19 novembro 2006

O Outono do Torturador - Celso Lungaretti *

O coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra está sendo julgado na 23ª Vara Cível do Estado de São Paulo por seqüestro e tortura praticados em 1972/73 contra o casal César Augusto/Maria Amélia Teles e três parentes. As testemunhas de acusação foram ouvidas no dia 9 de novembro, tendo a repercussão da audiência na mídia provocado uma ampla mobilização de militares da reserva, em apoio ao réu.

Brilhante Ustra comandou, entre setembro/1970 e janeiro/1974, o DOI-Codi de São Paulo, o principal órgão de repressão aos grupos de esquerda que pegaram em armas contra a ditadura militar. Já foram apresentadas 502 denúncias de torturas referentes a esse período. Pelo menos 40 revolucionários foram assassinados no DOI-Codi, inclusive o jornalista Vladimir Herzog.

O processo contra Brilhante Ustra é de natureza declaratória: não implicará prisão ou indenização, objetivando apenas o reconhecimento oficial de que ele foi um torturador. O que não é pouco, em termos morais.

Os ex-colegas de farda e a defesa de Brilhante Ustra alegam que a Lei da Anistia de 1979 tornou inimputáveis tanto os repressores quanto os revolucionários. Já a família Teles e as entidades de defesa dos direitos humanos argumentam que essa restrição se refere apenas aos crimes, não às ações de natureza civil; foi este, também, o entendimento do juiz da 23ª Vara.

Isto é o que qualquer um pode ler no noticiário. Vamos ao que a imprensa não diz.

LEI DA ANISTIA IGUALOU VÍTIMAS E CARRASCOS

A anistia recíproca de 1979 foi um sapo engolido pela sociedade civil, que abriu mão do ideal de justiça em troca da libertação da maioria dos presos políticos e da volta dos exilados. Os militares, conscientes de que haviam incidido nas mesmas práticas punidas exemplarmente no julgamento de Nuremberg, fizeram uma barganha muito vantajosa: já que a redemocratização um dia acabaria ocorrendo, trataram de assegurar previamente a não-condenação de seus criminosos.

No fundo, tratou-se apenas da imposição da vontade do mais forte sobre o mais fraco. Tendo usurpado o poder em 1964, os militares governavam o País ilegalmente e sob terrorismo de estado há 15 anos. Usaram presos e exilados como moedas de troca para chantagear os oposicionistas, obrigando-os a aceitar uma solução que atou as mãos do Judiciário e o deixou impedido de cumprir seu papel.

Então, não é um acordo para ser respeitado, mas sim denunciado. E a iniciativa da família Teles poderá ser o primeiro passo nesta direção.

A ditadura militar foi responsável pela morte de mais de 400 revolucionários ou cidadãos suspeitos de sê-lo; pelo desaparecimento de 150 outros militantes, quase todos assassinados e sepultados em cemitérios clandestinos, como o que foi descoberto em Perus (SP); e pela tortura de milhares de brasileiros.

Brilhante Ustra e outros remanescentes dessa direita troglodita alegam, em contrapartida, que as organizações armadas de esquerda teriam vitimado 120 pessoas e ferido outras 330.

Não se trata, entretanto, de uma questão de números, embora o balanço continue sendo desfavorável à ditadura, por mais que seus apologistas distorçam fatos e manipulem estatísticas, em sites como o Terrorismo Nunca Mais e o Usina de Letras.

O Brasil e muitos outros países do 3º Mundo viveram, nas décadas de 1960 e 1970, a mesma situação dos países ocupados pelo nazi-fascismo durante a 2ª Guerra Mundial. O poder emanava das baionetas. Governos legítimos eram derrubados por conspiradores financiados e apoiados pelos Estados Unidos, como ficou evidenciado de forma cristalina no Brasil.

Em nosso país, a interferência começou com as pressões para que Getúlio Vargas deixasse o poder em 1945; continuaram com o incentivo aos golpistas da UDN, que só não conseguiram seu intento em 1954 porque a carta-testamento de Vargas provocou forte reação popular; e culminaram no apoio ao grupo militar castellista envolvido com a quartelada malograda de 1961 e responsável pela bem-sucedida de 1964.

CONFRONTO ENTRE CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE

Já não há dúvida nenhuma, para os historiadores dignos desse nome, de que não ocorreu aqui um “contragolpe preventivo”, como alegaram na época os militares, mas simplesmente o desfecho de uma conspiração urdida durante anos para a conquista do estado – que, aliás, depois serviria de modelo para a deposição de Salvador Allende no Chile.

No poder, os militares fecharam o Congresso Nacional sempre que lhes aprouve e suspenderam a vigência da Constituição, sobrepondo-lhes os famigerados atos institucionais que baixavam a bel-prazer; extinguiram partidos, sindicatos e entidades; cassaram os mandatos de representantes do povo; organizaram governos de fachada, “eleitos” por um Legislativo expurgado e intimidado; censuraram as artes e as comunicações; prenderam, baniram, torturaram, assassinaram, ocultaram cadáveres.

Na prática, comportaram-se como tropa de ocupação, tanto quanto os nazistas nas nações por eles conquistadas. E os cidadãos que ousaram enfrentá-los, apesar da terrível desigualdade de forças, equivalem em tudo e por tudo aos movimentos europeus de resistência da década de 1940.

A celebrada Resistência Francesa também atingiu vítimas inocentes em algumas ocasiões, mas a nenhum energúmeno ocorre hoje compará-la aos nazistas ou ao governo fantoche de Vichy.

Da mesma forma, devem-se reprovar alguns excessos cometidos pelos revolucionários brasileiros que combatiam de forma quase artesanal a poderosa engrenagem repressiva montada pelos militares e seus instrutores norte-americanos, mas é inaceitável e desonesto argüir uma pretensa equivalência dos crimes. Só um lado agrediu, continuada e sistematicamente, os valores mais sagrados da civilização.

Pois é disso que se tratou: um confronto entre civilização e barbárie.

A PENA DE BRILHANTE USTRA: EXECRAÇÃO PÚBLICA

Países como a Argentina e o Chile avançaram bem mais do que o Brasil na apuração dos crimes cometidos pelas ditaduras militares. Quanto à punição, ao contrário dessas nações que não relativizaram o sentimento de justiça e têm o mínimo respeito por seus mártires, continuamos na estaca zero.

Daí a importância de que Brilhante Ustra seja, como merece, exposto exemplarmente à execração pública.

Sua defesa alega que ele nada sabia das práticas cotidianas do órgão que comandava. Para tornar essa versão plausível, deveria ter anexado um atestado de surdez. Quem passou pelos porões da ditadura – ou, mesmo, morava nas redondezas – sabe quão inconfundível era a “trilha sonora” de uma sessão de tortura: os gritos raivosos dos torturadores e os urros inumanos dos torturados ao receberem choques elétricos; ruídos de socos, pontapés e objetos caindo.

Se hoje os comandantes fogem às suas responsabilidades, preferindo utilizar os comandados como biombo, bem diferente foi a atitude do general-presidente Geisel: ao tomar conhecimento do assassinato de Vladimir Herzog no DOI-Codi de Brilhante Ustra, não preferiu o caminho fácil da omissão, mas ordenou ao aparelho repressivo que evitasse uma repetição daquele fato; ao saber da morte de Fiel Filho nas mesmíssimas circunstâncias, não vacilou, extinguindo de imediato aquele órgão maldito e dispersando seus integrantes.

Um ditador podia ter, ao menos, dignidade pessoal. Um torturador, jamais. Nem antes, nem agora.

Quanto ao argumento de ordem humanitária – se não se puniu Brilhante Ustra (ou seu congênere chileno, Pinochet) no momento certo, não seria melhor agora deixar o ancião morrer em paz? – é respeitável. A prescrição dos delitos evita que cidadãos sejam punidos quando já não têm periculosidade, possibilidade de reincidir e, às vezes, nem mesmo discernimento para entenderem o porquê da punição.

A prática do estado de Israel de caçar criminosos de guerra nazistas no mundo inteiro, até seqüestrando-os para submetê-los a julgamento, chocou a consciência civilizada. Foi excessiva, além de haver incidido em novos crimes a pretexto de punir os crimes passados.

Não equilibraríamos os pratos da Justiça seguindo esse exemplo – nem, no outro extremo, simplesmente passando uma borracha em todas as atrocidades que foram cometidas durante a ditadura.

Para encontrarmos um ponto de equilíbrio, o caso de Brilhante Ustra é dos mais propícios. Primeiramente, porque não se pede sua prisão, mas, apenas, que lhe seja oficialmente imputada a responsabilidade moral por tudo aquilo que fez.

E, tendo escrito dois livros de justificação dos crimes contra a humanidade que ele e outros torturadores cometeram, bem como de calúnias contra suas vítimas, mantém a periculosidade, já que tenta envenenar as novas gerações; reincide em seus crimes, na medida que defende as práticas da força contra o Direito; e prova que não perdeu o entendimento das coisas, embora a velhice não lhe tenha trazido lucidez nem arrependimento.

Não se trata de satisfazer desejos de vingança, mesmo que justificáveis. Mas, de sinalizar para os pósteros que certos limites jamais devem ser transpostos. Pois aqueles que os transpuserem não escaparão da punição, seja com as penas de morte e detenção decididas pelo tribunal de Nuremberg, seja com a marca da infâmia que, se for feita justiça, vai acompanhar Brilhante Ustra pelo resto dos seus dias.

P.S.: Depois que este artigo já estava redigido, saiu na "Folha de S.Paulo" de 17/11/2006 um artigo sobre a anistia, escrito pelo ex-presidente José Sarney, responsável por um dos piores governos que o Brasil já teve. Além de comprovar que a Lei da Anistia de 1979 foi "negociada" com os (imposta pelos) militares, o artigo, nas entrelinhas, desaconselha a ação civil contra Brilhante Ustra: "Não remexamos esses infernos, porque não é bom para o Brasil".

É grotesco um ex-presidente dizer que o Brasil só será uma "sociedade reconciliada" sepultando fatos "no silêncio da história". A reconciliação se consegue por meio da justiça, não de arranjos políticos em que prevalece a lei do mais forte.

Eis os principais trechos do artigo de Sarney:

"Foi no governo Figueiredo que o assunto amadureceu. Ele mandou uma lei que foi além do que pensava a oposição que pudesse ser feito. Mas não era completa. Ela isentava "os condenados pela Justiça Militar, em razão de atos de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal". No meu governo (novembro de 1985), a anistia completou-se quando abolimos esse dispositivo.

"A partir de então, não haveria mais presos políticos no Brasil e concluía-se um ciclo histórico. A anistia, como não poderia deixar de ser, era ampla, atingindo os dois lados envolvidos na luta. Com essa interpretação, o ministro Petrônio Portella, que foi quem negociou o texto, conseguiu a aprovação dos militares e, portanto, sua transformação em lei.

"(...)Portanto, é necessário um esforço nacional para, de uma vez por todas, sepultarmos esses fatos no silêncio da história. Não remexamos esses infernos, porque não é bom para o Brasil. Essa conduta nos distingue dos nossos vizinhos e, assim, o Brasil é uma sociedade reconciliada."

* Celso Lungaretti, jornalista e escritor, é ex-preso político e autor do livro “Náufrago da Utopia”

… leia na íntegra e comente


04 novembro 2006

Abaixo Assinado em solidaridade a Emir Sader

A situação exige apoio público ao professor Emir Sader, pois é preocupante, ferindo não apenas a liberdade de expressão, mas principalmente a liberdade intelectual nas instituições públicas.
O Senador Jorge Bornhausen referiu-se ao PT afirmando que o PFL, partido do qual é Presidente, ficaria livre "desta raça pelos próximos 30 anos".
Não é preciso fazer parte do PT para considerar a afirmação ofensiva.
O Sociólogo Emir Sader publicou um artigo em resposta na Revista eletrônica Agência Carta Maior. Ele afirmara que o Senador seria da raça racista e banqueira e uma das pessoas mais repulsivas da República. O artigo pode ser consultado pela internet www.cartamaior.com.br
O Sociólogo foi processado pelo Senador por injúria e nesta semana saiu a condenação: um ano de detenção em regime semi aberto (convertida prestação de serviços à comunidade ou entidade pública em jornadas não inferiores a oito horas) e perda do cargo de professor da UERJ.
Segundo o juiz, o Sociólogo, ao fazer referência à condição de professor da universidade desrespeitou a Administração Pública, não merecendo o cargo.
O Senador abusou da liberdade de expressão ao ofender um partido com uma denominação tão rude mas foi ainda mais infeliz quando preferiu processar alguém por crime de opinião. Afinal, enquanto o Senador está protegido pela imunidade parlamentar sobre crimes de opinião, o Sociólogo não está.
O que seria legítima defesa da honra, manifesta pela troca de opiniões em tom análogo (por mais que possamos discordar de conversas nesse tom) apenas foi convertido em processo na tréplica.
A réplica foi nos moldes da democracia: um artigo na imprensa eletrônica, chamando ao diálogo o ofensor inicial.A autonomia universitária e a liberdade de expressão são fundamentais aos tempos democráticos em que vivemos.
O segundo princípio foi violado quando a resposta uma réplica agressiva foi umprocesso. O primeiro foi violado quando o juiz, contrapondo-se a preceito constitucional, decide, como se reitor da universidade fosse, que o Sociólogo não deve mais ser professor daquela instituição.
Que Emir Sader recorra da sentença, espero que já o tenha feito.
Que possamos exercitar a democracia sem correr o risco de processos quando autoridades se sentirem ofendidas quando elas nos tiverem agredido antes.
Está circulando pela internet um abaixo-assinado, encabeçado por Antônio Cândido, em solidariedade a Emir Sader.
Enviei meu e-mail pedindo que meu nome seja incluído.
Quem quiser fazer o mesmo basta escrever para: solidariedadeaemirsader@hotmail.com

… leia na íntegra e comente


Cinema



… leia na íntegra e comente


03 novembro 2006

Homenagem a Marighella

Reconhecimento ( Jorge Amado)

“Chegas de longa caminhada a este teu chão natal, território de tua infância e adolescência.

Vens de um silêncio de dez anos, de um tempo vazio, quando houve espaço e eco apenas para a mentira e a negação.

Quando te vestiram de lama e sangue, quando pretenderam te marcar com o estigma da infâmia, quando pretenderam enterrar na maldição tua memória e teu nome.

Para que jamais se soubesse da verdade de tua gesta, da grandeza de tua saga, do humanismo que comandou tua vida e tua morte.

Trancaram as portas e as janelas para que ninguém percebesse tua sombra erguida, nem ouvisse tua voz, teu grito de protesto.

Para que não frutificasses, não pudesses ser alento e esperança.

Escreveram a história pelo avesso para que ninguém soubesse que eras pão e não erva daninha, que eras vozeiro de reivindicações e não pragas, que eras poeta do povo e não algoz.

Cobriram-te de infâmia para que tua presença se apagasse para sempre, nunca mais fosse lembrada, desfeita em lama.

Esquartejaram tua memória, salgaram teu nome em praça pública, foste proibido em teu país e entre os teus.

Dez anos inteiros, ferozes, de calúnia e ódio, na tentativa de extinguir tua verdade, para que ninguém pudesse te enxergar.

De nada adiantou tanta vileza, não passou de tentativa vã e malograda, pois aqui estás inteiro e límpido.

Atravessaste a interminável noite da mentira e do medo, da desrazão e da infâmia, e desembarcas na aurora da Bahia, trazido por mãos de amor e de amizade.

Aqui estás e todos te reconhecem como foste e serás para sempre: incorruptível brasileiro, um moço baiano de riso jovial e coração ardente.

Aqui estás entre teus amigos e entre os que são tua carne e teu sangue. Vieram te receber e conversar contigo, ouvir tua voz e sentir teu coração.

Tua luta foi contra a fome e a miséria, sonhavas com a fartura e a alegria, amavas a vida, o ser humano, a liberdade.

Aqui estás, plantado em teu chão e frutificarás. Não tiveste tempo para ter medo, venceste o tempo do medo e do desespero.

Antonio de Castro Alves, teu irmão de sonho, te adivinhou num verso: “era o porvir em frente do passado”.

Estás em tua casa, Carlos; tua memória restaurada, límpida e pura, feita de verdade e amor.

Aqui chegaste pela mão do povo.
Mais vivo que nunca, Carlos”.

Texto escrito por Jorge Amado, amigo de Marighella e seu companheiro na bancada comunista da Assembléia Nacional Constituinte e na Câmara dos Deputados entre 1946 e 1948.

Lido por Fernando Santana em 10 de dezembro de 1979 – Dia Universal dos Direitos do Homem – por ocasião do sepultamento dos restos mortais de Marighella no cemitério das Quintas, em Salvador.

… leia na íntegra e comente


Homenagem a Marighella

Na noite de 4 de novembro de 1969 surpreendido por uma emboscada dos agentes do DOPS sob a chefia do delegado Sérgio Paranhos Fleury, na Alameda Casa Branca, SP, morreu Carlos Marighella

Nossa homenagem a sua memória


Vai, Carlos, ser Marighella na Vida (José Carlos Capinan)
Maio 1994
Ai Brasil,
Quem escapa do desamor em tuas noites ferozes
Quem se salva da ciência dos teus doutos sábios doutores
Quem foge de teus senhores algozes
Nasce com alguma forma de homem
E se não morre dos sete dias
Nem do angu de farinha
Vai um dia pro batismo
Recebe por sorte um nome
Vai ser João ou Maria
Vai ser José ou das Dores
Vai ser de Deus Jesus ou dos Santos
Ou serão Carlos que nunca foram
E serão assim brasileiros como tantos
E serão sempre brasileiros
Que serão de algum terreiro
Bloco sujo carnavalescoLesco-lesco café ralo com torresmo
Ou de nada nada mesmoComo nós assim a esmo
E quem capitão de areia num livro de Jorge Amado
Aprende lição das coisas
E quem insone nas madrugadas é mulher de lobisomem
Ou aprende nas ciladas que o pior lobo dos homens
Talvez seja o próprio homem
Quem retirante escapa num quadro de Portinari
Quem poeta quer ter frátria de Veloso ou de Vinícius pátria amada
Quem gracilianamente deságua desta vida seca agrária
Ou na solidão urbana sonha a vida humana solidária
Quem na cartilha suburbana soletra o nome fulô
Quem nasce de negra índia ou branco
E sobe ligeiro ou manco as ladeiras do Pelô
Quem descasca uma banana
E se consome no sonho da grande mesa comum
Para a imensa toda
Vai virando jacarandá ou poesia pau-brasil
Virando samba e cachaça
Se torna gol de Garrincha se torna mel de cabaça
Se torna ponta de lança do esporte clube da raça
Se torna gente embora gente nem nascida
Mas (quem sabe?) pode ser
Um dia gauche na vida
Se torna nossa aquarela
Torna-se Carlos Marighella
Um anjo doce na morte
Que os homens tortos quiseram
Sem que te matassem ainda

… leia na íntegra e comente


02 novembro 2006

Heróis revolucionários nas ruas de BH

Há cerca de dez anos, as ruas de alguns bairros de Belo Horizonte (MG) exibem nomes de homens e mulheres (a maioria natural de Minas) que de alguma forma lutaram contra o gerenciamento militar no país (1964-1985).
Essa homenagem foi prestada em 1994, através do projeto Rua Viva, que rebatizou cerca de 90 ruas com o nome desses heróis — muitos assassinados por envolvimento na resistência armada.
Trata-se de uma exceção, porque são poucos os lugares em que militantes de esquerda figuram nas placas de ruas, avenidas e monumentos.
Em geral, os logradouros ostentam nomes de políticos reacionários e representantes civis ou militares da classe dominante.
Do projeto nasceu o livro Rua Viva, trazendo a localização de cada via pública e informações biográficas sobre os homenageados.
É uma forma de resistir à imposição do panteão histórico das classes dominantes, empurrado goela abaixo desde os tempos da Coroa portuguesa. Uma maneira também de manter viva a memória da luta revolucionária no país.

A antiga Rua Doze, do bairro Braúnas, leva agora o nome de Áurea Eliza Pereira Valadão.
Essa mineira de Areado, nascida em 6 de abril de 1950, teve a infância e a adolescência de muitas outras meninas mineiras da época: morou numa fazenda, onde o pai trabalhava, recebeu formação religiosa e passou um tempo em um internato.
A transferência para o Rio de Janeiro, em 1964, parece ter mudado sua vida profundamente. Concluído o 2° grau no Colégio Brasileiro, em São Cristóvão, foi cursar Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1967.
Na universidade, participou ativamente do movimento estudantil, compondo o Diretório Acadêmico de sua faculdade. Lá conheceria dois companheiros que também se envolveriam na luta armada: Antônio de Pádua Costa, o Piauí, e Arildo Valadão, com quem se casaria em 1970.
Os três eram militantes do Partido Comunista do Brasil e viajaram para o Araguaia no segundo semestre de 1970.
Áurea trabalhou como professora na região de Caianos, ingressando no destacamento C das Forças Guerrilheiras do Araguaia, comandado por Paulo Mendes Rodrigues. Segundo a versão oficial, Áurea Eliza teria sido presa em Marabá (PA), em 1973, e estaria “desaparecida“ desde 1974.
Em declaração publicada no Jornal de Brasília, em 16/04/1992, Vitória Grabois (filha do dirigente comunista Maurício Grabois) afirmou que o corpo de uma jovem mulher, encontrado por legistas da Universidade de Campinas (Unicamp), poderia ser de Áurea ou de Maria Lúcia Petit, outra militante “desaparecida” durante a Guerrilha do Araguaia.
Nonato da Rocha compôs o “Cordel da Guerrilha do Araguaia” e assim se referiu à Áurea: “Áurea era professora/ E decidiu improvisar/ Duma tapera, uma escola/ Prá criançada estudar/ Ela nada cobrava/ Ensinava e brincava/ Com as crianças do lugar.” (trecho do livro Rua Viva).

Ziláh Souza Spósito tinha um irmão ilustre: Henfil, o cartunista. Nascida em Bocaiúva (MG), no dia 22 de abril de 1928, ajudou a fundar a Ação Católica, onde militou.
Fez carreira na Receita Federal, aposentando-se em 1988. Morreu em Belo Horizonte, no dia 19 de fevereiro de 1992. A Rua Ziláh Souza Spósito fica no Bairro Saramenha.

Nascido em 27 de abril de 1903, o padre Agnaldo Galvão Leal é um dos não mineiros homenageados pelo Rua Viva: é natural de Sergipe, cidade de Itaporanga D’Ajuda. Entre suas realizações estão a criação da Escola de Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), a implementação da casa das domésticas e o seu trabalho na Ação Católica. Faleceu em 17 de maio de 1993.

Ângelo Pezzuti da Silva, psiquiatra, nasceu em 27 de abril de 1946, em Araxá (MG). Participou das primeiras ações armadas desde 1968. Foi preso pela Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), em 13 de janeiro de 69, em Belo Horizonte.
Nas mãos das forças reacionárias sofreu diversas torturas. Esteve exilado na Argélia, no Chile e na França. Um acidente de motocicleta, em Paris, matou Ângelo em setembro de 75.
A rua com seu nome fica no bairro Salgado Filho.

O professor Lenine Moreira da Silva (que dá nome a uma rua do bairro Barreiro) não pertenceu a nenhuma organização de esquerda, mas marcou presença no movimento estudantil entre o fim dos anos 60 e início dos 70.
Era mineiro de Diamantina, tendo nascido em 30 de abril de 1944. Faleceu em 14 de dezembro de 1992 devido a problemas cardíacos.

Alcides Salles Filho era capixaba de Vitória (ES). Nasceu em 2 de maio de 1945. Militou na AP e na APML, e trabalhou como operário em Belo Horizonte. Foi preso em 1968 por fazer panfletagem de um movimento grevista.
Viveu na clandestinidade em São Paulo e foi preso pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury em 1972. Morreu atropelado em BH no ano de 1979. Sua rua fica no bairro do Trevo.

Quem passa pela Rua Osvaldo Orlando Costa, no bairro Braúnas, Belo Horizonte, talvez nem desconfie do valor de sua biografia para a história revolucionária do país.
Nascido em 27 de abril de 1938, em Passa Quatro, sul de Minas, Osvaldo era conhecido como Osvaldão ou Mineirão.
O apelido se explica: ele era um negro forte, de quase dois metros de altura, que participou de vários combates à frente do Destacamento B das Forças Guerrilheiras do Araguaia.
Antes de se tornar guerrilheiro, Osvaldão foi atleta (praticou atletismo e se sagrou campeão carioca de boxe nos anos 50), oficial do CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) e cursou até o 3° ano de engenharia na antiga Tchecoslováquia. Também estudou na República Popular da China.
Depois do golpe de 1964, entrou na clandestinidade devido a sua filiação ao Partido Comunista do Brasil.Entre 66 e 67, chegou à região do Araguaia. Lá, atuou como garimpeiro e mariscador, sendo considerado o maior conhecedor de toda a área, segundo informações do livro Rua Viva. Em 1969 foi morar às margens do Rio Gameleira, vindo a abrigar mais tarde outros companheiros em sua casa.Foi assassinado em abril de 1974, perto da localidade de São Domingos.
O livro cita uma reportagem, publicada no Jornal do Brasil de 22/03/1992, revelando detalhes de sua morte. Alguns trechos: “Ele teria ‘topado’ de frente com uma patrulha do Exército, levando um primeiro tiro de espingarda calibre 32 disparada por Mineiro, (...) guia recrutado pelo Exército.
Caído, baleado na barriga, Osvaldão foi fuzilado pelos soldados. Seu corpo foi embrulhado em saco de lona e içado por um helicóptero. Segundo um dos participantes da patrulha, a corda se rompeu no ar a uma altura de 10 metros e, na queda, o corpo teve o tornozelo fraturado.” Em seguida, mais um ato de crueldade dos assassinos: Osvaldo foi decapitado e sua cabeça exposta.

… leia na íntegra e comente


“Náufrago da Utopia” de Celso Lungaretti

Se você é fã do livro “Náufrago da Utopia” de Celso Lungaretti entre no site Geração Editorial e veja no link:
- Fotos do autor e capa do livro
- Algumas das matérias que já saíram sobre o livro
- Primeiro capitulo disponível para download
- Release e entrevista com o autor


Quem ainda não tem este livro pode comprar pelo site, pelo e mail ou pelo telefone 11.3256-4444 (com Flávia)

… leia na íntegra e comente


Proximo Domingo 5/11

Caraca!!!! Domingo faço 46 anos
Só esse Limink pra tentar me entender

"Quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que o meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência"

Poema que aconteceu (Drummond)
Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

… leia na íntegra e comente


 
 

Diversos e Afins

Free PageRank Checker Powered by FeedBurner
Central Blogs

Creative Commons License
Creative Commons 3.0 Brasil License

Fotos do Topo do Blog
Passeata - Evandro Texeira
Liberdade - Internet
MST - Oscar Niemeyer

eXTReMe Tracker

Visitantes e Navegantes


Guardados