente é um projeto de desenvolvimento que atende as grandes transnacionais (seja elas nacionais ou estrangeiras) e dificilmente tem objetivo de melhorar a qualidade de vida das populações locais e das classes menos favorecidas brasileiras, ao contrário do que diz a propaganda oficial do governo federal e das grandes empreiteiras e empresas que estão envolvidas no processo de construção e financiamento destes grandes mega eventos na Amazônia brasileira.

Mas assim como o governo paulista do PSDB, o Governo Dilma (PT) usa táticas como a censura. Impede a cobertura sobre o que acontece na Amazônia brasileira, usa a repressão através da Força Nacional e busca apoio de camadas conservadoras de nossa sociedade, tendo o senso comum e a "ignorância" do povo brasileiro como combustível, para criminalizar os movimentos de resistência que lutam a favor da vida e de um modelo alternativo de desenvolvimento para o país.

Sturt Silva é historiador e blogueiro.

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OS 12 TORCEDORES SEQUESTRADOS NA BOLÍVIA E A TIBIEZA BRASILEIRA

Por Celso Lungaretti

Eis uma informação da Folha de S. Paulo desta 4ª feira (08/05): 
"O grupo de deputados que trata da prisão dos 12 corintianos na Bolívia se reuniu ontem com representantes de três ministérios e com a OAB para discutir os avanços no caso. 'Os próximos 15 dias serão decisivos', diz Nelson Pellegrino (PT- -BA). O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, viaja à Bolívia na próxima semana para conversar sobre o tema com autoridades locais"
Eis o que escrevi há quase dois meses, no dia 11/03:
"...sendo um cidadão dotado de espírito de Justiça, considero ARBITRÁRIOINCONCEBÍVEL e INACEITÁVEL que, por conta do homicídio culposo cometido por UM torcedor, DOZE estejam presos há 20 DIAS... 
...Estão servindo de BODES EXPIATÓRIOS para as autoridades de lá, PRINCIPAIS CULPADAS PELO OCORRIDO, já que aquele apetrecho naval jamais poderia ter entrado na Bolívia nem no estádio. 
É melhor para elas que a ira popular esteja sendo direcionada contra os detidos e ninguém se lembre de perguntar por que não houve revista policial na fronteira e, sequer, na catraca.
Desde quando se admite o ingresso com ARMA numa competição esportiva?! Granadas também podem? E metralhadoras?
As autoridades de cá estão agindo com tibieza vergonhosa, ao não defenderem da forma mais enérgica BRASILEIROS FLAGRANTEMENTE INJUSTIÇADOS NOUTRO PAÍS.
Já passou da hora de mostrarem algum serviço, pois suas frouxas gestões não tiveram resultado prático nenhum e vêm sendo olimpicamente ignoradas pelos bolivianos".
Demorou demais para a ficha cair, se é que realmente caiu.

Vamos ver se, a partir de hoje, nossas autoridades deixam de agir com a TIBIEZA VERGONHOSA que vem caracterizando sua atuação no episódio.

Por enquanto mantenho tal avaliação, pois ela é mais do que merecida. Tenho certeza de que, se os injustiçados pertencessem à classe média ou à elite, as gestões brasileiras teriam sido incisivas e imediatas.

A Justiça boliviana está agindo de forma tão aberrante que já se justifica uma queixa à OEA.  É o caminho inescapável para o Brasil, caso o sequestro não cesse nos próximos "decisivos" 15 dias.

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07 maio 2013

"Brasil de Fato" rompendo barreiras

No dia do trabalhador (1), o estado do Rio de Janeiro ganhou a sua versão estadual em formato tablóide onde a capa dava destaque a uma matéria sobre as perdas que o Brasil tem com os leilões do petróleo. Na página no facebook do jornal falou em uma tiragem de 100.000 exemplares com distribuição gratuita em sua primeira edição.


Já no dia 4 de Maio, foi à vez do estado das Minas Gerais ganhar sua versão estadual. Com mesmo número de tiragem, o lançamento ocorreu em evento que contou com a participação de diversos movimentos sociais do estado, como mostra reportagem publicada ontem em sua página nacional. Na capa da edição zero de MG o destaque ficou para uma denúncia à CEMIG - Companhia Energética de Minas Gerais-, responsável pela distribuição de energia no estado, que cobra uma das contas mais cara do país.

Cabe agora todos nós somarmos a esse projeto que mostra uma visão popular de fato do Brasil e do mundo, que está na luta desde 2003.

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05 maio 2013

Revista de História da Biblioteca Nacional: ideais de chumbo ou de democracia e justiça social?


Em artigo, a historiadora Anita Leocadia Prestes critica abordagem dos artigos do dossiê “Guerrilheiros”, publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional em sua edição de março. Segue a crítica.

Por Anita Leocadia Prestes 

A Revista de História publicou, em março de 2013, um dossiê sobre os militantes da “esquerda armada” que, de diferentes formas, defenderam o recurso às armas na luta contra a ditadura instaurada no Brasil a partir do golpe civil-militar de abril de 1964. Na realidade, estamos diante da desqualificação dos jovens que lutaram contra a ditadura pela RHBN.

O caráter tendencioso desse dossiê já se evidencia na apresentação da capa da revista através da citação de uma frase infeliz de Carlos Marighella -“toda revolução tem sua linha burra”- e da afirmação de que tanto os golpistas de 64 quanto os militantes de esquerda, que lutaram contra a ditadura, com “sonhos e planos radicalmente distintos”, não teriam ideais democráticos. Dessa maneira, ambos os lados em confronto a partir do golpe são postos no mesmo pé de igualdade, o que contribui para a difusão de uma imagem negativa daqueles brasileiros que, de uma forma ou de outra, resistiram e lutaram contra o regime ditatorial militar que reprimiu com inusitada violência toda e qualquer manifestação contrária aos desígnios dos donos do poder.

No referido dossiê, com a exceção talvez do artigo assinado por Edson Teles, não há uma análise substantiva do contexto histórico, - econômico, social e político - da época, nem da situação internacional então existente. Não é apresentado um exame da ofensiva então em curso de parte das potências imperialistas – em primeiro lugar dos EUA – contra os movimentos populares e revolucionários no continente latino-americano, a partir da vitória da Revolução Cubana em 1959. Falta uma apreciação das condições sócio-políticas do Brasil naqueles “anos de chumbo”, que poderia revelar a inviabilidade do recurso às armas na luta contra a ditadura no referido período, uma vez que inexistiam no país forças sociais e políticas organizadas e conscientes, preparadas não só para apoiar, mas também participar de um processo de rebelião armada com vistas à derrubada da ditadura.

Na ausência de tais condições, o recurso à luta armada – uma forma de luta possível e justificável quando os donos de poder recorrem à repressão contra as forças progressistas e revolucionárias – se transformou numa aventura perigosa, independentemente das intenções dos seus adeptos, pois contribuiu para o retrocesso e o esfacelamento do movimento popular. Com o golpe de 1964, a derrota dos setores democráticos e progressistas no Brasil foi de tal ordem, que se tornara necessário recuar para reorganizar o movimento popular e conduzi-lo à luta contra a ditadura.

O PCB (Partido Comunista Brasileiro) foi quem melhor compreendeu a necessidade de adotar uma política de mobilização das amplas massas do povo brasileiro para acumular forças na luta pela derrota da ditadura, aproveitando todas as possibilidades legais existentes, inclusive a participação nas eleições. Luiz Carlos Prestes, o secretário-geral do PCB, liderou o combate contra a aventura “esquerdista”, ao mesmo tempo em que empreendia a luta interna contra as tendências reformistas presentes na direção desse partido, conforme mostro, com base em documentos, em meu último livro - Luiz Carlos Prestes: o combate por um partido revolucionário (1958-1990).

Prestes não teve êxito no esforço empreendido para transformar o PCB em um partido revolucionário, capacitado a conduzir a luta dos trabalhadores brasileiros pelo socialismo, o que o levou a romper com sua direção em 1980. Nessa ocasião, divulgou um documento intitulado Carta aos comunistas, em que fazia séria autocrítica dos erros cometidos pelo partido, reconhecendo que as tendências reformistas presentes no PCB haviam contribuído para que muitos jovens ingressassem na aventura da luta armada, sem levar em conta sua inviabilidade nas condições então existentes no país. Tais tendências reformistas contribuíram também para que o processo de transição do regime ditatorial para a democracia fosse limitado, uma vez que encabeçado por lideranças da burguesia liberal, como Ulisses Guimarães e Tancredo Neves. Circunstâncias estas que marcaram profundamente os resultados alcançados: anistia para os torturadores; eleições indiretas para a presidência em 1985; aprovação, em 1988, de um texto constitucional, em que, segundo o seu artigo 142, as Forças Armadas estão acima dos três poderes da República, constituindo um “poder militar”, na precisa definição de Prestes.

A desqualificação dos revolucionários

O caráter tendencioso do dossiê é confirmado pelo título que lhe foi atribuído – “Ideais de chumbo”, uma aposta na desqualificação daqueles jovens, homens e mulheres, que se levantaram contra a ditadura e, em muitos casos, foram barbaramente torturados e assassinados, morrendo pelos ideais, que não eram “de chumbo”, mas de democracia e justiça social em nossa terra.

Tal desqualificação dos revolucionários é particularmente visível no artigo de Apolo Heringer Lisboa, cujo título – “Cavaleiros sem esperança” – expressa com clareza a intenção do autor de denegrir a imagem de Luiz Carlos Prestes, proclamado Cavaleiro da Esperança por amplos setores da opinião pública brasileira, desde o final dos anos 1920. Ao mesmo tempo, evidencia-se o intuito de denegrir a imagem de todos aqueles que, de uma forma ou de outra, denunciaram a repressão do regime implantado com o golpe de 1964 e se rebelaram contra a ditadura.

Estamos aqui diante de um texto repleto de tolices e inverdades. Seu autor afirma, por exemplo, que o tenentismo “denunciava os métodos servis nas relações de trabalho, herdados da escravidão”, tese que não corresponde nem ao ideário nem à prática desse movimento. Assevera que Prestes pretendera, em 1935, “criar uma República Comunista” no Brasil, alegação absurda, desmentida pela consulta às fontes documentais da época. Declara que o PCB teria conquistado a legalidade no segundo governo Vargas, durando até 1964, o que não corresponde à realidade, pois, cassado seu registro em 1947, o partido não conseguiu ser legalizado sequer no Governo João Goulart. Outras inverdades poderiam ser apontadas no referido artigo, todas revelando o intuito deplorável e retrógrado de desmerecer e atacar as esquerdas no Brasil e na arena mundial.

Da mesma maneira, temos a repetição de velhas calúnias, segundo as quais “Prestes e o PCB subordinavam-se às decisões teóricas e práticas do comitê central do Partido Comunista da União Soviética”, e os ataques à União Soviética, ignorando e negando as importantes conquistas econômicas e sociais alcançadas na primeira experiência de construção do socialismo, não obstante os problemas e os erros que tiveram lugar nesse difícil processo de construção de uma nova sociedade, livre da exploração do homem pelo homem.

O autor desse artigo, de acordo com o espírito do referido dossiê, transmite aos leitores da RHBN a mensagem derrotista de quem capitulou diante das injustiças presentes na sociedade capitalista. Um discurso de desmobilização é veiculado, ao afirmar que “hoje predomina entre os remanescentes dessa geração guerrilheira a idéia fatalista de que nenhuma alternativa era possível”.

Dessa maneira, procura-se convencer os jovens de hoje de que os militantes da “esquerda armada”, por terem sido derrotados na luta contra a ditadura, deveriam “enrolar bandeira” definitivamente, desistindo de qualquer questionamento da ordem vigente. É ignorado um grande ensinamento histórico, lembrado, ainda em 1887, pelo destacado pensador e revolucionário inglês William Morris: “(...) sem as derrotas do passado, não teríamos jamais a menor esperança numa vitória final”.

Não podemos considerar casual que, do mesmo n° 90 da RHBN, conste uma longa entrevista com o historiador francês Jean-Freançois Sirinelli, sintomaticamente intitulada “Sem mocinhos nem bandidos”. O entrevistado declara que o seu trabalho “é fazer uma restituição de complexidades” e, segundo ele, “a militância é o contrário: há o bom e o mau”, ou seja, o militante revolucionário não pode ser um bom historiador. Segundo Sirinelli, “quando você tem convicções fortes (...) você tem uma visão do mundo maniqueísta, moldada de acordo com elas”. Tal caricatura da atividade revolucionária, reduzida a um simples maniqueísmo, é difundida com freqüência pelos “intelectuais orgânicos” (segundo Antônio Gramsci) a serviço dos setores dominantes, pois contribui para a desqualificação de todos aqueles que participaram ou participam da luta por transformações profundas na sociedade capitalista.

Segundo Sirinelli, o marxismo seria inaceitável para o historiador, porque “explica que há um sentido na história: a luta de classes”. O entrevistado da RHBN não aceita a explicação histórica baseada nos conflitos de classe presentes na sociedade capitalista, não concorda com a concepção de que os fenômenos sociais possam ser examinados à luz do embate entre dominados e dominantes. Ao rejeitar tais explicações, adota uma postura aparentemente objetiva e imparcial, mas que, na realidade contribui para justificar “teoricamente” as concepções presentes no dossiê “Ideais de chumbo”, ou seja, a desqualificação dos militantes que lutaram e morreram por ideais que não eram “de chumbo”, mas de democracia e justiça social.

Anita Leocadia Prestes é doutora em História Social pela UFF, professora do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da UFRJ e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes.

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03 maio 2013

Comissão da Verdade e justiça gaúcha decidem exumar corpo do ex-presidente João Goulart



Segundo informações do jornal Estado de São Paulo o Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul (MPF/RS) e a Comissão Nacional da Verdade (CNV) decidiram exumar o corpo do ex-presidente João Goulart (Jango).

A decisão foi tomada durante uma reunião da comissão ocorrida em Brasília, no dia 24 de abril de 2013. O objetivo é esclarecer se a causa da morte foi mesmo natural, conforme divulgaram na ocasião as autoridades do regime militar, ou outra, como por exemplo pela via do envenenamento. 

Jango poderia ter sido assassinato, segundo algumas fontes, com a substituição de medicamentos rotineiros feita por agentes da repressão uruguaia. Família e amigos próximos do ex-presidente naquele período defendem esta hipótese.

A família de João Goulart, que já tornou pública a autorização para exumação, pronunciou através de Christopher Goulart, advogado e neto de João Goulart. Segundo o site G1, Christopher disse que o procedimento pode significar a comprovação de uma “versão oficial mentirosa” e vai acabar com uma dúvida histórica levantada sobre a morte de Jango, além de abrir caminho para elucidar outras suspeitas sobre a ditadura brasileira.

No vídeo abaixo, um ex-agente do serviço de inteligência uruguaio, afirma que participou de uma operação que teria resultado na morte de João Goulart na Argentina em 1976.

João Goulart nasceu em São Borja (RS) em 1º de março de 1919. Em 1955, já considerado principal nome trabalhista do país foi eleito vice-presidente do Brasil. O fato se repetiu em 1960. Em 7 de setembro de 1961, com a renúncia de Jânio Quadros, assumiu a Presidência. Em 1° de abril de 1964, foi deposto pelo Golpe Militar, deixou o Brasil e exilou-se no Uruguai. Morreu em Mercedes, na Argentina, em 6 de dezembro de 1976. Os seus restos mortais estão na sua cidade natal.


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