27 agosto 2008

Depois das Barricadas, As Trincheiras das Palavras - Celso Lungaretti*

Durante uns cinco anos, entre 1979 e 1984, atuei como crítico de cinema e de música em veículos de pouca ou média expressão.
Mesmo ganhando pouco, é a fase da minha carreira profissional que me deixou as melhores recordações. Até como compensação, tinha liberdade para escrever o que queria, como queria. Repetindo o Jim Capaldi, "oh, how we danced!"...
Espelhava-me em pesos-pesados como Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel e Rubem Biáfora, com quem aprendera a apreciar a arte com olhar independente e crítico, em vez de ser mais um a fazer oba-oba para os artistas e obras de que todo mundo gostava.
Isto me colocava na contramão de uma crítica que começava a funcionar apenas como fornecedora de subsídios para o consumo, oferecendo aos leitores uma bula para eles decidirem se valia a pena ver determinado filme, comprar certo disco. Em qualquer lugar, cheguei a escrever que se tratava, isto sim, de uma burla que se cometia com a sétima arte.
A ficha me começou a cair quando assisti numa cabine a Alien, o Oitavo Passageiro, de Riddley Scott, ao lado dos maiores nomes da critica cinematográfica de São Paulo. À saída, os medalhões travaram verdadeira competição para ver quem se lembrava de mais filmes antigos dos quais Scott chupara trechos. Demonstraram claramente ter considerado Alien um lixo.
Qual não foi minha surpresa ao constatar, dias depois, que todos eles haviam feito média com o filme, permanecendo confortavelmente em cima do muro, nem sim, nem não, muito pelo contrário...
Perdi o pouco de respeito que ainda me inspiravam.
Outro episódio na mesma linha foi o ocorrido quando da coletiva que Franco Zefirelli concedeu, ao lançar em São Paulo O Campeão. Antipatizei com o filme por ser um reforço dos valores familiares, uma guinada na direção do conservadorismo, depois de toda a efervescência da geração das flores.
Além disto, Zefirelli acabava de ser contratado a peso de ouro para montar uma ópera no Rio de Janeiro, embora, garantissem os expertos, houvesse muitos brasileiros que poderiam desempenhar melhor a função, por bem menos.
Então, combinei com o colega do Diário Popular que, durante a entrevistas, jogaríamos o máximo de cascas de banana no caminho de Zefirelli. Dito e feito. O italiano escorregou feio, chegando até a admitir que, ao contrário do moralismo piegas do seu filme, ele próprio era "promíscuo".
E foi além: "Mas, se todos fossem como eu, não existiria civilização".
Em nossas matérias, não perdemos a oportunidade de espinafrar o conspícuo herdeiro de Sodoma e Gomorra -- que, ademais, reconhecera não conceber os filmes seguindo suas convicções, mas sim procurando antecipar-se aos sentimentos e modismos que estariam em voga quando a película fosse lançada ("Não fiz Irmão Sol, Irmã Lua por ser franciscano, mas sim por ter percebido que a juventude estava entrando nessa e logo muita gente a seguiria...").
Mas, só nós dois registramos os maus momentos de Zefirelli. Os críticos realmente influentes preferiram levantar-lhe a bola, mantendo-se nas boas graças do sistema. Eu, pelo contrário, nunca conciliei. Não hesitei em qualificar de irrelevante o Superman de 1978, com Marlon Brando. Aí, um diretor do poderoso Circuito Serrador fez questão de me entragar pessoalmente a permanente para ter livre acesso aos cinemas da empresa... com direito a um sermão sobre haver afastado os espectadores do seu grande lançamento daquele ano. Não dei a mínima.
Já a crítica azeda ao O Franco-Atirador, de Michael Cimino, serviu para azedar também meu relacionamento com os mandachuvas do principal veículo em que escrevia, o semanário Fim-de-Semana. Eles eram todos altos funcionários do jornal O Estado de S. Paulo (dizia-se até que não passava de um veículo criado para descarregar impostos da empresa, apresentando perdas extremamente superfaturadas...) e, como tais, reacionários até a medula.
Ora, O Franco-Atirador apresentava o conflito vietnamita na ótica calhorda de lamentar os traumas sofridos pelos coitados dos soldados estadunidenses, em contato com a barbárie dos asiáticos. Ou seja, além de despejarem toneladas de napalm nos coitados, os norte-americanos ainda os satanizavam. Parecia a velha piada do brutamontes se queixando ao fracote de que havia machucado a mão ao esmurrar a cara dele.
Perdi aquela tribuna e não lamentei. "Canto eu vendo, não vendo é opinião", dizia uma velha música da era dos festivais.INTIMIDAÇÃO DE CRÍTICOS - Não pude, entretanto, deixar de lamentar o fato de haver indiretamente causado a demissão do crítico e cineasta Jairo Ferreira da Folha de S. Paulo, em outro episódio.
Naquele tempo, a nata dos cineastas engajados era financiada pela estatal Embrafilme, cuja assessoria de imprensa passou a fazer uma espécie de lobby para intimidar críticos: cada vez que um deles lançava seu novo filme, todos os outros escreviam elogios extremados e desancavam de forma igualmente extremada os direitistas que acaso ousassem discordar da excelência da película lançada.
Isto tudo vinha em luxuosos press-kits, cuidadosamente produzidos para embasbacar, amedrontar e, finalmente, cooptar os críticos.
Observei o fenômeno uma, duas vezes. Na terceira, fiz uma veemente denúncia. Contei como funcionava o esquema e escrevi que, mesmo correndo o risco de me indispor com os Glauberes e Nelsons Pereiras, iria discordar: o filme não prestava.
O amigo Jairo leu, gostou e resolveu bater na mesmíssima tecla. Só que a Embrafilme despejava rios de dinheiro na Folha, com seus anúncios enormes e caríssimos. Então, por coincidência, uma semana depois ele foi despedido, a pretexto de que uma crítica sua, escrita para ser publicada no sábado, saíra só na segunda-feira, quando o filme já não estava em cartaz. A editora garantiu que não tinha sido avisada da urgência. Ele me garantiu que a alertara.
De resto, a contribuição maior que eu tentei dar foi propor uma crítica que fosse além dos mexericos de estúdios a que o Rubens Ewald Filho conferia tanta importância (quem transou com quem durante as filmagens, etc.) e também da abordagem puramente técnica. Queria que o cinema fosse tratado como algo maior. Que os temas levantados pelos filmes também fossem discutidos e aprofundados, não apenas a maneira como estavam sendo apresentados. Que se confrontasse, p. ex., o filme e a obra literária do qual ele derivava. Ou o filme e o acontecimento histórico que ele retratava.
Seria mais trabalhoso para os críticos mergulharem fundo em cada filme? Claro que seria. Mas, só assim daríamos aos espectadores subsídios para fluírem a arte em sua plenitude, como algo capaz de modificar e melhorar o ser humano.
Como bem destacara o filósofo Herbert Marcuse (meu autor de cabeceira naquele tempo), a sociedade pós-industrial tenta domesticar a arte, transformando-a em entretenimento inócuo. Mas, a verdadeira arte será sempre uma crítica à realidade, servindo de ponte entre o que é e o que poderia ser. Cabe aos combatentes da utopia impedir que ela morra.
É claro que meu trabalho acabou sendo ignorado pela grande imprensa; e que, ao propor um rumo diametralmente oposto ao que convinha ao sistema, queimei minhas chances de estabelecer-me como crítico.
Acabei não conseguindo sequer sobreviver nessa área, sendo obrigado a trocá-la pelo - argh! - jornalismo econômico.
Mas, como nunca tive compromisso com o sucesso, faria tudo de novo. Afinal, disse Isaac Deutscher, há vitórias que nos aviltam e derrotas que nos dignificam.
Sendo estas as únicas opções, preferirei sempre as segundas.

Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Outros artigos em: Celso Lungaretti - Jornal O Rebate


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Fazendeiros, Peões, Cornos e Patetas - Pablo Emanuel

“O riso é abundante na boca dos imbecis”
Autor de origem romana, não referido.
Existem babacas neste “país de meu Deus” que acreditam ser possível convencer a todos de que costumes e tradições, sem exceção, devem ser mantidos, eternizados, principalmente quando as tradições são das mais maléficas, sendo aceitas pelos perversos e toleradas pelos omissos.
Uma delas é o festival vexaminoso do rodeio, que reúne os sacerdotes galhofeiros de Calígula e de Rodrigo Bórgia, ao redor da arena em que animais são machucados em prol do divertimento dos acéfalos e dos zombadores, com seus prazeres vulgares.
Todas as sacanagens cometidas contra bovinos e eqüinos já foram denunciadas publicamente, bem como a instituição estúpida da “Farra do Boi” no sul do país, mas como o rodeio faz muita fortuna para os insolentes de chapéus enormes, fivelões e botas com desenhos ridículos de vaquinhas, torna-se inviável combater esse tipo de esbórnia romana, por conta do poder econômico aí envolvido.
Antes de dar seus saltos desesperados no meio do barrocal, diante dos berros horríveis da platéia, o animal sofre brutal humilhação, tendo seus bagos esmagados e suas ancas esporeadas, o que os deixa com os nervos a ponto de um colapso. Enquanto isto, corre à solta a zombaria.
O montador é a figura lamentável do peão xarope, que, após ter obtido sucesso no suportar da agitação frenética do animal previamente enlouquecido, colhe os louros da vergonha, uma importância em dinheiro e a atenção de mulheres bocas-de-sarjeta e pélas-saco.
O peão é idêntico ao jogador de futebol. Quando entrevistados, parecem gravadores de áudio repetindo, ininterruptamente, dia após dia, erros de ortografia e gramática.
O problema, porém, se fosse só isso, seria ótimo e tolerável, porque todos nós nos confundimos com a língua. O problema real é que eles propalam tanta tolice que não consigo entender como ainda tem gente que dá ouvidos a tanta paspalhada.
No rodeio, às vezes, sucede que o peão se dá muito mal e acaba sendo pisoteado sob os cascos de um bicho qualquer. Sai dali direto para o cemitério, como os que se divertem nas touradas de rua, na Espanha, e recebem a morte como pagamento por seus desafios inúteis.
Pudesse Deus, que também criou os animais “e viu que isso era bom”, conforme rezam os primeiros versículos do Livro de Gênesis, permitir que os promotores de tamanha grosseria tivessem o mesmo fim.
O rodeio é um exemplar de espetáculo de tudo o que há de pior nas pessoas: a risadeira desatada, mediante a desgraça e a agressão, como acontece também, aliás, nas sangrentas e covardes rinhas de galo e de cães, e mesmo em brigas de rua promovidas por gângsteres bairristas e doentes mentais, para os quais não há violência que seja suficiente.
Imagino que, se um quadrúpede pudesse articular pelo menos uma dúzia de palavras, diria a essas hienas sarnentas para que fossem esporear os flancos de suas respectivas madres, chamando-as de éguas e de vacas.
Mas, ainda que o animal pudesse falar e pedir direitos, o homem lhe poria uma focinheira.
De fato, o rodeio faz parte da substância escura das taras mais horrendas que habitam o abismo do mau gosto humano, o gosto vil pela maldade e pela galhofa imunda.
É essa a atitude do pitecantropo moderno e do seu gado cervejeiro, afeito à bandalha, todos vestidos de couro.
Tradição, por ser tradição, não significa que seja parte sadia da cultura de um povo. Há tradições perversas, como a supracitada, que lisonjeiam o mal e não são questionadas, de vez que geram muito dinheiro e exprimem o poder dos abusados proprietários.
Toda essa cultura do couro, das fivelas arrogantes e estrelinhas de botas, nada mais são do que a importação do fascismo texano para a arena, e da arena para o “brazilian way” do arrogante latifúndio.
Que profunda lástima, e que nojenta vulgaridade.
Isso é mesmo coisa para corno.

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O Retrato de Dorian Gabeira - Celso Lungaretti*

Fernando Gabeira fez carreira política defendendo a descriminalização da maconha. Às vezes de forma assumida, às vezes com subterfúgios para contornar os obstáculos, como sua proposta de que se autorizasse o plantio para usos medicinais e industriais.
Esteve até ameaçado de prisão por importar sementes da Europa. E seu site dá grande destaque ao tema, inclusive tendo como vaso comunicante um site de defesa da legalização da maconha.
Então, foi repulsivo seu recuo oportunístico de ontem, ao ser sabatinado pelo jornal O Estado de S. Paulo, como candidato a prefeito do Rio de Janeiro.
Disse que essa discussão toda foi "um pouco inútil" e se declarou contrário à liberação do consumo da maconha enquanto a polícia não for modernizada:
- Se não tiver uma polícia treinada, eficaz, transparente e honesta, não consegue nem reprimir nem legalizar. A repressão é extremamente minada pelo processo de corrupção. E a legalização, que seria feita com polícia competente, não conseguiria conter os efeitos colaterais.
Ou seja, para conquistar cadeiras no Legislativo, o eleitorado desbundado bastava, então ele foi de mandato em mandato como porta-estandarte da maconha.
Agora, para alçar um vôo maior, precisa do eleitorado conservador, então dediz tudo que dissera antes.Aliás, em termos de reescrever a biografia, Gabeira está indo mais longe até do que o Lula.
Quando da ocupação da reitoria da USP, chegou ao cúmulo de sugerir ao governador José Serra que cortasse a luz e a água do prédio, para forçar os estudantes a desistirem. Ontem, não teve pejo de prometer que, no seu hipotético mandato de burgomestre da Cidade Maravilhosa, liberará o uso de armas letais por parte da Guarda Municipal.
Veio-me à lembrança o clássico de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray.
Trata-se daquele romance em que o personagem central se deslumbra com a própria imagem numa pintura e diz que daria a alma para permanecer para sempre jovem e belo.
Seu desejo é atendido pelo diabo. Dorian continua igual a um anjo, enquanto sua imagem no retrato é que vai envelhecendo e exibindo as marcas da corrupção em que ele chafurda.
Até que um dia, enojado com a figura repugnante que o retrato exibe, Dorian resolve praticar o bem, para ver se há alguma melhora. Quando vai checar o resultado, fica horrorizado: o retrato mostra o mesmo velho asqueroso, com uma mudança para pior, o sorriso hipócrita.
Distribuindo afagos retóricos para os inimigos de ontem, Gabeira não será visto por eles de outra forma; quanto muito o sistema o usará, como faz com os hipócritas que se deixam cooptar. Quando encontro uma matéria-de-capa apologética na Veja atual, imediatamente concluo que o beneficiado vendeu a alma ao diabo...
Uma frase terrível do novelista francês Maurice Druon: "viver envilece".
Serviria como epitáfio para Fernando Gabeira.



Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Outros artigos em: Celso Lungaretti - Jornal O Rebate


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23 agosto 2008

Manifesto das novas gerações pela Verdade, Memória e Justiça - DOI-CODI NUNCA MAIS!

Somos filhas e filhos, parentes, amigas e amigos de lutadores sociais que foram exilados, presos, torturados, assassinados e desaparecidos. Somos também jovens que apesar de não terem vivido a repressão direta da época, entendem que somos todos herdeiros de uma mesma História, herdeiros de uma geração que lutou para construir um país mais justo e por isso foi brutalmente reprimida.
Foram mais de 30 mil vítimas da prisão política e de tortura durante os anos de chumbo. Através de repressão seletiva, a ditadura pretendeu exterminar todos aqueles que se insurgiam contra o Estado autoritário, o golpe militar de 1964. Os mortos e desaparecidos na sede operacional do DOI-CODI/OBAN, de 1968 a 1977, na Rua Tutóia, nº 1000, estão vivos em nossa luta. As feridas e traumas de nossas companheiras e companheiros torturados não serão esquecidos pelos lutadores sociais das novas gerações.
Onde vocês espelham o exemplo de contínua entrega e combatividade, ergue-se para outros que no futuro virão, entre nós e depois de nós, um horizonte de resistência. Exigimos justiça e punição para os açougueiros da repressão política da ditadura.
O terrorismo de Estado foi comum a todos os países latino-americanos. Enquanto a justiça vem punindo diversos genocidas em várias partes do globo, no Brasil existem apenas três processos contra as brutalidades realizadas durante o período. Por não julgar torturadores e assassinos da ditadura civil-militar, o país pode ser recriminado pela ONU por proteger genocidas, através do silêncio e do obscurantismo. A falta de vontade política do Estado em abrir os arquivos da ditadura representa sua direta cumplicidade em acobertar estas feridas abertas da nossa história. E a tentativa de impedir o debate sobre a punição dos crimes de lesa-humanidade é um claro ataque à democracia.
Neste ato, estamos unidos contra o silêncio e em defesa da memória, acreditando que lutar para que esta barbárie não seja esquecida, significa lutar para que ela não continue. Os torturadores e assassinos de 40 anos atrás estão à solta, isso intensifica, reproduz e sistematiza o assassinato, a tortura, o abuso e a arbitrariedade contra os pobres das periferias do país. Como se percebe, por exemplo, nos morros cariocas, nas favelas de Salvador e São Paulo.
A sociedade e o poder público silenciam sobre os DOI-CODIs que continuam existindo diariamente na maior parte das delegacias do Brasil. A tortura e execução sumária continuam fazendo parte da política policial, sendo lamentavelmente uma prática cotidiana.
Entendemos que a impunidade de ontem reproduz a impunidade dos agentes do Estado hoje, ou seja, é ela que permite que a tortura se reproduza nos dias atuais. Se não há punição para o Coronel Brilhante Ustra, para Aldir Maciel, para Carlos Metralha e tantos outros sádicos torturadores, não haverá justiça para os mortos do Carandiru, para os massacrados da Candelária, nem para as centenas de vítimas assassinadas em maio de 2006, pela sede de sangue da polícia paulista contra o PCC.
Somos todos aqueles que acreditam que nunca será possível atingir uma verdadeira democracia para todas e todos, sem que haja o fim da tortura e da impunidade com os crimes dos agentes de Estado ontem e hoje!
A consolidação da nova democracia também não será integralmente realizada enquanto o Estado for um instrumento da criminalização dos movimentos sociais. Os arautos do neoliberalismo, não contentes em dilapidar todo o aparelho estatal para a especulação capitalista, vem nos negando os mínimos direitos, reprimindo ainda as lutadoras e lutadores sociais, permitindo a proliferação de grupos paramilitares, semeando a intolerância contra qualquer organização dos trabalhadores. Entendemos que a repressão e a intolerância policial hoje contra a livre organização, manifestação e expressão dos movimentos sociais é uma continuidade sinistra da repressão da ditadura. Não haverá democracia sem que esses mínimos direitos sejam garantidos! Enquanto não houver justiça para os crimes da ditadura, continuará a impunidade com os crimes cometidos contra os trabalhadores rurais, em Eldorado dos Carajás ou no Paraná, a mando de paramilitares contratados por empresas transnacionais.
Sabemos que este ato é apenas um embrião de algo muito maior que representa a necessidade histórica da unidade de vários forças da sociedade para pôr fim à impunidade contra a tortura e a repressão às comunidades pobres e os lutadores sociais. Para fazer justiça ao passado, punindo aqueles que foram responsáveis pelas brutalidades da ditadura.
Acreditamos que enquanto não houver justiça, haverá vozes como as nossas se erguendo para resistir, porque temos certeza que aqui onde pensavam enterrar nossos camaradas, germina a semente da rebeldia e do sonho por uma sociedade onde o homem seja definitivamente sujeito de sua própria história. Hoje levamos adiante suas lutas, através da construção do poder popular, pela transformação social!
*"Eles podem matar uma, duas, até três rosas, mas jamais poderão deter a primavera" Ernesto Che Guevara*
Exigimos:
- Direito à Verdade - Abertura integral de todos os arquivos da ditadura.
- Direito à Memória - A recuperação de lugares que foram centro de torturas para que se tornem símbolos da memória e da resistência.
- Políticas públicas para a recuperação da memória individual e coletiva, revelando sonhos e projetos desta geração e recordando reflexivamente as atrocidades do passado, para que não se repitam.
- Direito à Justiça - O reconhecimento por parte do Estado, o julgamento e a punição com prisão comum a todos os torturadores direta ou indiretamente responsáveis pelos crimes.
- 30.000 torturados e 500 mortos e desaparecidos presentes!
- Não esqueceremos !
- Justiça e punição para todos os torturadores!
- Por um Brasil democrático para todas e todos!
- Pelo fim da criminalização da pobreza e da luta social!
MOVIMENTO DOI-CODI NUNCA MAIS!
Apoio de:
Assembléia Popular
Coletivo Contra Tortura
Coletivo Submarino Vermelho
Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos
Fórum de Ex-presos Políticos de São Paulo
Grupo Tortura Nunca Mais / São Paulo
Sindicato dos Advogados
mais informações:
www.doicodinuncamais.com
ATO do Paraíso ao Matadouro
Domingo, 24 de Agosto, 14H.

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21 agosto 2008

Crime de tortura é crime contra a humanidade, não prescreve

Em visita ao Brasil, o juiz espanhol Baltasar Garzón defendeu punição penal para os crimes de tortura cometidos durante a ditadura militar no Brasil. O juiz Garzón é famoso por ter decretado, em 1998, a prisão do ditador chileno Augusto Pinochet.
Segundo o juiz, quando se trata de crimes de lesa-humanidade, no caso da tortura e do desaparecimento forçado, existe uma obrigação moral e legal de se investigar. Para ele, está claramente estabelecido no direito internacional que é um crime é imprescritível. “A interpretação dos sistemas locais deve acomodar-se a esse critério", disse Garzón.
O juiz chega ao Brasil em um momento de forte discussão sobre a revisão da Lei de Anistia, possível punição a torturadores e abertura dos arquivos da época da ditadura. Ele defendeu a abertura dos arquivos. “Não é uma questão política, ideológica, é uma questão reparadora". Ou seja, de recuperação da memória e da verdade.
A posição de Garzón vem reforçar o entendimento expresso no Manifesto dos Juristas de que “é secundada por abundante doutrina jurídica e jurisprudências internacionais, de que crimes de tortura não são crimes políticos e sim crimes de lesa-humanidade”.
“Não cabe afirmar que os crimes de tortura e de desaparecimento forçado foram anistiados. Tais crimes são, portanto, crimes de lesa-humanidade, praticados à margem de qualquer legalidade, já que os governos da ditadura jamais os autorizaram ou os reconheceram como atos oficiais do Estado”, diz a comunidade jurídica.

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Ato do Paraíso ao Matadouro - DOI-CODI Nunca Mais

24 de agosto, domingo, às 14 hs
Concentração da Praça Santíssimo Sacramento, na rua do antigo DOI-CODI (R. Tutóia), na altura do nº 1100.
Chegou o momento para um ato público forte, de contestação deste passado podre do Brasil, escamoteado debaixo do tapete.
É hora da nova geração levantar a poeira contra a tortura. A de ontem e a de hoje.
Vamos fruir a liberdade que a Ditadura tentou calar brutalmente, e nos manifestar por um outro Brasil.
Do Paraiso ao Matadouro

Mais informações:
Divulgue
Veja o cartaz anexo


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20 agosto 2008

O Macartismo Da Pedofilia O Que Pode E O Que Não Pode Ser Reputado Como Justiça? - Pablo Emanuel

SE A PEDOFILIA é algo que decorre diretamente de um transtorno mental, ou em virtude de ter sido o pedófilo um sujeito que foi abusado no passado, analisemos a coisa de forma bastante objetiva: o fato é que disto resulta um crime imperdoável.

Está aberta a temporada de caça aos pedófilos no Brasil. A sociedade não agüenta mais os escândalos que esses bandidos armados de bonecas, docinhos e internet promovem contra a infância. De fato, este é um crime dos mais assombrosos que o ser humano é capaz de empreender, de dentro do seu âmago enrustido e cheio de ruínas.

Há relatos históricos de que a pedofilia parecia ser, de certo modo, aceita em algumas sociedades da Idade Antiga, ou mesmo cometida em meios religiosos desde tempos muito remotos. Culturas e tradições (nefastas, aliás) à parte, a transgressão moral e penal do ato em si nos leva a refletir sobre como agiremos para proteger a infância.

A criança foi feita para ser feliz e para ser assistida em suas necessidades emocionais e intelectuais. Ela é a continuidade do homem e a sua esperança.

Como preservar a criança num país perverso como o nosso, onde ela é cooptada para consumir coisas tão absurdas e alheias às suas próprias vidas, coisas de que elas nem precisam?

O tarado, que é consumido por sua voracidade e também consumidor, é parte desse mundo prostituído, apresentado aos neófitos da vida, que o assimilam. Mas a tara, quando consentida pelas partes envolvidas, e maiores de idade, não fere ninguém. Quando a tara leva ao crime, é aí que o rigor da punição deve recair, seja este crime contra crianças, adolescentes ou pessoas adultas.

A criança, muitas vezes vitimada pela ignorância e falta de tato dos próprios pais, acaba sendo arrastada para um estilo de vida nada saudável, como se alimentar de fast-foods, consumir música barata e suas coreografias sexualizantes, e até mesmo seduzida pelos coleguinhas de escola a sessões de “bullying” contra outros seres totalmente indefesos. Ela é muito passível.

Foi-se o tempo em que se fazer uma festa para comemorar um aniversário infantil era motivo de grande alegria e inocência. Pessoas vestidas de palhaços, animando as crianças e os adultos, brincadeiras sadias, enfim, muitas destas coisas foram abandonadas em favor da podridão que a mídia excreta, como danças vergonhosas, pornográficas, com palavras de calão, condutas de violência, estilos “musicais” deselegantes que, feitas por marmanjos, atingem o público infantil.

Num país em que se condena a pedofilia, a criança tem fácil acesso a um mundaréu de coisas que não lhes são inerentes.

Comenta-se muito pouco sobre Monteiro Lobato, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles etc. Mas qualquer criança conhece MC Créu, mulheres-fruta, MacLanche Feliz, enfim, um caleidoscópio colorido de opções deletérias para certas idades. A sexualização da infância é algo já consolidado no nosso meio.

Como combater a pedofilia quando ela é quem gera dinheiro?

Os pais estão esvaziados, não têm nada para ensinar, para reproduzir de forma positiva. Eles são mais ignorantes que seus avós e pais. Muitas vezes resolvem seus problemas à base de xingamentos e agressões físicas, tudo na frente de seus filhos, que haverão de crescer com essas imagens lamentáveis guardadas para sempre na sua mente.

É certo que a barbárie começa mesmo é em casa. A rua completa o serviço, e então temos uma bomba relógio preparada.

As crianças perdem o interesse por aprender coisas mais sublimes porque não há gente que tome a dianteira para virar a mesa e mudar esse estado de coisas que vai reproduzir a mesma ignorância, ou pior, vai recrudescê-la, fazendo, assim, com que essa corrente do mal passe para frente.

A pedofilia é uma violência indesculpável contra a infância. Seus autores precisam sofrer os devidos processos e suportar, na prisão, seu isolamento.

Mas temos que tomar certos cuidados. Do jeito que o povo vem sendo domesticado por opiniões massificadas, ele acaba por perder o senso da realidade, como sempre acontece. Você pode orientar um povo tanto para o bem quanto para o mal, jogar uns contra os outros e acender o pavio da tragédia.

A caça aberta aos pedófilos tem transformado todo mundo em suspeito. Entra em voga a máxima: “todos são culpados, até que se prove o contrário”.

O caso da Escola de Base, em São Paulo, foi muito emblemático. Aquilo quase levou à aniquilação dos acusados, que tiveram sérios prejuízos morais e psicológicos no meio da sociedade que procurava linchá-los, devido às graves acusações de que foram alvo. Sua imagem pública ficou destruída e, no fim de tudo, não houve indícios concretos que levassem à sua culpabilidade. Os donos da escola processaram o Estado.

Da mesma forma, o terror tem se instalado pelo clima avassalador de um mero apontar de dedos. Parentes desconfiando de parentes, policialismo familiar, ‘Big Brother’ dentro de casa, como se não bastasse o processo de degeneração das famílias diante da debilidade moral dos progenitores que nem mesmo saíram da condição de filhos, e acabam sendo pais, quando nem se resolveram por si mesmos, para, enfim, criar condições de levarem a cabo a hercúlea tarefa de criar um indivíduo.

Eu leciono História em escolas públicas. Já lecionei para turmas de pré-adolescentes, as quais abandonei por não suportar o grau de baderna generalizada que a maior parte promovia. Nesse meio, eu ouvi coisas tão horríveis que nem as crianças do meu tempo diziam. Limites? Poucos os têm. Se não souberam respeitar a autoridade dos pais (se é que houve) quem dirá a dos professores.

Sinceramente, eu confesso que tenho medo até de olhar nos olhos esses adolescentes de 12 a 16 anos, e ser acusado de olhá-los de maneira “esquisita”. Medo de, por ser professor, acabar sendo inserido na lista de potenciais desviados de conduta. É uma sensação de insegurança em todos os meios, nas escolas e dentro de casa.

Criou-se o mito de que “criança não mente”. Isto é mentira. A verdade é que ela é sincera no que diz, mas daí a inventar-se a falácia de que uma criança ou adolescente não podem urdir tramas que sua frágil consciência imagina, não é cem por cento plausível. Eles podem, sim, criar situações extra-reais e complicar a vida de muita gente.

Como professor, sinto receio de sofrer uma acusação infundada no futuro, por parte de alguma aluna que porventura venha a se interessar pela minha pessoa, e depois passe de seus próprios limites, criando um mundo interiorizado, só inteligível para ela.

Quem leciona sabe como é ser tratado e visto de maneira diferente por certas alunas. Algumas criam um laço de afetividade com o professor, talvez pela carência que sintam de um pai não muito presente, ou que é violento. A verdade é que muitas delas, se não são platônicas, lançam-se sem pudor, ou porque não foram bem orientadas ou porque agem de maneira deliberada mesmo.

O professor, hoje, tem medo de confraternizar-se com seus alunos fora dos expedientes escolares, até em atividades extracurriculares que complementem o processo ensino-aprendizagem, seja por causa da violência ou alguma paquera inconseqüente, que lhe gere um processo administrativo e a perseguição da comunidade. Nada mais verdadeiro, diga-se de passagem, do que a famosa afirmação: “aluno não é amigo de professor”.

O máximo de envolvimento é na sala de aula, e com certas reservas. Assim, muitas coisas deixam de ser conversadas, pois o discente encontra-se curioso acerca de alguns novos aspectos que surgem na sua vida, dentro do período escolar (sexualidade, drogas, primeiros amores etc) e que tomam dimensão de grande importância para cada um.

O professor pode ser um excelente mediador desses conflitos emocionais, e manter sua isenção. É perfeitamente possível, sem escândalo nenhum.

É também possível, e muito, que uma garota menor de idade (não criança, mas adolescente feita) se apaixone por um professor bem mais velho. É um sinal talvez de carência excessiva. Eu digo “talvez”. Como se pode avaliar um caso assim? Há questões subjetivas nesse ponto.

Cabe ao docente conversar francamente com ela, ouvir o que tem a dizer e acolhê-la em suas necessidades mais urgentes, fazendo com que saiba discernir, para que ambos não terminem mal nessa história. Isto não significa que um professor é um potencial pedófilo, só porque lida diariamente com esta clientela mais jovem.

A pedofilia não tem profissão, nem classe social. É uma perversidade consumada no seio da humanidade. Mas homem que tem juízo deve se abster de relacionar-se com qualquer ser vivente que tenha menos de 18 anos.

Os canastrões que vivem de ajuntamentos e conúbios populares de rua para fazer justiça com as próprias mãos, eles mesmos, sedentos de linchamento, carregam consigo alta dose de violência e injustiça. Uma vez insuflados, querem o massacre.

Qual deles não sente a carne de seu corpo trepidar ao vislumbrar uma bela e corpulenta adolescente? Que homem nunca o sentiu? Quem não namora a bunda de uma colegial que caminha pela calçada do comércio indo para a casa depois das aulas?

Depois vão para a porta das delegacias pedir a morte de um acusado, quando, se tivessem a oportunidade de possuir uma linda adolescente, em todo o seu frescor, brejeirice e malícia, decerto é que muitos o fariam!

Arredem os pés, ó hipócritas!

Não há homem neste mundo que, pelo menos uma ou duas vezes na vida, não tenha sentido no seu íntimo algo platônico ou mesmo carnal por uma jovem de seus 16 anos, em pura flor. Muitos acusadores têm tais latências dentro de si. E não assumem.

Condenam, não porque acham um crime envolver-se com garotas mais jovens, mas porque temem dar vazão a seus desejos. Têm desejos pelas filhas dos outros, mas quando suas filhas são desejadas, ficam loucos.

E é fato: esses jovens têm feito na cama coisas que nem os pais fazem ou fizeram. No entanto, são tratados como imbecis.

E mesmo porque não são todas as relações entre pessoas de maior ou menor idade necessariamente criminosas. O crime covarde é valer-se da fragilidade de uma criança, que tem seu corpo totalmente desproporcional ao do algoz monstruoso (aí, sim, o crime pedofilia) para conduzi-la a uma senda de trevas só porque o calhorda não dá conta de manter dormindo a besta íntima que a sua torpeza possui.

Não raro vemos casos de jovens de 21 anos namorando garotas de 16 ou 17 anos, ou até menos, com consentimento da família. Então o que ele está cometendo? Puberofilia? Sendo o jovem um maior, legalmente, ele estaria, aí, corrompendo uma menor, que é uma idiota e não sabe o que quer? E quanto à individualidade dela? Não a possui? Não toma decisões?

Admitamos outra hipótese: se ao invés de um jovem de 21 anos, nessa situação, ser um homem feito de 30 anos ou mais? Ele é um criminoso? O que difere um homem de 21 anos de um trintão? É evidente que a imposição da maldade recairá sobre o homem mais velho. Ele será um corruptor de menores, mas o maior de 21, não. Ora, faz-se imperativo discutir essas coisas com maior profundidade, e não com paixões, para informar as turbas exaltadas.

Adolescentes não podem ser tratados como debilóides, coisa que eles não são. São imaginativos, sonhadores, românticos, sinceros, mas também podem inventar situações ilusórias, que agora podem gerar desgraças. Crianças dizem a verdade, mas até que ponto não podem mentir?

Eles são frágeis em suas concepções e discernimentos, no modo como lidam com os problemas. Não são estúpidos que se deixam conduzir para cá e para lá, sem perceber o que está se passando. Uns são muito mais frágeis do que os outros.

É justamente nesses que o pedófilo criminoso se sacia, exalando perversidade, pois é um mestre nas artes malignas de aliciar e conseguir seus objetivos escabrosos. Ele seduz, conduz e vitima a pessoa. E produz nela seqüelas gravíssimas que vão se refletir por todos os dias da vida daquele ser violentado em seus direitos. O bandido não se importa com ela. Ele quer apenas se fartar, mas nunca se saciar inteiramente.

Não podemos eximir certos tipos de pais fanfarrões que acham o bastante conceber e deixar “pra lá”, tendo filhos como se levassem, ainda, uma vida de adolescentes, caindo nas noites hedonistas e deixando de prover a carência dos rebentos.

A infância tem o direito de preservar sua inocência e sua curiosidade; sua vontade de ser feliz. Os pais precisam conversar mais sobre sexo com os filhos, mas com seriedade, usando palavras corretas e exemplos instrutivos, para que amanhã não sejam brindados com netos de suas filhas grávidas aos 11 anos (!).

Devemos afastar a influência deletéria das concepções religiosas obscurantistas que pregam a rejeição ao uso do preservativo e ao diálogo aberto sobre a sexualidade com os filhos novos. Que aí prevaleça a razão (pelo menos uma vez na vida, nesse país) e não a obediência fundamentalista a uma crença.

E só devemos ter filhos quando entendermos que já podemos assumir tal tarefa. Caso contrário, os pais serão tão ou mais infantis que os próprios filhos. Qual é o pai que se arvora para esclarecer essas coisas?

Por que a sociedade e o Estado não jogam aberto de uma vez, abrindo um diálogo amplo sobre questões éticas e jurídicas que envolvem a gravidade da pedofilia? Por que somente a caça às bruxas?

A televisão, em lugar de ceder espaços para juristas, teólogos, antropólogos e professores a fim de que se discuta o problema, abre uma arena para a audiência se empanturrar da primariedade de seus programas. Que tartufismo sórdido é falar de pedofilia quando é o público infantil o grande gerador de renda para os imorais e seus empresários.

A infância foi aliciada para o crime. Uma criança foi ensinada a alimentar Tamagochis e outros fetiches eletrônicos, nunca um bichinho de estimação, para amá-lo e respeitá-lo, tendo noções de convivência, tolerância e amabilidade humana.

Quanto aos pedófilos, os abusadores que não poupam sua dose de maldade abominável, empregada contra seres frágeis, só lhes restam duas alternativas:

Ou a decomposição total dentro de uma cadeia ou a sua morte, pelos que se sentiram injustiçados por suas ações diabólicas e juridicamente imprescritíveis, a qualquer tempo.

Não sejamos, porém, tão imbecis a ponto de imaginarmos que um menor de idade não possa delirar (salvo flagrante e provas contundentes, é claro). Se não formos sérios, muitas injustiças serão cometidas.

E sabemos como é o nosso povo. Ele é facilmente suscetível de titerezas, pode ser jogado de um lado para o outro, marionetado segundo interesses, e virar bucha de canhão de fatos ainda mais grotescos.

Ou cortamos essa corrente do mal ou perpetuamos a imbecilidade. E crimes piores advirão da ignorância, como, aliás, já advém.

A ignorância é o ventre fecundo da desgraça.

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Olimpíadas no Inferno Pamonha - Celso Lungaretti*

Uma definição antológica do grande jornalista e escritor Paulo Francis foi a que deu para o capitalismo pós-industrial: inferno pamonha.

Além da desigualdade, das injustiças e do desperdício criminoso de recursos e riquezas que deveriam beneficiar a todos os seres humanos, temos de suportar este mico adicional: a nivelação cultural por baixo, bem por baixo, sob a influência mesmerizante da comunicação de massa.

Outro talento extraordinário, o cronista, escritor e compositor Sérgio Porto (AKA Stanislaw Ponte Preta), apropriadamente qualificou a TV de “máquina de fazer doido”. Perfeito.

Nas últimas duas semanas, os doidos têm discutido como nunca as Olimpíadas. Gente que ignorava a própria existência do atletismo agora deita falação apaixonada a respeito dos mais recentes fiascos dos atletas nacionais. Amarelaram ou não?

O complexo de vira-lata voltou com tudo: os brasileiros sentem imensa carência de qualquer espécie de afirmação. Se ganhar medalha de ouro em cuspe à distância, o escarrador-mor se tornará herói nacional durante alguns dias, com direito a desfile em carro aberto nas grandes capitais. E, na semana seguinte, ninguém lembrará sequer seu nome, claro.

É o tempo dos heróis efêmeros e inconsistentes, em todas as áreas. À falta de coisa melhor, qualquer um pode ser cultuado, até um juiz que dá aos policiais os meios para grampearem os telefones da totalidade dos cidadãos brasileiros e depois deixa percebermos que considera tal tratamento adequado para os nativos de países que não pertencem à civilização...

Então, no domingo passado, ao ler a notícia sobre um médico sexagenário que passou 51 horas seguidas lutando pela vida de um paciente, ocorreu-me que isto ocorreu apenas e tão-somente por se tratar de um cirurgião cujo caráter foi moldado em outros tempos.

Tempos em que o promotor Hélio Bicudo enfrentava quase sozinho o terrível Esquadrão da Morte, indiferente às ameaças e intimidações dos assassinos que, depois de enriquecerem executando traficantes a soldo dos traficantes concorrentes, foram dar vazão ao seu sadismo na repressão política.

Tempos em que o já idoso Ulysses Guimarães atravessava altaneiro uma praça (tornada) de guerra, indiferente aos cães policiais com que o ameaçavam, para manter acesa a chama da redemocratização.

Tempos em que o arcebispo Paulo Evaristo Arns desafiava o Planalto e o Vaticano, para honrar a memória de um mártir brasileiro e ferir de morte o terrorismo de estado que grassava no País.

E, para incluir os esportistas, pois é deles que estávamos falando, tempos em que o supercraque Sócrates, num ato público a favor da Emenda Dante de Oliveira no Vale do Anhangabaú (SP), comprometeu-se diante de meio milhão de manifestantes a recusar a oferta estratosférica da Fiorentina caso as eleições diretas fossem restabelecidas no Brasil.

Só um motivo o levaria a abrir mão daquela fortuna: contribuir para a reconstrução da nossa democracia. Mas, algumas centenas de parlamentares canalhas não só nos negaram uma saída da ditadura pela porta da frente, como nos privaram do nosso grande cidadão futebolista.

Não tenho a mínima idéia de quem mereça ser considerado o principal atleta do século passado, em termos estritamente esportivos. Mas, o maior cidadão que o esporte projetou foi, indiscutivelmente, Muhammad Ali.

Despontou, aliás, como campeão olímpico. Será que algum da safra atual lhe chegará aos pés? Tomara. Duvido.

Depois, como profissional, revolucionou o boxe peso-pesado, até então monopolizado pelos grandalhões fortes e lentos. Magro, ágil, defendia-se com a movimentação nos ringues, dando-se ao luxo de manter a guarda baixa. Ao ser golpeado, recuava rapidamente ou se desviava, para contra-atacar de forma fulminante.

Quando tudo indicava que teria um longo reinado pela frente, foi convocado para a Guerra do Vietnã. Em nome das suas convicções políticas e religiosas (era muçulmano negro, seguidor de Malcoln X), recusou o papel que o Exército dos EUA reservara para ele: o de servir como relações-públicas de uma guerra imunda.

Os militares nunca cogitaram expô-lo ao fogo inimigo, claro. O que não os impediu de acusarem-no de covardia, numa vã tentativa de empanarem o brilho de sua atitude.

Teve seu título e seu direito de lutar cassado pela máfia do boxe. Durante os 3,5 anos que ficou fora dos ringues, não só perdeu milhões de dólares, como foi tecnicamente alcançado pelos novos pugilistas que vieram nas suas pegadas.

Quando, finalmente, deixaram-no ir atrás da coroa roubada, já não enfrentava ursos pesadões, mas adversários ágeis como Joe Frazier e demolidores como George Foreman.

O que não o impediu de protagonizar a maior luta de boxe de todos os tempos, ao derrotar inacreditavelmente o segundo, parecendo um velho Davi a prostrar o mais terrível dos Golias.

Nem de dar um dos maiores exemplos de esportividade nos ringues, durante a terceira luta que travou contra Frazier. No 14º assalto de uma batalha extenuante, teve, finalmente, o adversário à sua mercê. Frazier já não conseguia se defender. Ali poderia nocauteá-lo como bem entendesse.

Em vez disso, pediu insistentemente ao juiz a decretação do nocaute técnico. Não sendo atendido, ainda assim evitou dar o golpe definitivo. Deixou um Frazier grogue terminar o round em pé. Aí, o staff decidiu que ele não tinha condições de voltar para o assalto final e Ali venceu por abandono.

À saída, cruzando com o filho de Frazier, o gentleman Ali lhe disse: “seu pai foi o homem mais corajoso que já enfrentei”.

Espero estar vivo quando surgirem novos esportistas como Sócrates e Muhammad Ali... se é que o inferno pamonha os propiciará.


Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Outros artigos em: Celso Lungaretti - Jornal O Rebate


Leia os comentários diários dos últimos acontecimentos. Acesse o Blog: Blog de Celso Lungaretti – Náufrago da Utopia

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