"Quem manda aki nessa porra é nóis!"
A frase acima ilustra perfeitamente o que está acontecendo com a Educação no país ou fui eu que a inventei, só para fazer graça e exercitar o calão? Não mostra a que nível chegou a destruição moral do docente e do que a escola representa? Já a vi pichada em pelo menos duas escolas em que trabalhei. Uma delas: Centro de Ensino Fundamental 24 de Ceilândia, onde um garoto, olímpica e gloriosamente, praticou o seu desportivo lançamento de cadeiras contra as paredes da sala de aula.
Como professor da rede pública do Distrito federal, venho a público confirmar, com todas as letras, e com o conhecimento de causa de quem sabe o que pode acontecer numa escola pública no período da noite, o escândalo que hoje, dia 25 de outubro, um telejornal da Rede Globo noticiou para todo o país em horário nobre, um dos jornais mais assistidos em todo o país: a destruição do Erário da Secretaria de Educação do DF pelos próprios alunos.
No começo, apenas os jornais locais noticiaram. E quando eu vi as cenas, não tive dúvida. Eu reconheci. Agora, tem sido propalado em rede nacional, em várias emissoras. Mais fácil para dizer, então, o que tenho a dizer sobre os fatos recentes, registrados em vídeo por outro que foi senão aluno meu, em tempos nada remotos.
O indivíduo filmado, matriculado no CEF 24, que apareceu nas imagens da TV quebrando as carteiras da sala de aula e o bolso do pagador de impostos, é um problemático famoso daquele estabelecimento de ensino, onde trabalhei até agosto deste ano, quando tive de ser deslocado urgentemente devido a uma ameaça que sofri. Antes que eu deixasse a escola, porém, eu solicitei à direção que suspendesse o referido, por grave desacato à minha pessoa, o que foi feito sem demora, muito embora tal suspensão não tenha surtido efeito algum, evidentemente.
Como professor da rede pública do Distrito federal, venho a público confirmar, com todas as letras, e com o conhecimento de causa de quem sabe o que pode acontecer numa escola pública no período da noite, o escândalo que hoje, dia 25 de outubro, um telejornal da Rede Globo noticiou para todo o país em horário nobre, um dos jornais mais assistidos em todo o país: a destruição do Erário da Secretaria de Educação do DF pelos próprios alunos.
No começo, apenas os jornais locais noticiaram. E quando eu vi as cenas, não tive dúvida. Eu reconheci. Agora, tem sido propalado em rede nacional, em várias emissoras. Mais fácil para dizer, então, o que tenho a dizer sobre os fatos recentes, registrados em vídeo por outro que foi senão aluno meu, em tempos nada remotos.
O indivíduo filmado, matriculado no CEF 24, que apareceu nas imagens da TV quebrando as carteiras da sala de aula e o bolso do pagador de impostos, é um problemático famoso daquele estabelecimento de ensino, onde trabalhei até agosto deste ano, quando tive de ser deslocado urgentemente devido a uma ameaça que sofri. Antes que eu deixasse a escola, porém, eu solicitei à direção que suspendesse o referido, por grave desacato à minha pessoa, o que foi feito sem demora, muito embora tal suspensão não tenha surtido efeito algum, evidentemente.
Sua inteligência, e também a do cinegrafista que filmou o vandalismo, são de uma astúcia tão grande que eles mesmos produziram as provas que o poder público necessitava para puni-los. Que gênios. E pensar que eu estava tentando ser professor deles! Pobres garotos, eles são menores de idade e, com a desculpa de que residem em área carente, devem ter tentado alguma explicação social para isto, de que são "vítimas do sistema" ou qualquer coisa semelhante. Ou não, talvez tenham ficado apenas calados e de cabeça baixa. Acho que não conhecem nem o clichê "vítimas do sistema".
Este dilapidador de cadeiras e contumaz "torrador da paciência alheia", que ganhou seus minutos de fama, é o mesmo elemento que me recebia na sala do segundo ano do Ensino Médio com xingamentos e impropérios lamentáveis, dignos de alguém que nunca ouviu falar em civilidade e ética. Mas ele nunca esteve sozinho nisto.
Essas coisas não acontecem por iniciativa só de um. Suas ações (eu me lembro) eram sempre no sentido de desestabilizar tudo, para que eu nunca pudesse começar e terminar uma aula sem estar alterado a ponto de quase enlouquecer. É óbvio que isto, para ele ou eles, e para os que achavam graça nisso e neles, era um divertimento. Para mim, era a minha aniquilação e desmoralização como professor.
Sua inteligência, e também a do cinegrafista que filmou o vandalismo, são de uma astúcia tão grande que eles mesmos produziram as provas que o poder público necessitava para puni-los. Que gênios. E pensar que eu estava tentando ser professor deles! Pobres garotos, eles são menores de idade e, com a desculpa de que residem em área carente, devem ter tentado alguma explicação social para isto, de que são "vítimas do sistema" ou qualquer coisa semelhante. Ou não, talvez tenham ficado apenas calados e de cabeça baixa. Acho que não conhecem nem o clichê "vítimas do sistema".
Quando eu saí desta escola, em agosto deste ano, eu deixei muitos amigos, entre alunos, professores, funcionários e direção. E saí torcendo para que eles pudessem chegar ao fim do ano letivo sãos e salvos, com o trabalho reconhecido pela comunidade. Qual não foi o meu desapontamento!
É a primeira vez que aconteceu o que as imagens mostraram? Não. Na primeira segunda-feira do mês de junho passado, houve uma queda de energia na instituição e em toda a quadra, que fica nos ermos da cidade de Ceilândia. Um caos. No meio das trevas, alunos perigosos aproveitaram a oportunidade para agir. Lançaram várias carteiras de cima do primeiro pavimento da escola, em tempo de uma delas acertar e matar uma pessoa no térreo. Isto aconteceu. Por sorte, ninguém se feriu nem morreu. Por sorte, apenas, porque a sensação que eu tinha era a de que Deus e o homem tinham abandonado aquele lugar havia muito tempo já. Aquilo ali mais se parecia com um centro de internação juvenil, em rebelião.
As ameaças não são restritas somente a professores. Porteiros, direção, funcionários da alimentação, limpeza, todos têm uma história de ameaça naquele lugar. Em fevereiro, uma professora quase teve seu material queimado por um indivíduo transtornado, e isto em horário de aula, na presença da professora. Este em questão foi o mesmo que dava chutes na porta da minha sala, o que me obrigou a parar com tudo e ir embora.
Dentro das escolas de Brasília e do Brasil, há alunos tão desvirtuados quanto estes, ou piores, capazes não somente de dar um arranhão na pintura do carro de um professor, mas apontar uma arma para ele ou fazê-lo procurar um psiquiatra. E, além disso, todos sabemos que as cadeiras das escolas não são apenas jogadas contra a parede e quebradas, mas são arremessadas, às vezes, contra a cabeça dos professores.
O Centro de Ensino Fundamental 24 de Ceilândia, agora tristemente famoso pela ação de uns discentes infratores e desrespeitosos (sim, porque os conheci bem e sei do que são capazes) foi a pior desgraça que aconteceu na minha vida em quase 4 anos de magistério.
Entrei horrorizado naquela escola com o que via e ouvia. No primeiro bimestre, trabalhava sob provocação tão forte que mal conseguia fazer a chamada dos alunos. A virtude do silêncio, ali, é coisa desconhecida. Minhas advertências eram constantes, a ponto de eu não mais dar aulas, mas, sim, viver a "pagar sapos" e tentar parar os infernais pandemônios que ocorriam, as conversas escatológicas e tudo o que era de mais sinistro.
Meu descontrole era mais do que patente. O que parecia era que havia algo realmente intencional para me rebaixar e à minha condição de professor. Algumas vezes, cheguei a receber manifestações de apoio de alunos que eram contra a posição desses fascistas.
Nas imediações da escola, dois assassinatos entre fevereiro e março. Uma professora de espanhol deixou o local. O muro da quadra de esporte nunca ficou de pé, pois sempre era destruído. Sempre. Eu continuei com os companheiros e com a direção, na tentativa de conseguirmos mudar aquela realidade. Eu me frustrei profundamente ao ver que todos envidavam os esforços possíveis e terminavam achincalhados.
Eu não sabia muito bem o que eu representava ali. Apenas cumpria os horários e não conseguia dar boas aulas devido ao desrespeito de algumas cambadas que agiam para desorganizar não somente as salas de aula, mas todo o colégio. Saí de lá com várias inimizades em quase todas as salas em que lecionava História (ou tentava lecionar, diante de alguns alunos que preferiam me enfrentar e desafiar em vez de participarem das aulas).
Agora, chegou a hora de alguns deles. Pagarão centavo por centavo de tudo o que depredaram e também por tudo o que me fizeram, à escola e aos outros professores. Pagarão por suas zombarias, seus xingamentos e ameaças. Serão obrigados a se vergar e engolir suas atitudes primárias.
Isto serviu para mostrar ao país o que um professor muitas vezes tem de enfrentar para trabalhar, e no fim tem como galardão o desprezo da comunidade, que o estigmatiza de "marajá bon vivent" e a falta de compostura dos discentes, esses que amanhã estarão despreparados para competir no capitalismo brutal ora instalado no Brasil, nesse país de loucos e impunes que levam à ruína o patrimônio público.
Nunca é demais lembrar: o governo local gasta por ano 13 milhões de reais para recuperar esses danos materiais. Os danos morais, esses, são incalculáveis. E depois o professor é o culpado por tudo, pelas reprovações inclusive, de quem ocupa espaço na escola e não quer estudar nem deixar que outros estudem e trabalhem.
Onde foi parar o lema "Seja um Amigo da Escola"? Por que não lançamos outro lema, mais ou menos assim: "Seja um amigo do professor"? "Deixe-o lecionar". Pedimos bem pouco, apenas para que os alunos se comportem como alunos. Será demais? Não será oportuno, ainda, salientar à comunidade de que os educadores não pretendem formar capangas e terroristas idênticos aos da SS alemã?
Esta é a mensagem que eu, professor de História da rede de ensino do DF, passo para o país e principalmente para aqueles que não estão na linha de frente mas abrem a boca para falar de Educação e depauperar a imagem dos docentes, tirando-lhes a autoridade, para que sejam vitimados pelo autoritarismo de alunos malfeitores e fanfarrões. Esses não são mais expulsos da escola. Eles é que expulsam. Os professores.
Ora, mas está de parabéns o pai deste sábio dito. Não bastasse o autoritarismo que a frase emana, notemos os erros de ortografia do cidadão. A ele, eu respondo com as palavras de René Char, que encontrei em um livro didático de Filosofia:
"Aquele que vem ao mundo para nada alterar não merece nem consideração nem paciência".
Subscrevo,
Pablo B. de Moura
Professor
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