23 fevereiro 2007

Eduardo Galeano

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada ....
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns que custam menos que a bala que os mata.

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Datas para ficar na memória - Março

02.mar.63 — Goulart promulga o Estatuto do Trabalhador Rural
13.mar.64 — Goulart anuncia em comício, na Central do Brasil no Rio, a necessidade das reformas de base
24.mar.64 — Começa a Revolta dos Fuzileiros Navais, no Rio, chefiada pelo cabo Anselmo
30.mar.64 — Discurso pró-reformas de Jango no Automóvel Clube, no Rio
31.mar.64 — O presidente da República, João Goulart, é deposto pelo golpe militar
28.mar.68 — O estudante Édson Luís Lima Souto morre em conflito de estudantes com a PM em frente ao restaurante universitário Calabouço, no Rio, quando o movimento estudantil preparava um protesto contra as condições do ensino brasileiro
29.mar.68 — Cerca de 60 mil pessoas participaram do enterro de Édson Luis. Seguem-se, nos dias seguintes, manifestações e protestos em várias cidades do país
11.mar.70 — O cônsul japonês Nobuo Okuchi é seqüestrado por integrantes da VPR em São Paulo
14.mar.70 — Cinco prisioneiros políticos, entre eles a madre Maurina Borges, são soltos em troca da libertação de Nobuo Okuchi
15.mar.70 — O cônsul japonês é libertado
17.mar.73 — O estudante da USP Alexandre Vanucchi Leme é morto sob tortura no DOI-Codi de São Paulo
mar.1975 — É criado, em São Paulo, o Movimento Feminino pela Anistia, presidido por Teresa Zerbini
AÇÕES DA DIREITA
19.mar.64 — Cerca de 500 mil pessoas fazem passeata contra Jango no centro de São Paulo, na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Carlos Lacerda é um dos participantes
22.mar.65 — Ocorre a primeira eleição após o golpe. Faria Lima é eleito prefeito de São Paulo com apoio de Jânio
24.mar.66 — São oficializados os partidos MDB e ARENA. O MDB reúne principalmente parlamentares do extinto PTB que se opuseram ao regime militar
13.mar.67 — É promulgada a Lei de Segurança Nacional
15.mar.67 — Tomam posse o marechal Costa e Silva e o vice Pedro Aleixo. Neste mesmo dia, entra em vigor a nova Lei de Segurança Nacional e a Constituição de 67
15.mar.75 — Os Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro se fundem sob nome de Estado do Rio de Janeiro

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A Barbarie nos ronda - Celso Lungaretti *

Cada vez que acontece um episódio policial mais chocante ou que uma organização criminosa coloca as autoridades em xeque, a coletividade passa alguns dias discutindo quais medidas poderiam ser adotadas para um combate mais eficiente à criminalidade.

É sempre uma espécie de catarse, que dura apenas até uma nova ocorrência qualquer dominar o noticiário. E pouquíssima coisa se aproveita das propostas apresentadas com tamanho estardalhaço e debatidas com tanto furor retórico.

O que fazer, afinal, contra os cães danados que dilaceram crianças e contra as máfias que colocam grandes cidades em polvorosa?

Muitos cidadãos gostariam de ver aplicadas aqui as punições drásticas dos países muçulmanos: que se cortassem as mãos dos ladrões, o pênis dos estupradores e a vida dos assassinos. Olho por olho, dente por dente.

Outros pedem mais policiais nas ruas, de preferência atirando primeiro e perguntando depois... nos bairros pobres ou quando os suspeitos são negros, pardos ou malvestidos, é claro.

E há os que defendem a maioridade penal a partir dos 14 ou 16 anos, o que somente fará os bandidos diminuírem proporcionalmente a idade do recrutamento de seus serviçais, até que tenhamos crianças empunhando fuzis e metralhadoras. O velho chavão moralista mudará de “hoje mocinho, amanhã bandido” para “hoje bandido, amanhã defunto”.

No fundo, tudo isso são paliativos. Inexiste forma ideal de se lidar com aqueles que já se tornaram bestas-feras, nocivos para si próprios e para a sociedade. Pode-se, quanto muito, controlá-los – e a um custo dos mais elevados para um país de tantas e tão dramáticas carências.

Exterminá-los, jamais! Isso levaria a violência a patamares apocalípticos, pois os bandidos não teriam mais nada a perder. Nós, sim, perderíamos, ao abrirmos mão da civilização arduamente construída nos milênios que nos separam da horda primitiva, voltando à estaca zero.

O xis do problema, no entanto, nunca é discutido: o fato de que a criminalidade é intrínseca ao capitalismo e subsistirá enquanto não substituirmos o primado da ganância e da competição pelo da solidariedade e da cooperação.

Vivemos numa sociedade que desperdiça o potencial já existente para se proporcionar uma existência digna a cada habitante do planeta; que faz as pessoas trabalharem muito mais do que seria necessário para a produção do necessário e útil; que condena parcela substancial da população economicamente ativa ao desemprego, à informalidade e à mendicância; que estimula ao máximo a compulsão consumista sem dar à maioria a condição de adquirir seus objetos de desejo; que retirou do trabalho qualquer atrativo como realização individual, tornando-o apenas um meio para obtenção do vil metal (ou seja, uma nova forma de escravidão).

Então, os que ainda têm emprego e os empreendedores continuarão irrealizados, esforçando-se demais para nunca obterem as gratificações almejadas, pois a lógica do capitalismo é perpetuar a insatisfação e mitigá-la com o consumo (a cenoura colocada à frente do asno para que ele continue puxando a carroça). Um círculo vicioso perverso que faz a fortuna dos analistas, dos farsantes religiosos e dos picaretas da auto-ajuda.

Alguns excluídos continuarão vivendo das esmolas dos programas oficiais e vão ajudar a eleger aqueles a quem convém mantê-los em eterna dependência.

Outros tentarão obter pela força aquilo que jamais alcançarão pela competência. E servirão de espantalho para intimidar as classes superiores, fazendo-as crer que uma sociedade policial seria a solução.

É paradoxal que, em nossa época, formidáveis avanços científicos e tecnológicos coexistam com uma regressão ao ambiente medieval, com os nobres entrincheirados em condomínios de alto padrão, circulando em veículos brindados e só podendo levar vida social em shopping centers, não ousando mais exporem-se fora de suas fortalezas. No exterior desses espaços fortificados e vigiados, os bárbaros estão sempre à espreita, prontos para desferir seus golpes.

Uma previsão terrível de Friedrich Engels, um dos pais do marxismo: quando uma sociedade consegue aniquilar as forças progressistas que poderiam levá-la a um estágio superior de civilização, acaba sendo destruída pela barbárie. O paralelo é com Roma, que venceu os gladiadores de Spartacus mas sucumbiu aos povos atrasados, condenando o mundo a séculos de trevas.

Resta saber se, no século 21, a ameaça maior à civilização se corporifica nos criminosos cada vez mais abusados e no surto de populismo autoritário no 3º mundo, nos fanáticos religiosos que derrubam torres gêmeas ou na fúria com que a natureza começa a reagir às agressões sofridas.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor

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09 fevereiro 2007

Desfile do Simpatia

Amanha 10/02/2007 é dia do Simpatia em Ipanema

Concentração 16 hs Praça General Osório


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Datas para ficar na memória - Janeiro

16.jan.69 — O governo divulga lista com o nome de 43 políticos que têm seus mandatos cassados
26.jan.69 — O capitão Carlos Lamarca realiza a "expropriação" de armas e munição do quartel de Quitaúna, em Osasco (SP)
16.jan.70 — Mário Alves, um dos fundadores do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), é preso, no Rio, e morto sob tortura
26.jan.70 — O decreto-lei 1.077 institui a censura prévia a espetáculos e publicações
13.jan.71 — O frei Tito de Alencar é banido do Brasil
16.jan.71 — Enrico Bucher é libertado depois de ser trocado por prisioneiros políticos
20.jan.71 — O deputado Rubens Paiva é preso, no Rio, morto sob tortura e dado como desaparecido
07.jan.73 — Os militantes da VPR Eudaldo Gomes da Silva, Pauline Reichstul, Evaldo Luís Ferreira de Souza, Jarbas Pereira Marques, José Manoel da Silva e Soledad Barret Viedma são torturados e mortos no município de Paulista (PE), após informações do cabo Anselmo. O episódio ficou conhecido como "massacre da chácara São Bento"
14.jan.74 — Lúcio Petit da Silva desaparece após tiroteio com soldados no Araguaia
22.jan.74 — Tem início a censura prévia a rádios e TVs
17.jan.76 — O metalúrgico Manuel Fiel Filho é encontrado morto nas dependências do DOI-Codi. A explicação para a morte do operário é que ele teria se suicidado
12.jan.84 — Comício reúne 60 mil pessoas em Curitiba (PR) e lança campanha Diretas-Já
16.jan.85 — PT expulsa três deputados que participaram do Colégio Eleitoral (Nunca concordei com essa atitude mas esse era o Bom e Velho PT)

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Datas para ficar na memória - Fevereiro

18.fev.62 — O PCB (Partido Comunista do Brasil) é reorganizado sob a sigla PCdoB. A dissidência continua sob o título de PCB, porém como Partido Comunista Brasileiro
16 a 18.fev.68 — Greve dos trabalhadores da Cobrasma em Osasco (SP)
fev.77 — O Brasil manda sua primeira delegação oficial a Cuba desde 1964
14.fev.78 — É fundado o Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA) do Rio de Janeiro
11.fev.79 — O CBA-SP consegue exibir, no estádio do Morumbi, durante jogo entre Corinthians e Santos, uma grande faixa com os dizeres "Anistia ampla, geral e irrestrita", no meio da torcida corintiana. A faixa é transmitida pelas redes de televisão que exibem o jogo e os jornais do dia seguinte circularam com fotos do fato
10.fev.80 — É aprovado o manifesto de criação do PT (Partido dos Trabalhadores)
12.fev.80 — O cientista Albert Sabin abandona o cargo de consultor especial do Ministério da Saúde após denunciar o governo do ex-presidente Médici de manipular dados referentes às condições de saúde no país entre 1969 e 1973

Ações da Ditadura
05.fev.66 — É decretado o Ato Institucional n.º 3, que institui eleições indiretas para governador e a nomeação de prefeitos
09.fev.67 — É sancionada a nova Lei de Imprensa
01.fev.69 — O AI-6 modifica a estrutura do Supremo Tribunal Federal e transfere para a Justiça Militar os crimes contra a segurança nacional
07.fev.69 — O Conselho de Segurança Nacional cassa três senadores e 18 deputados do MDB
26.fev.69 — O AI-7 suspende as eleições e o decreto-lei 477 define as infrações de professores e estudantes

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Contagem Regressiva para a Humanidade - Celso Lungaretti *

Não será como o místico Antônio Conselheiro previu. O sertão não vai virar mar, nem o mar virar sertão. Pelo contrário, o sertão ficará ainda mais árido e o mar vai encorpar-se com o derretimento de geleiras. Tempestades, tufões, furacões, maremotos e tsunamis se tornarão bem mais devastadores. A desertificação de outras áreas avançará. Safras vão ser destruídas e a fome aumentará. A água que estará sobrando em alguns quadrantes, vai faltar em outros. Imensos contingentes humanos terão de deixar seus lares e buscar a sobrevivência alhures. Como uma amarga ironia, podemos dizer que o Brasil finalmente se igualará aos países desenvolvidos: haverá retirantes também no 1º Mundo.

Isto é o que se pode concluir da parte já divulgada do quarto relatório de avaliação da saúde da atmosfera produzido pelo Intergovernmental Panel on Climate Change (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), órgão da ONU que congrega especialistas de 40 países. Uma novidade é que agora existe uma quase certeza científica de que as alterações climáticas provêm mesmo da insensatez humana, causadora de uma concentração inédita dos gases que provocam o efeito estufa na atmosfera. Fabricamos demasiados automóveis e queimamos demasiadas florestas. A conta está chegando.

Esse relatório, que sintetiza as contribuições de 600 autoridades no assunto, permite antever que a escalada catastrófica virá num crescendo, intensificando-se sobretudo na segunda metade do nosso século. E nada há a fazer para impedi-la, pois os danos causados já são irreversíveis. Nem que todos os veículos motorizados do planeta parassem imediatamente de circular, a temperatura deixaria de subir. Vêm tempos difíceis e a humanidade terá de passar por eles.

Mas, para que haja um século 22, teremos de corrigir a partir de agora nosso modelo econômico, deixando de priorizar o lucro em detrimento do meio ambiente. O atendimento das expectativas de cada consumidor não é um mandamento divino nem o planeta está aí para se sujeitar eternamente à faina predadora dos humanos. Teremos de aprender a respeitá-lo, a conviver harmoniosamente com ele. Somos seus locatários, não seus donos. Se continuarmos dilapidando insensivelmente a propriedade, o senhorio nos expulsará. É simples assim.

A grande questão é: o capitalismo comporta uma mudança radical das prioridades humanas? Existe alguma conciliação possível entre o direcionamento obsessivo dos esforços humanos para a obtenção do lucro e o imperativo de os homens trocarem a competição pela cooperação, fundamental para a travessia das próximas décadas e para a correção de rumos que se impõe?

A resposta é óbvia: não. O alerta lançado na década de 1960 por filósofos como Herbert Marcuse e Norman O. Brown está sendo confirmado da maneira mais dramática. O capitalismo, com a prevalência dos interesses individuais sobre as necessidades coletivas, leva à destruição da humanidade, num quadro em que os recursos indispensáveis à sobrevivência da espécie humana são finitos e têm de ser aproveitados de forma racional e compartilhada.

A contagem regressiva está em curso. Resta saber se seremos capazes de transcender nossas limitações e nossa cegueira, passando a colocar em primeiro plano “nós” e “os que virão depois”. Pois o mundo do egoísmo e da ganância deixará de existir, de um jeito ou de outro.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor


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