Já não se fazem mais intelectuais e artistas como antigamente. Ou então, se continua a valer a máxima segundo a qual os intelectuais e principalmente os artistas funcionam como termômetros que medem as condições do ambiente em que nos toca viver, a situação está pior do que se imagina. Tempos bicudos.
Em qualquer das duas alternativas, e pior ainda se for o caso da confluência das duas, é bom botar as barbas de molho. Vivemos um tempo de guerras desencadeadas pelo interesse puro ao qual a inteligência parece se dobrar. Até a massa cinzenta que articula e formula os valores do espírito e da liberdade parece contaminada pelos eflúvios que emanam do intestino grosso da pequena política.
A julgar pelo que vazou nos jornais, o encontro que reuniu artistas e intelectuais do Rio de Janeiro com o candidato situacionista à presidência da República foi uma tristeza só. É sempre bom dar um desconto (nos jornais, com se sabe, muitas vezes a única coisa absolutamente certa é a data), mas como repercutiu nos dias seguintes e ninguém se desmentiu vale o publicado.
O conteúdo do debate, para espanto dos que se habituaram a admirar o talento de alguns que estavam ali reunidos, foi de fazer corar frade de pedra. Não é o caso de citar nomes. Importa mais saber o que foi dito, pois é na temática do encontro que se revela o tamanho do desalento e o grau de conformismo entre os presentes. Vale transcrever algumas pérolas tristes.
Houve lá quem se declarasse “indignado com os indignados”. Está feliz com os resultados do governo Lula e reclama que: “ninguém nunca falou do caixa dois da reeleição do Fernando Henrique”. Esquecido de que o próprio PT estrilou na época e com razão, acrescentou que não está “preocupado com ética no PT, ou qualquer tipo de ética. Para mim isso não interessa. Eu acho que o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país, entendeu?”. Um outro, que entendeu o sentido do raciocínio, corroborou: “política não existe sem mãos sujas”.
São manifestações espantosas de apoio rombudo a tudo que existe de feio e torto, agora apresentados de maneira agressiva como expressão do “realismo político”. Este governo fez o que qualquer outro governo faria, logo deve ser apoiado. Valei-nos Barão de Itararé. Uma vez declarada a impossibilidade prática do exercício da moralidade, então “locupletemo-nos todos”. Sem duvida, um clima de campanha inteiramente dessemelhante da eleição passada, quando intelectuais e artistas se juntaram na luta da “esperança contra o medo” e pelo resgate da ética na política. Por uma “nova gramática do poder”, lembram-se?
O poeta Solano Trindade escreveu, em belos versos, que para subir no pau de sebo da vida era preciso sujar as mãos. Mas escreveu para iluminar outros caminhos e condenar pragmatismo manco e de curto prazo. Ele sabia que o intelectual e o artista labutam contra os limites do real e, como tal e ao contrário daqueles que se reuniram no Rio, são artífices da liberdade contra o conformismo.