Durante uns cinco anos, entre 1979 e 1984, atuei como crítico de cinema e de música em veículos de pouca ou média expressão.
Mesmo ganhando pouco, é a fase da minha carreira profissional que me deixou as melhores recordações. Até como compensação, tinha liberdade para escrever o que queria, como queria. Repetindo o Jim Capaldi, "oh, how we danced!"...
Espelhava-me em pesos-pesados como Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel e Rubem Biáfora, com quem aprendera a apreciar a arte com olhar independente e crítico, em vez de ser mais um a fazer oba-oba para os artistas e obras de que todo mundo gostava.
Isto me colocava na contramão de uma crítica que começava a funcionar apenas como fornecedora de subsídios para o consumo, oferecendo aos leitores uma bula para eles decidirem se valia a pena ver determinado filme, comprar certo disco. Em qualquer lugar, cheguei a escrever que se tratava, isto sim, de uma burla que se cometia com a sétima arte.
A ficha me começou a cair quando assisti numa cabine a Alien, o Oitavo Passageiro, de Riddley Scott, ao lado dos maiores nomes da critica cinematográfica de São Paulo. À saída, os medalhões travaram verdadeira competição para ver quem se lembrava de mais filmes antigos dos quais Scott chupara trechos. Demonstraram claramente ter considerado Alien um lixo.
Qual não foi minha surpresa ao constatar, dias depois, que todos eles haviam feito média com o filme, permanecendo confortavelmente em cima do muro, nem sim, nem não, muito pelo contrário...
Perdi o pouco de respeito que ainda me inspiravam.
Outro episódio na mesma linha foi o ocorrido quando da coletiva que Franco Zefirelli concedeu, ao lançar em São Paulo O Campeão. Antipatizei com o filme por ser um reforço dos valores familiares, uma guinada na direção do conservadorismo, depois de toda a efervescência da geração das flores.
Além disto, Zefirelli acabava de ser contratado a peso de ouro para montar uma ópera no Rio de Janeiro, embora, garantissem os expertos, houvesse muitos brasileiros que poderiam desempenhar melhor a função, por bem menos.
Então, combinei com o colega do Diário Popular que, durante a entrevistas, jogaríamos o máximo de cascas de banana no caminho de Zefirelli. Dito e feito. O italiano escorregou feio, chegando até a admitir que, ao contrário do moralismo piegas do seu filme, ele próprio era "promíscuo".
E foi além: "Mas, se todos fossem como eu, não existiria civilização".
Em nossas matérias, não perdemos a oportunidade de espinafrar o conspícuo herdeiro de Sodoma e Gomorra -- que, ademais, reconhecera não conceber os filmes seguindo suas convicções, mas sim procurando antecipar-se aos sentimentos e modismos que estariam em voga quando a película fosse lançada ("Não fiz Irmão Sol, Irmã Lua por ser franciscano, mas sim por ter percebido que a juventude estava entrando nessa e logo muita gente a seguiria...").
Mas, só nós dois registramos os maus momentos de Zefirelli. Os críticos realmente influentes preferiram levantar-lhe a bola, mantendo-se nas boas graças do sistema. Eu, pelo contrário, nunca conciliei. Não hesitei em qualificar de irrelevante o Superman de 1978, com Marlon Brando. Aí, um diretor do poderoso Circuito Serrador fez questão de me entragar pessoalmente a permanente para ter livre acesso aos cinemas da empresa... com direito a um sermão sobre haver afastado os espectadores do seu grande lançamento daquele ano. Não dei a mínima.
Já a crítica azeda ao O Franco-Atirador, de Michael Cimino, serviu para azedar também meu relacionamento com os mandachuvas do principal veículo em que escrevia, o semanário Fim-de-Semana. Eles eram todos altos funcionários do jornal O Estado de S. Paulo (dizia-se até que não passava de um veículo criado para descarregar impostos da empresa, apresentando perdas extremamente superfaturadas...) e, como tais, reacionários até a medula.
Ora, O Franco-Atirador apresentava o conflito vietnamita na ótica calhorda de lamentar os traumas sofridos pelos coitados dos soldados estadunidenses, em contato com a barbárie dos asiáticos. Ou seja, além de despejarem toneladas de napalm nos coitados, os norte-americanos ainda os satanizavam. Parecia a velha piada do brutamontes se queixando ao fracote de que havia machucado a mão ao esmurrar a cara dele.
Perdi aquela tribuna e não lamentei. "Canto eu vendo, não vendo é opinião", dizia uma velha música da era dos festivais.INTIMIDAÇÃO DE CRÍTICOS - Não pude, entretanto, deixar de lamentar o fato de haver indiretamente causado a demissão do crítico e cineasta Jairo Ferreira da Folha de S. Paulo, em outro episódio.
Naquele tempo, a nata dos cineastas engajados era financiada pela estatal Embrafilme, cuja assessoria de imprensa passou a fazer uma espécie de lobby para intimidar críticos: cada vez que um deles lançava seu novo filme, todos os outros escreviam elogios extremados e desancavam de forma igualmente extremada os direitistas que acaso ousassem discordar da excelência da película lançada.
Isto tudo vinha em luxuosos press-kits, cuidadosamente produzidos para embasbacar, amedrontar e, finalmente, cooptar os críticos.
Observei o fenômeno uma, duas vezes. Na terceira, fiz uma veemente denúncia. Contei como funcionava o esquema e escrevi que, mesmo correndo o risco de me indispor com os Glauberes e Nelsons Pereiras, iria discordar: o filme não prestava.
O amigo Jairo leu, gostou e resolveu bater na mesmíssima tecla. Só que a Embrafilme despejava rios de dinheiro na Folha, com seus anúncios enormes e caríssimos. Então, por coincidência, uma semana depois ele foi despedido, a pretexto de que uma crítica sua, escrita para ser publicada no sábado, saíra só na segunda-feira, quando o filme já não estava em cartaz. A editora garantiu que não tinha sido avisada da urgência. Ele me garantiu que a alertara.
De resto, a contribuição maior que eu tentei dar foi propor uma crítica que fosse além dos mexericos de estúdios a que o Rubens Ewald Filho conferia tanta importância (quem transou com quem durante as filmagens, etc.) e também da abordagem puramente técnica. Queria que o cinema fosse tratado como algo maior. Que os temas levantados pelos filmes também fossem discutidos e aprofundados, não apenas a maneira como estavam sendo apresentados. Que se confrontasse, p. ex., o filme e a obra literária do qual ele derivava. Ou o filme e o acontecimento histórico que ele retratava.
Seria mais trabalhoso para os críticos mergulharem fundo em cada filme? Claro que seria. Mas, só assim daríamos aos espectadores subsídios para fluírem a arte em sua plenitude, como algo capaz de modificar e melhorar o ser humano.
Como bem destacara o filósofo Herbert Marcuse (meu autor de cabeceira naquele tempo), a sociedade pós-industrial tenta domesticar a arte, transformando-a em entretenimento inócuo. Mas, a verdadeira arte será sempre uma crítica à realidade, servindo de ponte entre o que é e o que poderia ser. Cabe aos combatentes da utopia impedir que ela morra.
É claro que meu trabalho acabou sendo ignorado pela grande imprensa; e que, ao propor um rumo diametralmente oposto ao que convinha ao sistema, queimei minhas chances de estabelecer-me como crítico.
Acabei não conseguindo sequer sobreviver nessa área, sendo obrigado a trocá-la pelo - argh! - jornalismo econômico.
Mas, como nunca tive compromisso com o sucesso, faria tudo de novo. Afinal, disse Isaac Deutscher, há vitórias que nos aviltam e derrotas que nos dignificam.
Sendo estas as únicas opções, preferirei sempre as segundas.
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