31 maio 2010

Brasil desmata por dia o equivalente à área que será alagada por Belo Monte

por Pedro Peduzzi Repórter da Agência Brasil*  

O total de área a ser alagada pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte corresponde a menos do que é desmatado em um dia na Amazônia, afirmou hoje (27) o professor da Faculdade de Tecnologia da Universidade de Brasília (UnB), Ivan de Toledo Camargo, durante debate sobre energias renováveis, no 27º Fórum Brasil-Europa, promovido pela UnB em parceria com instituições internacionais. 

“Belo Monte equivale a menos do que é desmatado diariamente na Amazônia. Nos últimos anos, em média, todo dia são pelo menos 500 quilômetros quadrados a menos de florestas. É uma dimensão muito próxima ao que está previsto em termos de área a ser alagada por essa hidrelétrica, que garantirá boa parte da energia a ser consumida no país”, disse o professor. Camargo integrou a Câmara de Gestão da Crise durante o racionamento de energia em 2001. 

O engenheiro elétrico disse estar mais preocupado com os estragos que serão provocadas pelas pessoas que serão atraídas para a região por causa da usina. 

Outro assunto abordado por ele foi o uso de energia solar proveniente de painéis pelo Brasil. “É um equívoco encher o país de painéis de energia solar. Esse tipo de energia só é indicado para as comunidades isoladas do país. Apenas discursos vazios e sem dados defendem isso”, argumentou. 

“Nem a energia solar nem a eólica são a solução para o Brasil. Primeiro por serem sazonais, ficando interrompidas em períodos do ano. Precisamos investir pesado nas eólicas, mas tendo em mente a necessidade de sistemas complementares, provavelmente à base de hidrelétricas e de biomassa”, argumentou. 

Ele sugere que se aproveite o bagaço de cana-de-açúcar nesses sistemas complementares. “Na Europa, a energia eólica é complementada por usinas térmicas. Temos, no Brasil, condições de usar o bagaço da cana, que atualmente tem apenas 10% de aproveitamento”, acrescentou. 

“O Brasil possui 9 milhões de hectares dedicados a plantações de cana-de-açúcar. Em 2020 serão 12 milhões. Ou seja: teremos ainda muita energia que poderá ser gerada a partir da biomassa”, avalia o professor.

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O Agronegócio que sobrevive das benesses do estado é o velho latifúndio maquiado

por Marcos A. Pedlowski *  
Volta e meia somos inundados por estatísticas destinadas a demonstrar que a agricultura brasileira passou por uma grande modernização e que, hoje, graças ao dinamismo dos grandes proprietários rurais, não precisamos mais nos preocupar com os efeitos danosos da persistência de altos padrões de concentração da terra. Esta falácia é útil para muitas coisas, desde impedir a realização da reforma agrária até tornar o Brasil uma presa das grandes corporações multinacionais que aqui se refestelam, tanto vendendo substâncias banidas internacionalmente quanto disseminando sementes geneticamente modificadas para resistir a grandes cargas de agrotóxicos, cuja utilização compromete a nossa soberania e segurança alimentar. E, nos casos em que as práticas agrícolas dos latifundiários aceleram a degradação ambiental, os seus representantes ainda aparecem exigindo dinheiro público para remediar os efeitos de suas práticas agrícolas, como no caso da dragagem de canais no município de Campos dos Goytacazes.

Há que se dizer que a aura de perfeição que cerca o chamado agronegócio é produto de uma longa campanha ideológica cujo ápice ocorreu durante os anos do governo FHC, onde não apenas o termo foi cunhado para apagar da memória nacional a existência do latifúndio, mas também uma imensa perseguição aos defensores da realização da ampla reforma agrária no Brasil. Durante os anos FHC, a agricultura familiar foi estigmatizada ao ser transformada em sinônimo de atraso, enquanto que o latifúndio, rebatizado de agronegócio, era cinicamente elevado à condição de moderno e eficiente.

Com a eleição de Lula, a expectativa era de que houvesse uma reviravolta e que tanto a agricultura familiar fosse devidamente valorizada como a reforma agrária saísse do plano do discurso para se tornar uma política de Estado. Infelizmente, não foi isto o que aconteceu porque Lula e o PT preferiram se aliar ao latifúndio, colocando inclusive dois diletos representantes deste setor para dirigir o Ministério da Agricultura (Roberto Rodrigues e Reinhold Stephanes) que continuou sendo turbinado com orçamentos gigantescos, enquanto o Ministério do Desenvolvimento Agrário tornou-se algo mais midiático do que efetivo. Aliás, como em governos anteriores, o atual governo utilizou a regularização da posse da terra para demonstrar que estava efetivamente realizando uma política de reforma agrária. Entretanto, a simples análise da localização dos supostos assentamentos criados pelo governo Lula mostra que o grosso dos títulos de posse concedidos está na Amazônia legal.

Essa velha tática de mascarar inoperância com números mal explicados também ocorre no financiamento da produção e na rolagem da dívida dos produtores rurais. A mídia insiste em apresentar a tese de que o latifúndio passou por um processo de modernização de tal ordem que hoje não necessita mais de ser financiado pelo Estado para poder se manter. É através desta imagem que se tem, convenhamos com bastante eficiência, conseguido vender a noção de que o Brasil hoje possui um pujante setor agrícola que pode competir internacionalmente em pé de igualdade com os países desenvolvidos. No entanto, uma simples verificação do montante de recursos que é concedido na forma de financiamentos para a produção mostrará que os grandes proprietários rurais continuam (me perdoem a liberdade poética) mamando nos cofres do Estado brasileiro, recebendo grandes quantidades de recursos e, ainda por cima, se beneficiando de generosos períodos de rolagem para suas dívidas milionárias.

O fato é que dos R$ 120 bilhões que o governo Lula pretende investir em crédito para o Plano Agrícola e Pecuário para a safra de 2010/2011, R$ 100 bilhões deverão ser entregues aos grandes proprietários. Enquanto isto a agricultura familiar, além de receber um montante bastante inferior, também não recebe os prazos elásticos que são concedidos para o latifúndio. E o pior é que os empréstimos tomados em linhas de crédito pelos agricultores familiares possuem custos relativamente mais altos. Uma das conseqüências deste tratamento tão diferenciado é, pasmem, o avanço e não o recuo do latifúndio em termos da quantidade de terra que este setor controla. 

Entre os efeitos desta equação desbalanceada entre latifúndio e agricultura familiar está o aumento do êxodo rural (que aumenta o exército de mão-de-obra de reserva que vive em condições precárias nas periferias urbanas brasileiras) e o recuo na quantidade de alimentos que é produzida internamente. Se nos concentrarmos apenas nos problemas que o Brasil já encontra devido à redução da área produzindo alimentos veremos que estamos caminhando para um grande paradoxo. Enquanto a maioria das mais férteis terras brasileiras está sendo usada para o cultivo de monoculturas voltadas para a exportação, corremos o risco de nos tornarmos importadores de itens básicos de nossa dieta como feijão e arroz e sofrermos cada vez mais com a falta de água. Digo isto porque, ao exportar soja, álcool, açúcar e papel, o principal custo de produção embutido é o da água, visto que todas estas monoculturas são fortes consumidoras de recursos hídricos.

Para finalizar, é sempre bom lembrar que o trabalho escravo só sobrevive graças à existência do latifúndio, visto que é nas grandes propriedades ocupadas pelas diferentes monoculturas o lugar onde esta excrescência social se mantém firme e forte. E tudo isto com um generoso financiamento público! Por essas e outras é que se pode dizer em alto e bom tom: de moderno o latifúndio não tem nada!

*Universidade Estadual do Norte Fluminense

fonte : http://www.chicoalencar.com.br

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30 maio 2010

Entrevista de Plínio Arruda Sampaio para o Blog do Noblat em 30/05

Boa tarde, dr. Plínio de Arruda Sampaio, candidato do PSOL a presidente da República. Gostaria que o senhor se apresentasse para aqueles que não o conhecem.
Boa tarde Noblat. Primeiramente, muito obrigado por essa entrevista. Minha pré-candidatura é uma das que menos tem tido espaço na mídia. Por isso, há ainda um grande desconhecimento dela. Mas sou um homem de 79 anos e quase 60 de vida pública. 
Comecei na Juventude Católica ainda na USP, no Largo de São Francisco, em 1950. Foi aí que fiz a opção pelo socialismo cristão, no convívio com os dominicanos. 
Depois militei no verdadeiro Partido Democrata Cristão (PDC), que já acabou e não tem nada com esse do Eymael. 
Em seguida, governo. Carvalho Pinto em SP. Fiz o Plano de Ação do Carvalho, que foi o primeiro a ser integralmente implementado. Logo, fui para a Câmara Federal, 1962.
Lá, fui relator do projeto de reforma agrária do presidente João Goulart. Não precisa nem dizer que, após isso, fui cassado pelo golpe, 12 anos de exílio, no Chile e dos EUA, trabalhando na ONU e na reforma agrária. 
Volto e ajudo a fundar o PT, onde militei até 2005. Aí o PT saiu de mim, pq virou igualzinho aos outros. Fui então pro PSOL, onde estou. Antes, em 1990, fui candidato a governador de SP pelo PT.
E em 2006, já no PSOL, candidato de novo ao gov. de SP, fiquei em 4º lugar. A campanha que gastou R$ 80 mil e rendeu meio milhão de votos.
Além disso, tenho seis filhos, 12 lindos netos e uma companheira de vida há 56 anos que foi fundamental nessa trajetória, a Dona Marieta.
Penso que isso é o fundamental para aqueles que ainda não conhecem minha história política. Podemos seguir.

Fale do PSOL. Mas se possível de forma mais resumida.
O PSOL é uma tentativa de reeditar um partido socialista, que venha suprir a traição do PT, ou melhor, da direção do PT.

Que traição foi essa do PT? Traiu o quê?
[Ah, esqueci de dizer antes que fui deputado federal por 3 vezes. Na Constituinte de 1988, relatei o capítulo sobre o Poder Judiciário]
O PT surgiu como o primeiro partido socialista, democrático pelas bases. Assim foi até 1989. Depois resolveram ampliá-lo para outras classes. Deu no que deu.

Deu em quê?
Deu num partido igual aos demais. Um partido da ordem. Isto não representa o pensamento da maioria dos petistas - gente muito séria.

Como um partido pode governar sem se tornar um partido da ordem? O senhor sugere um governo da desordem?
Sugiro um governo na verdadeira ordem. Com igualdade, justiça e liberdade. Fora, portanto, da ordem capitalista. Dentro da ordem socialista.

Faltam justiça, igualdade e liberdade no governo que temos há 8 anos?
Faltam. Não temos reforma agrária. Os movimentos sociais e a juventude, sobretudo negra, são criminalizados. Pobreza sem casa.

Vamos ser práticos. Como seria sua reforma agrária?
Para começar, desapropriar fazendas com mais de mil hectares, produtivas ou não. Jango, em 64, propunha 500ha. Só assim 6 milhões de famílias terão terra.

A desapropriação se faria mediante autorização da Justiça? E o senhor acredita que a Justiça autorizaria?
O limite de tamanho é uma campanha da CNBB/MST. A Constituição terá de ser reformada. Indenização a prazo. Sendo lei, o Judiciário cumprirá.

Que outro ponto destacaria de um eventual governo do PSOL?
Socialização da educação para garantir 3 valores: igualdade, liberdade, eficiência. Ou o menino pobre entrará na vida em desvantagem.

O senhor é candidato para marcar posição e fazer o PSOL crescer ou imagina que poderá ser eleito?
Se a mídia fizer como você, tenho chances e vou lutar por elas. Não esqueça que FHC sentou na cadeira de prefeito de São Paulo antes do tempo.
[Nota: em 1985, candidato a prefeito contra Jânio Quadros, Fernando Henrque posou para fotos sentado na cadeira do prefeito. As fotos só seriam publicadas caso ele se elegesse. Ele perdeu.]

Quem o senhor acha que está sentado ou tentando sentar na cadeira de presidente antes do tempo?
Dilma e Serra. Aliás, o processo eleitoral foi montado para isso. Iremos desconstruir esse "bipartidarismo" antidemocrático.

Como sem muito dinheiro, sem apoio de outros partidos e com pouquíssimo tempo de propaganda eleitoral o senhor pensa em se eleger?
[Antes, outro ponto do programa: socializar a medicina. Quando o rico tiver que ir no mesmo hospital do pobre haverá finaciamento para a Saúde]
Sobre a eleição, confio no povo e no Twitter. Sempre há quem entenda nossa mensagem. O difícil é fazê-la chegar ao povo.

Então o senhor é candidato a ser o primeiro presidente eleito pelo twitter?
Não, o Obama teve muita ajuda da internet antes de mim.

O que o senhor tem contra Dilma e Serra?
O fato de que suas políticas são contrárias aos interesses do povo.

O senhor não faz distinção entre Serra e Dilma? Acha que são parecidos ou que representam as mesmas coisas? 
Não são parecidos, mas representam a mesma política neoliberal.

Num eventual segundo turno entre Dilma e Serra, quem o senhor apoiaria?
Não haverá 2º turno entre Dilma e Serra, será entre um deles e o Plínio.

Sei que essa é a resposta padrão dos candidatos. Mas digamos que isso aconteça, por absurdo. Quem apoiaria?
O 2º turno é uma outra eleição. Precisa ser pensada de novo, não agora. Hoje, é impensável o apoio a qualquer um dos dois.

O senhor não fala de Marina Silva. Por que? Há possibilidade de ela e o senhor estarem juntos ainda no primeiro turno?
Não posso apoiar a Marina porque ela é ecocapitalista e eu, ecossocialista.

O senhor não reconhece avanços no governo Lula?
Infelizmente, não. Algumas coisas boas na superfície escondem barbaridades na profundidade.

Dê um exemplo de avanço do governo Lula que esconde barbaridade.
Colocar 20 milhões de pessoas comprando eletros nas casas Bahia enquanto seus filhos estão numa escola sucateada.

Estamos com pouco mais de 1 hora e meia de entrevista e próximos do fim. Que país o senhor aponta como modelo para o Brasil?
Não há modelos. O socialismo está sendo reinventado para incluir a liberdade na luta pela igualdade.

Onde o socialismo está sendo reinventado? Em que país esse processo de reinvenção está mais maduro ou tem avançado mais?
A reinvenção está na etapa do debate ideológico entre os sociaistas. Ainda não se executa. O Brasil poderá ser o 1º.

Dr. Plínio: grato pela entrevista. Grato a todos.
Muito obrigado. Foi um gesto democrático. Tenho certeza de que ajudou a difundir as idéias do PSOL.

fonte : Blog do Noblat

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Grito dos Excluídos - 16ª edição - 07 de setembro 2010




O lema da edição deste ano será “Onde estão nossos direitos? Vamos às ruas para construir um projeto popular”.

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Noblat entrevista Plinio neste domingo, 30/05 às 14h30

Atualização das 19:00 h. 
Leia aqui a entrevista

Postagem das 12:30 h.
Neste domingo (30 de maio), às 14h30, Plínio Arruda Sampaio concede entrevista ao jornalista Ricardo Noblat via Twitter. 

Defensor do microblog como uma ferramenta de democratização da campanha e de interação com apoiadores e usuários da internet, Plínio tem realizado semanalmente conversas com seus seguidores no Twitter – sempre às terças-feiras pela manhã, entre 10 horas e meio-dia. Além disso, o pré-candidato do PSOL também responde pessoalmente a questionamentos feitos pelos ”tuiteiros”. 

Apesar de não acessar o microblog todos os dias, quando o faz Plínio tem sido muito elogiado mesmo por pessoas que afirmam estar acompanhando todos os pré-candidatos à sucessão presidencial para conhecer os programas dos candidatos e definirem, até 3 de outubro, quem escolherão como o melhor projeto para o executivo federal.

Para quem ainda não segue Plínio Sampaio no Twitter, sua conta é @pliniodearruda. A entrevista deste domingo pode ser acompanhada também pelo @blogdonoblat.

Confira abaixo um artigo de Plínio Arruda Sampaio sobre o Twitter e veja também o vídeo no qual o pré-candidato convida os internautas a “tuitarem” . 

Twittemos todos! por Plínio Arruda Sampaio

O gargalo de todo candidato antissistema é a cortina de ferro do silêncio. Seu nome quase não é mencionado nas Tvs ou rádios, e a candidatura fica sempre atrás das candidaturas da ordem porque a maioria dos brasileiros sequer têm conhecimento da existência dos candidatos devido a esse forte bloqueio midiático.

Os simpatizantes dos pré-candidatos contrários à ordem atual, enquanto cidadãos, têm o direito de serem informados. E podem, por isso, cobrar dos veículos de comunicação, especialmente os que são concessões públicas (rádios e Tvs), que informem sobre as atividades e opiniões de seus candidatos.

Terá algum efeito, mas o que pode fazer a diferença nessa eleições é a organização das redes de apoio às candidaturas socialistas via internet. Barata e imediata, a internet permite algo essencial para a democracia: a interação que torna viável potencializar a participação política.

Um grande instrumento da interação nessas eleições é o Twitter. Por meio dele, a pessoa comunica-se com milhares de outras ao mesmo tempo. Pretendo usar o Twitter para realizar um velho sonho: atuar em cumprimento às decisões tomadas pela base.

O Twitter desfaz o argumento principal dos que julgam ser impossível conciliar velocidade na decisão com participação da base. O imediatismo das respostas permite reduzir a um mínimo os casos em que é preciso tomar uma decisão antes de escutar a base. Nesses poucos casos, nada impede também que a decisão seja referendada posteriormente.

A condição para que o sistema funcione é organizar a campanha por meio de comitês. Cinco, seis, dez pessoas podem organizar um comitê para realizar a campanha em um meio social de sua escolha. Cadastrando os comitês numa rede, estes podem ser imediatamente consultados sobre as decisões que precisam ser tomadas, fazer sugestões ou críticas à condução da campanha.

Posso assegurar-lhes: disso dependerá o êxito de nossa disputa eleitoral. Participação!


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29 maio 2010

Organizações denunciam a Monsanto

por Aline Scarso para a Radioagência NP.

A Associação Brasileira dos Produtores de Soja do estado do Mato Grosso (Aprosoja) e a Associação Brasileira de Produtores de Grãos Não Geneticamente Modificados (Abrange) devem recorrer ao Ministério da Justiça contra a empresa Monsanto. Pequenos e médios produtores rurais denunciam que a multinacional está obrigando aos sementeiros a destinar 85% da produção às culturas transgênicas.

A denúncia será feita ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), veiculado ao Ministério da Justiça. O presidente da Aprosoja, Glabuer Silveira, conta que é difícil encontrar no mercado a semente convencional. Ele também denuncia a indústria por cobrar 2% de royalties sobre as sementes utilizadas, caso o produtor produza acima da média de 55 sacas.

Produtores reclamam que o quilo da semente da soja transgênica também aumentou, de R$ 0,35 para R$ 0,44. De acordo com a Aprosoja e a Abrange, a imposição de regras aos sojicultores é consequência do controle do mercado brasileiro pela Monsanto. Pelo menos 70% do mercado estão sob domínio da empresa.

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28 maio 2010

O reajuste para os aposentados – texto de Plínio na Carta Capital

Fator previdenciário e reajuste das aposentadorias: Vetos de Lula são inaceitáveis, por Plínio Arruda Sampaio 

Volto ao tema do reajuste dos aposentados em razão da ameaça de concretização do veto presidencial à extinção do malfadado fator previdenciário e ao percentual aprovado no Congresso Nacional. E não poderia ser diferente, pois em todas as ocasiões em que se discutiu remuneração de qualquer tipo às pessoas mais pobres, manifestei-me invariavelmente em favor dos aumentos. Motivo: em um país com desigualdade social obscena toda e qualquer transferência de renda aos mais pobres é válida. 

O argumento de que o reajuste provocará desequilíbrio orçamentário omite o quanto o governo ga sta com a remuneração do capital financeiro por meio da dívida pública, que consome 36% do orçamento anual da união, quando o referido reajuste representará um impacto de R$ 680 milhões num orçamento de quase R$ 640 bilhões. Bastaria inverter a lógica de administração orçamentária e estancar a sangria da dívida pública, para que sobrem recursos para a previdência. Mas, mesmo hoje, não há déficit. O que existe, desde a época da ditadura, é o desvio de verbas da Seguridade Social para outras iniciativas, como a construção da ponte Rio-Niterói, estradas de ferro, etc. Hoje, parte do orçamento que deveria garantir o descanso de quem se aposenta vai parar na composição do superávit primário que remunera o capital. 

Entristece-me ainda o argumento de que uma das causas dos problemas da previdência seja a imprevidência dos constituintes ao estender o benefício da aposentadoria a pessoas que não haviam contribuído. Que injustiça! Se é verdade que os trabalhadores rurais não pagaram a previdência, é verdade também que, com seus miseráveis salários, subsidiaram durante séculos o consumo de alimentos de quem agora os acusa de aproveitadores. O IPEA demonstrou que, não fora essa previdência, a seca do nordeste em 1994 teria causado uma crise de fome aguda de enormes proporções. 

Quanto ao fator previdenciário, como pode ser aceitável que uma pessoa que iniciou sua vida profissional aos 14 anos, caso da maioria dos brasileiros, e já trabalhou por mais de 30 anos seja obrigado a continuar na labuta para manter na aposentadoria os rendimentos da ativa? Não podemos tratar nossos velhos como estorvo.

O direito do aposentado deve ser um parâmetro para a distribuição de renda e não uma variável ajustável de acordo com os interesses dos grupos sociais poderosos. Este é, de resto, o sentido, de uma política fundada em valores sociais e no respeito à dignidade da pessoa humana.

Os brasileiros deveriam se levantar contra a injustiça dos vetos ao reajuste dos aposentados e ao fim do fator previdenciário. Não podemos aceitar passivamente que nossos aposentados sejam tratados como “marajás”, “vagabundos” ou “privilegiados” após construir as riquezas de nosso Brasil. Uma nação se faz com direitos.

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A proteção das floretas e comunidades rurais dependem do Código Florestal

Na próxima terça-feira dia 1 de junho nossas florestas irão sofrer um ataque perigoso – deputados da “bancada ruralista” estão tentando destruir o nosso Código Florestal, buscando reduzir dramaticamente as áreas protegidas, incentivando o desmatamento e crimes ambientais. 

O que é mais revoltante, é que os responsáveis por revisar essa importante lei são justamente os ruralistas representantes do grande agronegócio. É como deixar a raposa cuidando do galinheiro! 

Há um verdadeiro risco da Câmara aprovar a proposta ruralista – mas existem também alguns deputados que defendem o Código e outros estão indecisos. Nos próximos dias, uma mobilização massiva contra tentativas de alterar o Código, pode ganhar o apoio dos indecisos. Vamos mostrar que nós brasileiros estamos comprometidos com a proteção ambiental – clique abaixo para assinar a petição em defesa do Código Florestal:  


Enquanto o mundo todo defende a proteção do meio ambiente, um grupo de deputados está fazendo exatamente o contrário: entregando de mão beijada as nossas florestas para os maiores responsáveis pelo desmatamento do Cerrado e da Amazônia. Eles querem simplesmente garantir a expansão dos latifúndios, quando na verdade uma revisão do Código deveria fortalecer as proteções ao meio ambiente e apoiar pequenos produtores. 

As propostas absurdas incluem:
  • Reduzir a Reserva Legal na Amazônia de 80% para 50%
  • Reduzir as Áreas de Preservação Permanente como margens de rios e lagoas, encostas e topos de morro:
  • Anistia aos crimes ambientais, sem exigir o reflorestamento da área
  • Transferir a legislação ambiental para o nível estatal, removendo o controle federalEssa não é uma escolha entre ambientalismo e desenvolvimento econômico, um estudo recente mostra que o Brasil ainda tem 100 milhões de hectares de terra disponíveis para a agricultura, sem ter que desmatar um único hectare da Amazônia. 

A proteção das floretas e comunidades rurais dependem do Código Florestal, assim como a prevenção das mudanças climáticas e a luta contra a desigualdade do campo. Assine a petição para salvar o Código Florestal e depois divulgue!  


Juntos nós aprovamos a Ficha Limpa na Câmara e no Senado. Se agirmos juntos novamente pelas nossas florestas nós podemos fazer do Brasil um modelo internacional de desenvolvimento aliado à preservação.

fonte: http://www.avaaz.org

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PSOL domingo em Copacabana

No domingo (30/5) a partir de 10 h, na Av. Atlântica, em frente a Rua Santa Clara o PSOL estará relizando mais uma vez sua atividade político-cultural. Terá a  presença de Eliomar Coelho, Marcelo Freixo, Chico Alencar e Lucio Sanfilippo com sua roda de ritmos brasileiros.

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Escravidão nunca mais!

por Chico Alencar (PSOL/RJ) em pronunciamento na Câmara dos Deputados. 

Hoje, dia 26/05, a Frente Parlamentar Mista pela Erradicação do Trabalho Escravo, presidida pelo senador José Nery (Psol-PA), entregou ao Presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, abaixo-assinado pela aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 438, que prevê o confisco de áreas urbanas ou rurais onde for comprovada a prática de trabalho análogo à escravidão.

A comitiva foi composta por nós, parlamentares da Frente, e pelos ministros do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, pela relatora da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Formas Contemporâneas de Escravidão, Gulnara Shahinian, pelos atores Wagner Moura e Sérgio Mamberti e por diversos representantes de movimentos populares.

A PEC 438 foi apresentada pela primeira vez em 1999, pelo ex-senador Ademir Andrade (PSB-PA), sob o número 57/1999. Ela propõe nova redação ao Art. 243 da Constituição Federal, que trata do confisco de propriedades em que forem encontradas lavouras de plantas psicotrópicas ilegais. A nova proposta estende a expropriação sem direito à indenização - também para casos de exploração de mão-de-obra análoga à escravidão. A PEC 438/2001 define ainda que as propriedades confiscadas serão destinadas ao assentamento de famílias como parte do programa de reforma agrária.

De acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em 2010, até a primeira quinzena de maio, 701 trabalhadores em condições análogas a de escravos foram resgatados no Brasil. O maior número, 255, foi em Goiás. O Pará, com 147, está em segundo lugar. Nos últimos quinze anos, mais de 30.000 trabalhadores foram libertados pelos grupos móveis de fiscalização do MTE. Mais de 10.000 estavam no Pará.

A “PEC do Trabalho Escravo” é considerada pelos órgãos governamentais e entidades da sociedade civil que atuam nas áreas trabalhista e de direitos humanos como um dos projetos mais importantes de combate à escravidão. Não apenas pelo forte instrumento de repressão que pode criar, mas também pelo seu simbolismo, pois revigora a importância da função social da terra, já prevista na Constituição.

A PEC, após ser aprovada no Senado, permanece parada na Câmara desde 2004. No mês de agosto daquele ano, a matéria foi aprovada em primeiro turno no Plenário da Casa – com 326 votos favoráveis, dez contrários e oito abstenções. Desde então, permanece à espera da votação em segundo turno. Só o PSOL tem cobrado que a PEC entre na pauta da Câmara.

Devido a mudanças propostas por membros da bancada ruralista - para inserir os imóveis urbanos na expropriação –, a PEC 438/2001 terá que retornar ao Senado depois de aprovada na Câmara.

O presidente da Frente Parlamentar Mista pela Erradicação do Trabalho Escravo no Brasil, senador José Nery (PSOL/PA), considera uma “vergonha” o fato da PEC 438/01 ainda não ter sido votada na Câmara. “A sociedade clama por uma resposta do Poder Legislativo contra esse crime que fere os direitos humanos e não deveria nem existir mais em pleno século 21”. Diversas entidades como a CNBB, Ministério Público do Trabalho, CPT, MST, Conlutas e Intersindical consideram que, passados 120 anos da abolição da escravidão, é hora de acabar de vez essas práticas criminosas contra os trabalhadores. Que a pressão popular venha sobre nós, deputados, para que não se protele mais a votação da PEC 438!

Agradeço a atenção,

Sala das Sessões, 26 de maio de 2010.


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27 maio 2010

Disparada - Jair Rodrigues

Música de autoria de Geraldo Vandré e Théo de Barros, obteve o 1º Prêmio (juntamente com A Banda) do II Festival da Música Popular Brasileira, organizado pela TV Record.







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O debate florestal nas ruas

Passando por oito capitais, o Homem-Motosserra chama atenção para a ameaça das mudanças no Código Florestal, que ruralistas tentam aprovar. 

No último fim de semana, os ativistas do Greenpeace foram para as ruas de Belo Horizonte, Brasília, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio, Salvador e São Paulo e carregaram junto o Homem-Motosserra, paródia dos políticos que querem dar fim ao Código Florestal – lei que protege nossas matas desde 1934. Em dois dias, 4.819 pessoas aderiram à petição contra as mudanças na legislação ambiental. Somadas às assinaturas colhidas virtualmente, o número já chega a mais de 50 mil. 

Com uma motosserra na mão e outra estampada no peito, o personagem chamou atenção para um assunto que deve ser discutido por toda a população: o futuro das florestas e, portanto, do país. No entanto, esse debate está hoje nas mãos de um grupo de deputados ruralistas, a bancada da motosserra, que tenta empurrar mudanças via uma comissão especial da Câmara, e em pleno ano eleitoral. 

No dia 1º de junho, o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), relator da comissão, promete soltar o texto com a nova proposta de lei, mais adequada aos interesses do agronegócio. A anistia aos crimes ambientais cometidos nos últimos 50 anos e o aumento de áreas de floresta que podem ser desmatadas nas propriedades rurais são apenas algumas linhas do novo projeto. 

Durante o fim de semana, os ativistas do Greenpeace distribuíram panfletos explicativos, conversaram com as pessoas e mostraram como a sociedade foi deixada à margem do debate. "Vimos que a população não está ciente do que está acontecendo com o Código Florestal, o que é grave, pois é um processo que diz respeito ao futuro de nossas matas", observa Rafael Cruz, coordenador da campanha. "Buscamos com essa atividade alertar e engajar as pessoas e, nesse sentido, a atividade foi muito positiva." 

No próximo fim de semana, o Homem-Motosserra volta às ruas para dar o seu recado. "O personagem representa o pensamento de pessoas que ainda têm o poder na mão para promover um modelo de desenvolvimento antigo, retrógrado, que não serve mais para o Brasil. Um desenvolvimento à custa de nossas florestas", diz Cruz.  

Confira a programação no fim de semana:  

29 de maio (sábado)
Belo Horizonte: praça Savassi – 9h às 13h 
Brasília: a confirmar 
Porto Alegre: parque da Redenção, rua José Bonifácio, box 10, em frente à Feira Ecológica - 9h às 12h
Recife: parque da Jaqueira, rua do Futuro, 315 - 9h às 12h 
São Paulo: viaduto do Chá - 10h às 16h  

30 de junho (domingo) 
Belo Horizonte: Parque Municipal - 10h às 14h 
Brasília: a confirmar 
Porto Alegre: usina do Gasômetro, rua Presidente João Goulart, 551 no térreo 
Recife: Marco Zero, praça Rio Branco, Recife antigo - 16h às 19h 
São Paulo: Paulista, em frente ao Masp/Trianon - 11h às 16h

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Anistia Internacional: Relatório sobre o Brasil

por Carlos Alberto Lungarzo.

No dia 26/05/2010, as 20:15 hora de Londres, o Secretariado Internacional de Anistia Internacional liberou o relatório redigido durante este ano (2010) sobre a situação dos Direitos Humanos em todos os países do mundo que aceitaram ser visitados pela organização durante o ano passado. O relatório geral está publicado em 7 idiomas, incluído o português, e pode ser baixado livremente em este endereço: http://thereport.amnesty.org/downloads. Aí também se encontram outros recursos, como multimídia e textos de informação complementar.

Os códigos do relatório geral, que também se encontra em edições impressas são os seguintes: Código Interno de Anistia Internacional: POL 10/001/2010 
ISBN: 978-0-86210-461-0

O texto relativo ao Brasil encontra-se entre as páginas 113 e 117 incluídas (6 páginas em total).

As informações contidas nos relatórios compreendem dados do ano passado, para a colheita dos quais, a Organização fez duas visitas a cada um dos países. No caso do Brasil, essas visitas foram em maio e em dezembro.

Solicito a todas pessoas preocupadas pelos Direitos Humanos a difusão mais ampla possível deste documento a todos seus contatos.

BRASIL (REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL) 
Chefe de Estado e de governo: Luiz Inácio Lula da Silva 
Pena de morte: abolicionista para crimes comuns 
População: 193,7 milhões 
Expectativa de vida: 72,2 anos 
Mortalidade de crianças até 5 anos (m/f): 33/25 por mil 
Taxa de alfabetização: 90 por cento

Resumo  
Reformas na segurança pública, embora limitadas, indicaram o reconhecimento, por parte das autoridades, de que essa área foi negligenciada por muito tempo. Agentes policiais, porém, continuaram a usar força excessiva e a praticar execuções extrajudiciais e torturas com impunidade. O sistema de detenção caracterizava-se por condições cruéis, desumanas e degradantes, e a tortura prevalecia.

Diversos agentes de aplicação da lei foram acusados de envolvimento com o crime organizado e com grupos de extermínio. Povos indígenas, trabalhadores sem terras e pequenas comunidades rurais continuaram a ser ameaçados e atacados por defenderem seus direitos fundiários. Defensores dos direitos humanos e ativistas sociais foram alvos de ameaças, de ataques e de acusações politicamente motivadas, apesar de o governo ter estabelecido um plano nacional para a proteção dos defensores de direitos humanos.

Informações gerais  
Próximo ao término de seu mandato, o governo do Presidente Lula ajudou a realçar o papel do Brasil no palco mundial. A política brasileira de construção de uma aliança do ‘Sul’ para questionar as antigas estruturas de poder do ‘Norte’ contribuiu para alterar a política global. Às vezes, porém, essas alianças se deram à custa do apoio a uma plataforma mais abrangente de direitos humanos, inclusive no Conselho de Direitos Humanos da ONU.

No âmbito doméstico, havia amplo reconhecimento de que os investimentos sociais do governo do Presidente Lula ajudaram a diminuir as desigualdades socioeconômicas.

Em agosto, o Brasil realizou sua primeira conferência nacional de segurança pública, na qual sociedade civil e agentes de aplicação da lei participaram juntos no desenvolvimento de políticas governamentais. Em dezembro, o governo lançou seu terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos, o qual recebeu uma boa acolhida da sociedade civil.

Entretanto, o plano foi duramente criticado pelos militares, pela Igreja Católica e pelos grupos de defesa dos interesses dos proprietários rurais, no que diz respeito, respectivamente, a medidas para enfrentar violações de direitos humanos passadas, a direitos sexuais e reprodutivos e a direitos fundiários. Essas contestações representavam uma séria ameaça para a proteção dos direitos humanos no país.

Impunidade por violações do passado  
Uma das propostas do Plano Nacional de Direitos Humanos era o compromisso de se criar uma Comissão da Verdade e Reconciliação para investigar os abusos cometidos sob o regime militar que governou o país de 1964 a 1985. Algumas ONGs e familiares de vítimas criticaram as propostas iniciais, pois a competência da comissão não parecia incluir a instauração de processos contra violadores do passado. No entanto, mesmo essa limitada proposta foi duramente criticada pelos militares brasileiros, com o ministro da Defesa tentando enfraquecê-la ainda mais.

A prolongada impunidade pelos crimes cometidos no período militar, contudo, enfrentou desafios cada vez maiores. Em agosto, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que o coronel uruguaio Manuel Cordero Piacentini poderia ser extraditado para a Argentina a fim de enfrentar acusações referentes ao desaparecimento forçado de cidadãos uruguaios e argentinos, bem como de tortura, no contexto da Operação Condor – um plano conjunto dos governos militares do Cone Sul, durante os anos 70 e 80, para eliminar seus oponentes.

Uma ação ajuizada no Supremo Tribunal Federal pela Ordem dos Advogados do Brasil e por um eminente jurista, questionando a interpretação da Lei de Anistia brasileira, ainda não havia sido decidida no fim do ano.

Forças policiais e de segurança  
Por todo o país, houve relatos persistentes de uso excessivo da força, de execuções extrajudiciais e de torturas cometidas por policiais. Moradores de favelas ou de comunidades pobres, frequentemente sob o controle de grupos criminosos armados, foram submetidos a incursões policiais de estilo militar. Os policiais que ficavam na linha de frente também eram expostos a riscos e muitos foram mortos no cumprimento do dever.

Alguns estados lançaram seus próprios projetos individuais de segurança pública, com resultados contraditórios. Tanto as Unidades de Polícia Pacificadora, no Rio de Janeiro, quanto o Pacto pela Vida, em Pernambuco, afirmam ter reduzido o crime e levado mais segurança às áreas socialmente excluídas. Embora as iniciativas tenham sido bem recebidas por alguns setores da sociedade, por oferecerem uma alternativa aos métodos de policiamento repressivos e abusivos de antes, alguns moradores das áreas em que os projetos foram implementados reclamaram de discriminação. Fora do escopo dos projetos, as forças policiais continuaram a cometer violações extensivas.

As autoridades continuaram a descrever as mortes cometidas por policiais como “autos de resistência”, em contrariedade às recomendações do relator especial da ONU sobre execuções sumárias, arbitrárias ou extrajudiciais, e em contrariedade ao III Plano Nacional de Direitos Humanos. Centenas de homicídios não foram devidamente investigados e houve poucas ações judiciais, se é que houve alguma. Um estudo do Instituto de Segurança Pública, ligado à Secretaria de Segurança Pública do

Rio de Janeiro, constatou que, entre janeiro de 1998 e setembro de 2009, 10.216 pessoas foram mortas no estado em incidentes registrados como “atos de resistência”. No estado do Rio de Janeiro, a polícia matou 1.048 pessoas em supostos “atos de resistência” durante 2009. No estado de São Paulo, o número correspondente foi de 543, um aumento de 36 por cento com relação ao ano de 2008, sendo que as mortes cometidas por policiais militares tiveram um aumento de 41 por cento.

Em São Paulo, o governo estadual continuou aplicando nas favelas as “operações Saturação”. Essas operações envolviam a ocupação das comunidades, no estilo militar, por um período de 90 dias, após os quais a polícia se retirava. Membros da comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, denunciaram casos de tortura, de uso excessivo da força, de intimidações, de revistas arbitrárias e abusivas, de extorsão e de roubo por parte dos policiais durante uma “operação Saturação” realizada em fevereiro.

Em outubro, no Rio de Janeiro, três policiais foram mortos quando um helicóptero da polícia foi atingido por tiros em meio a um conflito entre facções do tráfico rivais. Integrantes das facções começaram a incendiar ônibus e a tirar os moradores de suas casas. Eles tentavam desviar a atenção da polícia do ataque que faziam a uma comunidade rival, durante o qual o helicóptero foi derrubado. A polícia montou uma série de operações que foram descritas por um oficial graduado como represálias. Durante essas operações, mais de 40 pessoas foram mortas. Entre elas, estava uma mulher de 24 anos, atingida por uma bala perdida enquanto segurava no colo seu bebê de 11 meses, e um adolescente de 15 anos que, ao colocar o lixo para fora de casa, foi atingido por um tiro que teria partido da polícia.

Moradores das favelas de Acari e da Maré, no Rio de Janeiro, relataram que as operações policiais violentas coincidiam regularmente com a saída das crianças da escola, o que colocava os alunos em perigo e forçava as escolas a fecharem. Casos de torturas, de intimidações, de buscas ilegais e arbitrárias, de extorsão e de roubo também foram registrados. Há ainda informações de que, na Maré, a polícia alugou um veículo blindado militar, conhecido como ‘caveirão’, para traficantes envolvidos em uma disputa por território.

Milícias  
A disseminação das milícias – grupos armados parapoliciais formados, na maior parte, por policiais fora de serviço – foi tamanha que um estudo acadêmico afirmou que, no Rio de Janeiro, elas controlavam mais favelas do que as facções do tráfico.

Aproveitando-se de seu poder sobre as comunidades para obter vantagens econômicas e políticas ilícitas, as milícias ameaçavam a vida de milhares de moradores, assim como as próprias instituições do Estado. Juízes, promotores, policiais e um deputado estadual receberam repetidas ameaças de morte das milícias. As autoridades estaduais prepararam uma série de operações para combater as atividades desses grupos, resultando em diversas prisões. No entanto, o presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre as milícias continuou criticando o fato de as autoridades municipais e federais não terem implementado as recomendações do inquérito para combater o surgimento desses grupos.

Tortura e condições prisionais
 
Os detentos continuaram sendo mantidos em condições cruéis, desumanas ou degradantes. A tortura era utilizada regularmente como método de interrogatório, de punição, de controle, de humilhação e de extorsão. A superlotação continuou sendo um problema grave. O controle dos centros de detenção por gangues fez com que o grau de violência entre os prisioneiros aumentasse.

A falta de supervisão independente e os altos níveis de corrupção contribuíram para perpetuar os problemas endêmicos de violência no sistema prisional, bem como no sistema de detenção juvenil.

Os mecanismos para a implementação do Protocolo Facultativo à Convenção da ONU contra a Tortura ainda não haviam sido instituídos no final do ano. Os relatos das condições de detenção mais brutais continuaram a vir do estado do Espírito Santo. Houve denúncias de tortura, assim como de superlotação extrema e de utilização de contêineres de navios (chamados de ‘microondas’) como celas. Houve relatos de prisioneiros que esquartejaram outros prisioneiros.

Após intensa pressão de grupos de direitos humanos locais e dos conselhos nacional e estadual de direitos humanos, alguns projetos de construção foram iniciados. Em março, uma proibição ilegal a visitas de monitoramento do sistema prisional foi, finalmente, suspensa.

Em dezembro, após surgirem provas de tortura e de tentativa de homicídio no presídio Urso Branco, em Rondônia, a Corte Interamericana de Direitos Humanos emitiu uma nova resolução – a sétima desde 2002 – requerendo que o governo brasileiro garanta a segurança dos prisioneiros mantidos naquele local. Em outubro de 2008, o Ministério Público fez um pedido de intervenção federal no presídio, o qual, no final de 2009, ainda não havia sido julgado pelo Supremo Tribunal Federal.

Disputas por terra
Os conflitos por terras continuaram a provocar violações de direitos humanos, cometidas tanto por policiais quanto por pistoleiros contratados por fazendeiros. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre janeiro e meados de novembro de 2009, 20 pessoas foram assassinadas em conflitos fundiários no Brasil.
  • No Rio Grande do Sul, em agosto, o trabalhador sem-terra Elton Brum da Silva foi morto a tiros pela Brigada Militar, durante uma expulsão da fazenda Southal, no Município de São Gabriel. Após a expulsão, ONGs locais acusaram a polícia de praticar tortura, inclusive espancamento com cassetetes, chutes, socos e uso de armas Taser.
  • Em agosto, 50 policiais militares expulsaram um grupo de trabalhadores sem terras da fazenda Pôr-do-Sol, no Maranhão, espancando diversos líderes sem terra e ameaçando utros verbalmente. Eles atearam fogo às casas e destruíram pertences pessoais, inclusive documentos.
  • Em outubro, 20 homens armados e encapuzados, que estariam sendo liderados por um fazendeiro local, atacaram um acampamento de 20 famílias no município de São Mateus, no Maranhão. Depois do ataque, os pistoleiros continuaram ameaçando matar quaisquer famílias acampadas na área.

Direitos dos trabalhadores
 
Os direitos dos trabalhadores continuaram a ser violados, principalmente no setor agrícola. Constatou-se que milhares de trabalhadores eram mantidos em condições consideradas pela legislação nacional como análogas à escravidão, apesar dos grandes esforços para combater essa prática. 
  • Em novembro, em uma decisão extremamente significativa, um juiz federal do estado do Pará sentenciou 27 pessoas a penas de prisão que variavam de três anos e quatro meses a 10 anos e seis meses por utilizarem trabalho escravo. Os indiciamentos ocorreram após os relatórios publicados, entre 1999 e 2008, por promotores do trabalho responsáveis por monitorar a implementação da legislação trabalhista.
  • Em junho, o governo apresentou o Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana de Açúcar (um acordo de adesão voluntária entre o governo, a indústria e os sindicatos para o cumprimento de normas mínimas). O compromisso foi apresentado em razão das persistentes críticas sobre violações dos direitos dos trabalhadores da indústria da cana.

Direito à moradia adequada
 
Grupos de sem-teto urbanos foram submetidos a ameaças, a agressões e ao uso de força excessiva pela polícia. Em São Paulo, uma série de despejos forçados sugeria que uma política de limpeza de áreas de favelas, para dar lugar a projetos imobiliários, estava sendo levada adiante sem considerar os direitos de quem ficasse desabrigado em consequência disso.
  • No dia 18 de junho, a polícia de choque de São Paulo investiu contra um grupo de 200 famílias que viviam à beira de uma estrada por terem sido despejadas, no dia 16 de junho, de um edifício público abandonado. A polícia usou spray de pimenta, gás lacrimogêneo e cassetetes contra os moradores, que montaram barreiras incendiárias na estrada. Segundo o Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC) de São Paulo, cinco sem-teto ficaram feridos, entre eles uma criança.
  • Em agosto, a polícia de choque usou balas de borracha, gás lacrimogêneo e helicópteros durante os despejos na comunidade Olga Benário, no distrito de Capão Redondo, zona sul de São Paulo.
  • Aproximadamente 500 famílias foram deixadas sem teto em condições extremamente precárias. Em dezembro, após a realização de protestos nacionais e internacionais, as autoridades estaduais de São Paulo concordaram em desapropriar a área para construção de habitações de interesse social.

Programa de Aceleração do Crescimento  
O governo e alguns analistas econômicos consideravam que a estabilidade econômica do país se devesse ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Entretanto, houve denúncias de que alguns dos projetos ameaçavam os direitos humanos de comunidades locais e de povos indígenas. Tais projetos, que incluíam a construção de represas, de estradas e de portos, às vezes eram acompanhados por expulsões forçadas e pela perda de meios de subsistência, além de ameaças e de ataques a manifestantes e a defensores dos direitos humanos.
  • Em agosto, os líderes comunitários padre Orlando Gonçalves Barbosa, Isaque Dantas de Souza e Pedro Hamilton Prado receberam uma série de ameaças de morte. Os três estavam sendo vigiados por indivíduos não identificados. Homens armados invadiram a residência do padre Barbosa. Esses fatos aconteceram depois que eles iniciaram uma campanha para suspender a construção de um porto na área do Encontro das Águas, em Manaus, no Amazonas, uma área ecologicamente sensível e que abriga comunidades de pescadores. O desenvolvimento do porto estava sendo financiado pelo PAC. No dia 2 de setembro, o padre Barbosa foi forçado a deixar Manaus para sua própria segurança.

Direitos dos povos indígenas  
Em março, o Supremo Tribunal Federal rejeitou uma contestação à legalidade da reserva de Raposa Serra do Sol, no estado de Roraima. A decisão foi considerada uma vitória para o movimento indígena; porém, também continha diversas condições que enfraquecem reivindicações futuras. O Mato Grosso do Sul continuou a ser um foco de abusos graves contra os direitos humanos dos povos indígenas no Brasil. O governo estadual e o poderoso lobby dos produtores rurais fizeram uso dos tribunais para impedir a identificação de terras indígenas.

Comunidades Guarani-Kaiowá foram atacadas por pistoleiros e por seguranças contratados por fazendeiros locais. ONGs locais requisitaram intervenção federal para garantir a segurança dos povos indígenas e a demarcação de suas terras.
  • Em outubro, índios do povo Guarani-Kaiowá do acampamento Apyka’y, que haviam sido expulsos de suas terras tradicionais em abril e que estavam vivendo em condições extremamente precárias à beira de uma rodovia, próximo a Dourados, no Mato Grosso do Sul, foram atacados no meio da noite por seguranças armados empregados de proprietários de terras locais. Suas casas foram incendiadas e um homem levou um tiro na perna.
  • Em novembro, dois professores indígenas, Genivaldo Vera e Rolindo Vera, não foram mais vistos depois que a comunidade Guarani-Kaiowá da aldeia Pirajuí, no Mato Grosso do Sul, foi expulsa à força de suas terras ancestrais, no dia 30 de outubro, por um grupo de homens armados. Posteriormente, o corpo de Genivaldo Vera foi encontrado em um córrego, com ferimentos compatíveis com tortura. Rolindo Vera continuou desaparecido e, no final do ano, temia-se que estivesse morto. 
  • Em dezembro, o Presidente Lula decretou a homologação de nove áreas indígenas nos estados de Roraima, Amazonas, Pará e Mato Grosso do Sul. Uma semana após o anúncio, o Supremo Tribunal Federal aceitou um recurso, interposto por fazendeiros locais, que suspendia o decreto presidencial referente à reserva Guarani-Kaiowá de Arroio-Korá, no Mato Grosso o Sul. A decisão do STF fundamentou-se, em parte, nos comentários vinculados à decisão sobre Raposa Serra do Sol, a qual requer que as reivindicações por terras estejam baseadas na ocupação da terra em 1988, quando a Constituição foi promulgada.

Defensores dos direitos humanos 
O programa para os defensores dos direitos humanos foi introduzido em mais dois estados e, no fim de 2009, funcionava em um total de cinco estados. Em muitos casos, porém, não se prestou proteção efetiva, e os defensores continuaram correndo grande perigo devido à falta de vontade política para confrontar violações sistemáticas dos direitos humanos. 
  • Em janeiro, Manoel Mattos, vice-presidente do Partido dos Trabalhadores de Pernambuco e membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB local, foi assassinado por dois homens encapuzados que invadiram sua casa e atiraram contra ele à queima-roupa. Havia tempo, ele fazia campanhas contra a disseminação dos esquadrões da morte e contra a violência policial. Apesar das repetidas ameaças de morte contra ele, no final de 2007 a Polícia Federal retirou a proteção que Manoel vinha recebendo.
Visitas de Anistia Internacional 
Representantes da Anistia Internacional visitaram o Brasil em maio e em dezembro de 2009

Nota do Blog
Leia também a reportagem de Vitor Abdala da Agência Brasil a respeito do relatório da Anisitia Internacional Anistia Internacional denuncia violações de direitos humanos no Brasil

… leia na íntegra e comente


26 maio 2010

Em defesa da preservação ambiental

Os parlamentares da comissão especial que discute alterações no Código Florestal devem votar, no começo do mês de junho, o relatório final de mudanças na legislação. Denunciamos que o relatório deve atender apenas aos interesses dos ruralistas, pela ausência de um debate amplo sobre o tema. Eles pretendem consolidar o desmatamento que já promoveram no Cerrado, Mata Atlântica, Pampas e Caatinga e avançar na destruição da Amazônia.

O Código Florestal é uma barreira ao avanço do agronegócio, porque impõe limites à devastação ambiental na atividade agrícola, com a aplicação da Reserva Legal (RL) e das Áreas de Preservação Permanente (APP). A reserva legal é de 80%, na Amazônia; 35%, no Cerrado e 20% nas outras propriedades.

Os impactos da destruição do meio ambiente são sentidos em toda parte, não apenas nas regiões diretamente destruídas. Exemplo recente é a morte de mais de 200 trabalhadores e trabalhadoras das regiões mais pobres do Rio de Janeiro, devidos às fortes chuvas que assolaram o estado no começo de abril. As principais vítimas foram famílias que vivem em morros, pela falta de um programa habitacional que atenda às necessidades do conjunto da população. As consequências dos desequilíbrios ambientais recaem principalmente sobre os mais pobres.

O desequilíbrio climático e os desastres naturais têm raízes na forma de organização da produção na sociedade, sob hegemonia das grandes empresas transnacionais e do capital financeiro. Essas atividades não estão em sintonia com a natureza e debilitam os ecossistemas, para garantir uma maior acumulação do capital.

A flexibilização da legislação ambiental, defendida pela bancada ruralista, é de interesse do agronegócio, das empresas transnacionais da agricultura e do capital financeiro. O Código Florestal Brasileiro foi criado em 1934 como forma de colocar regras na expansão da economia agrícola para as áreas de florestas, que era estimulado pelo governo de Getúlio Vargas. Em 1965, o Código foi reformado pelo governo militar para colocar limites ao desmatamento que seria causado com a implementação de seu programa de colonização da Amazônia.

Em 2001, por meio de Medida Provisória, o governo FHC fez a última grande reforma no Código, permitindo a implantação de grandes obras de interesse do capital. No entanto, permaneceram as exigências em termos de áreas e percentuais em relação a Áreas de Preservação Permanente e a Reserva Legal. Aí estão os instrumentos legais que o agronegócio quer eliminar do seu horizonte.

O Código preserva também as áreas ao longo dos rios ou de qualquer curso d’água; ao redor de lagoas, lagos ou reservatório d´água naturais ou artificiais; no topo de morros, montes, montanhas e serras e em atitude superior a 1.800 metros, qualquer que seja a vegetação.

O Código Florestal se manteve vivo até agora por conta da luta dos brasileiros que defendem o meio ambiente e a natureza, que é um bem estratégico do povo. Mesmo assim, embora esteja na lei, nunca foi respeitado pelos governos nem pelo agronegócio. Até agora, o setor ruralista age da seguinte forma: ignora as determinações do Código Florestal para derrubar as florestas; quando são pegos com a motosserra na mão, culpam a rigidez da legislação em vigor e, por fim, mobilizam seus parlamentares para derrubar esses “obstáculos”.

A Via Campesina definiu propostas para um profundo programa ambiental para o campo brasileiro. Antes de qualquer medida, defendemos a manutenção do Código Florestal, que deve ser cumprido de forma a implementar uma agricultura camponesa sustentável. Fazemos parte da campanha pelo “Desmatamento Zero” para interromper a devastação florestal imediatamente. Para as áreas de Reforma Agrária, propomos aos governos um programa amplo para reflorestamento com árvores nativas, a construção de agroflorestas e um programa de Educação Ambiental.

Os interesses dos ruralistas para passar seus tratores sobre as florestas e criação CPMI contra a Reforma Agrária são dois lados da mesma moeda. Enquanto trabalham duro na flexibilização da legislação ambiental, para expandir imediatamente o capital sobre o nosso território, mantêm um instrumento político eficiente para fazer a luta ideológica contra os movimentos sociais, paralisar a Reforma Agrária e impedir qualquer resistência ao seu projeto para a agricultura brasileira.

Estamos nos articulando com outros movimentos sociais e ambientalistas para impedir que mais essa manobra contra o meio ambiente seja aprovada pelos setores conservadores. Defendemos a integração entre as florestas e a produção de alimentos saudáveis para a população do país.

Secretaria Nacional do MST

fonte : MST  e  Coletivo Revolutas

Nota do Blog
O PSOL, atravé do Deputado Ivan Valente (PSOLSP) apresentará um relatório paralelo contemplando posicionamentos contrários ao parecer do relator Aldo Rebelo (PCdoB) => leia aqui

… leia na íntegra e comente


Bicudo: "Luta contra a tortura prossegue na OEA"

Foto: Estúdio Granada
Entrevista a Ana Helena Tavares* para o site "Outras Palavras" (do Le Monde Diplomatique Brasil)

Mais do que um dos maiores juristas do Brasil, Hélio Pereira Bicudo é uma lenda viva na luta pelos direitos humanos. Nos anos 1970, auge da repressão política, ele denunciou, como procurador de Justiça, o “Esquadrão da Morte” — enfrentando, entre outros, o temido delegado Sérgio Paranhos Fleury. Aos 87 anos, ele publica com frequência, em seu blog, breves ensaios em que aborda não apenas liberdades civis, mas temas como o direito à água, os aspectos jurídicos relacionados ao tráfico de órgãos e a luta contra a desumanidade nas prisões brasileiras. Também enriquece o twitter.

“No momento em que estamos conversando, com certeza em algum lugar do Brasil está sendo praticada a tortura”, lembrou Bicudo nesta entrevista exclusiva sobre a recente decisão do STF de manter impunes os torturadores da ditadura. Para ele, trata-se de uma decisão absolutamente equivocada, que estimula a continuidade das sevícias contra prisioneiros comuns e pode abrir caminho, em outras condições, para a própria volta da tortura contra adversários políticos.


A Lei de Anistia precisa ser revisada?

É, muito mais, uma questão de mudança da interpretação. O texto da Lei de Anistia, não permite que os torturadores fiquem impunes, muito pelo contrário. Não acho que haja necessidade de modificar o texto. Basta aplicá-lo como ele é, segundo uma interpretação jurídica e não ideológica.

Alguns dos que votaram pela impunidade no STF– incluindo o relator, ministro Eros Grau, que foi torturado na ditadura – referiram-se à ação dos torturadores como “crimes conexos”. A Lei de Anistia impediria puni-los. Como o senhor interpreta isso?

É lamentável que um juiz da Suprema Corte não saiba o que são realmente delitos conexos. Quando a lei usa um termo técnico, como é no caso – “crime conexo” é um termo técnico em direito penal –, é preciso saber qual sua definição. Os “crimes conexos” são aqueles cujas finalidades são as mesmas do ato principal praticado. Por exemplo, um ladrão entra na sua casa, rouba, e, para evitar que existam provas, incendeia a casa. São dois crimes conexos: o roubo e o incêndio da casa. Há uma identidade de fins: a finalidade era roubar e não ser punido.

Mas se o ladrão entra na casa, rouba, é preso e depois morto pela polícia, não há nenhuma ligação entre um fato e outro, do ponto de vista das suas finalidades. Num, o ladrão queria roubar. No outro, o policial mata o ladrão. Então, você não pode dizer que há conexidade nestes dois casos, pois as finalidades de um e de outro crime são diferentes. É como nesse caso da Anistia. Os opositores do regime cometeram crimes que a lei diz que, depois de algum tempo, não podem ser punidos. Mas se trata de crimes praticados contra o Estado repressor. Ideologicamente, eles não têm nada a ver com os crimes praticados pelos agentes do Estado.

Pode-se dizer, então, que a diferença básica é a finalidade?

Exatamente. A finalidade dos crimes praticados pelas pessoas que eram contrárias ao regime era política. Os crimes praticados pelos agentes do Estado não têm finalidade política. São crimes contra a humanidade e, por esse motivo, imprescritíveis. Quando a Lei de Anistia fala em “crimes conexos”, você não pode interpretar a conexidade senão de um lado e de outro. Quer dizer, você pode ter pessoas que cometeram crimes contra o Estado conexos entre si, mas você não pode ligar estes crimes aos cometidos pelos agentes do Estado para beneficiar a si próprios. Ou seja, os agentes do Estado agem por outra finalidade. No caso, para manter a ditadura.

Alguns juristas e políticos alegam que uma revisão da Lei de Anistia poderia abalar a estabilidade democrática do país, baseada num “pacto de conciliação”. Quebrá-lo seria “revanchismo”. Na sua opinião, esse “ pacto” encontra algum respaldo jurídico e social?

Não houve pacto algum. É um absurdo falar em “conciliação” quando os militares detinham o poder Executivo e o comando do Legislativo. Havia dois partidos, Arena e MDB – o primeiro, o povo chamava de “o partido do sim”, o segundo de “o partido do sim senhor”. Quer dizer, num contexto como esse, você não pode encontrar consenso da sociedade civil com relação à lei que foi promulgada.

O artigo 5º da Constituição reza, em seu inciso XXXVI, que “a lei não prejudicará o direito adquirido”. Já vi juristas usarem este argumento como forma de defender a inconstitucionalidade de uma revisão da Lei de Anistia. Argumentam que a lei não pode retroagir em prejuízo do acusado. Isso é aplicável ao caso?

Não é aplicável, porque existem tratados internacionais, dos quais o Brasil é signatário, que dizem que os crimes contra a humanidade são imprescritíveis. Veja bem: não são crimes que se esgotam naquele momento. O homicídio se esgota, mas outros crimes não, como, por exemplo, o sequestro. Você tem pessoas que despareceram e até hoje não se sabe seu paradeiro. Podem ter sido mortas, mas você precisa provar que elas foram mortas para desaparecer o crime de sequestro. É um crime continuado: persiste no tempo. Foi praticado ontem, continua existindo hoje e continuará amanhã. Não existe prescritibilidade desses crimes.

Alguns juristas alegam que, por a Lei de Anistia ser questão exclusivamente brasileira, ocorrida em território nacional, a competência da Suprema Corte é absoluta e a das cortes internacionais, nenhuma. Qual sua posição?

Em 1998, o Brasil reconheceu a jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Ela não tem o poder de revogar a decisão do STF. Mas, desde o momento em que o Brasil reconheceu a jurisdição, tem que se submeter à Corte. Porque reconheceu de boa fé, não foi obrigado a isso. Esse reconhecimento vale para todos os crimes que forem a julgamento pela Corte Interamericana e forem imputados ao Brasil. Acho que a Corte Interamericana, de acordo com a sua jurisprudência e conforme já julgou com relação a outros Estados, mostrará que não existe auto-anistia.

Porque o que se busca hoje no Brasil é o reconhecimento da auto-anistia. Um governo que cometeu crimes pode anistiar a si próprio? Isso não existe! Anistia existe para proteger pessoas que num dado momento, por motivos políticos, cometeram crimes. Para pacificar a sociedade, você considera este crimes inexistentes. Mas não os crimes praticados pelo Estado. Isso já se constituiu numa jurisprudência pacífica da Corte Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos. Não tenho dúvida nenhuma de que a corte vai condenar o Estado brasileiro. Não pela manutenção de uma lei — mas pela interpretação errada dada a ela pela justiça brasileira, que vem acudindo os torturadores e aqueles que, a serviço do Estado, eliminaram pessoas durante o período da ditadura militar.

Caso a Corte Interamericana condene o Brasil, quais são os caminhos legais para que a interpretação atual dada à lei de Anistia seja revertida?

Quem pode mudar uma decisão do STF? Só o próprio STF. No caso de uma condenação pela Corte Interamericana, penso que o Ministério Público Federal terá que atuar, fazendo com que esse processo surta efeito no Brasil. A corte não aplica sanções. Caso o Brasil não cumpra uma decisão, ela relata esse fato à Assembléia Geral dos Estados Americanos. Esta, sim, pode punir os países-membros com sanções. Ou pode não punir, porque a OEA é um órgão eminentemente político. De qualquer maneira, acho que a situação do Brasil no que diz respeito aos direitos humanos na área internacional vai ficar muito ruim. Como é que fica o STF? Está agindo contra os direitos humanos e isso poderá ter consequências futuras.

Há algum caso precedente em que o STF reviu uma decisão adotada por si próprio?

Nunca aconteceu. O STF nunca reverteu uma decisão; mas também nunca teve, contra si, ação numa corte internacional. Possivelmente, o precedente terá de ser criado agora.

A eventual manutenção do entendimento do STF poderia contribuir para tornar a tortura prática corriqueira no Brasil?

Acho que sim. No momento em que estamos conversando, com certeza a tortura está sendo praticada em algum lugar do Brasil. Temos lei específica contra a tortura, adotada na década de 1990 mas até hoje na gaveta. A punição dos torturadores da ditadura seria muito positiva para enfrentar esta prática.

Mas ela é importante também por motivos políticos. Uma sociedade que se diz contra a tortura, mas não pune quem a pratica, está se expondo a riscos. Se, num momento político qualquer, houver restrições à democracia – ou distorções, como as que estão presentes em alguns países da América Latina – haverá mais possibilidades de a tortura contra adversários políticos também voltar, porque criou-se a cultura de impunidade.

Observadas as diferenças contextuais, o senhor, conhecido como o homem que revelou e denunciou o “Esquadrão da Morte”, acha que as polícias militares estão preparadas para exercer o policiamento ostensivo?

Não estão. Elas são absolutamente repressivas. Isso vem da própria constituição das corporações, que não são civis. Estão presas, em seu planejamento, às determinações do exército. Agem na rua como se estivessem numa guerra. O indivíduo é um marginal e o marginal tem que ser morto. É a lei da eliminação. É o que está acontecendo em São Paulo, por exemplo, com o aumento de homicídios pela PM de cerca de 40%, com relação ao ano passado.

Há cerca de uma ou duas semanas, neste Estado, um civil foi morto por policiais militares dentro de um quartel. Simplesmente levaram o rapaz lá para dentro e mataram. Um outro foi morto a pancadas na frente de sua casa e diante da mãe. Foi em dias diferentes. Eram dois motoboys, que não estavam armados; dois trabalhadores que foram mortos. Agora vamos ver se as pessoas serão processadas e punidas de acordo com a lei. Tenho minhas dúvidas…

Como enfrentar esta truculência policial?

Enquanto não se transformar a polícia num organismo civil, com carreira única e com profissionalismo policial, teremos o que está acontecendo hoje em São Paulo e no Brasil. Essa truculência é herança da ditadura.

Quer dizer, ainda há no Brasil figuras que se assemelham ao delegado Fleury?

Há sim. Basta observar que há, nos grupos de extermínio, muitos policiais militares.

*Ana Helena Tavares é jornalista por paixão, escritora e poeta eternamente aprendiz.

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Elis em dois momentos

Upa Neguinho - Composição de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri interpretada por Elis Regina no programa MPB Especial, de 1973, direção de Fernando Faro







Arrastao - I Festival de Música da TV Excelsior








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Frei Tito, foi bonita a homenagem na Alerj

Foi concedida em 25/05 na Assembleia Legislativa do Rio a Medalha Pedro Ernesto, maior honraria do Estado, in post morten a Frei Tito de Alencar, frade dominicano que se suicidou  em seu exílio, na França, há 36 anos, abalado e destruído psicologicamente em consequencia  das torturas praticadas por Fleury e pelo capitão Albernaz, nos porões do Doi Codi, durante a ditadura militar. 

Frei Tito havia sido preso, junto com outros dominicanos, devido sua ligação com a ALN de Marighella e seu martírio durou até o sequestro do embaixador suíço, quando foi incluído na lista dos presos políticos  a serem libertados. Foi exibido durante a seção parte de um documentário, gravado no Chile, em que Frei Tito relata todos os abusos sofridos. 

Emocionantes os depoimentos de Cecília Coimbra, presidente do Grupo Tortura nunca mais RJ e de Frei Beto e Frei Oswaldo, dominicanos como ele e também atuantes nas resistência à ditadura. Além deles também participaram da mesa o Deputado Federal Chico Alencar (PSOL), o presidente da OAB RJ Wadih Damous e Marina dos Santos Coordenadora do MST. Ausência sentida do Ministro Vannuchi.

A homenagem foi uma iniciativa do Deputado estadual Marcelo Freixo do PSOL , que presidiu a seção, e como era de se esperar a notícia foi "olimpicamente" desprezada pela mídia local.

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25 maio 2010

Campanha sob escolta

Deputado atuante na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo (PSOL) presidiu a CPI que investigou a atividade das milícias em comunidades do Rio, principalmente na Zona Oeste e desbaratou o esquema fraudulento do auxílio-educação, praticado por alguns deputados.

Marcelo também se destacou durante seu mandato na defesa dos direitos humanos, da cultura e das causas sociais. 

É canditato a reeleição mas está praticamente impedido de se deslocar pelo Estado, sem escolta policial, devido as constantes ameaças que vem sofrendo.

Leia a  materia da revista Isto É, publicada no blog do Fábio Pereira Campanha sob escolta

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Espetáculo obsceno

por Leo Lince. 

O tempo passa, o tempo voa, a bolsa sobe e desce, a crise finge sumir e reaparece, mas a lucratividade dos banqueiros continua numa boa. Na alta ou na baixa, no sujo ou no limpo e até no mal lavado, eles ganham sempre. Mandam e desmandam nos governos, regulam os que deviam regulá-los, seguem soberanos na fortaleza inexpugnável da tirania financeira que avassala o mundo.

Em todo e qualquer lugar, seja no Império Americano hipotecado, na tragédia grega ou nos pólos avançados da velha Europa, os protocolos da supremacia absoluta do capital financeiro continuam a girar as roletas do cassino. Por toda a parte, com a voracidade das matilhas, eles atacam sem dó nem piedade.

Aqui no Brasil, então, nem se fala. A cada trimestre os balancetes dos bancos registram recordes cuja superação parecia impossível. A regra, que se repete de maneira cronometrada, foi confirmada na safra atual. O lucro líquido declarado pelos maiores bancos privados brasileiros nos três primeiros meses deste ano alcançou um padrão estratosférico. Nunca, em tempo algum, o Itaú, o Bradesco e Santander ganharam tanto dinheiro.

Para evitar a sensaboria dos números, vamos nos limitar ao caso do Itaú Unibanco. É, por enquanto, o maior banco privado e declarou, para o trimestre, um lucro liquido de R$ 3,23 bilhões. Um aumento brutal, de cerca de 60%, em relação ao mesmo período do ano passado. Lucratividade espantosa: é o maior valor já registrado para um trimestre ao longo de toda a história do setor.

Uma conta simples, dando de lambuja os domingos e feriados, define o montante do lucro líquido diário: R$ 35,9 milhões. Logo, para efeito de comparação, um trabalhador de salário mínimo levaria quase seis séculos para amealhar uma quantia semelhante. Como Brasil foi “descoberto” em 1500, para equiparar ao que o Itaú lucra num dia, o nosso trabalhador hipotético teria que ter começado sua poupança na era pré-colombiana.

Uma disparidade absurda. Um retrato cruel do abismo que separa as classes sociais no Brasil de hoje. Não há ou, melhor dizendo, não deveria haver qualquer possibilidade de convívio sereno entre a consciência digna da cidadania e semelhante absurdo. No entanto, no torpor gerado pela morfina-dinheiro, o absurdo é tratado como parte integrante da paisagem. Natural como a explosão de um vulcão.

A roleta financeira que gira sem freios é a imagem mais precisa do horror econômico que nos governa. A propriedade que tem o dinheiro - de existir como valor separado de qualquer substância - está na base desta vertigem da pecúnia sem limites. A violenta concentração de poder materializado no dinheiro, hermafrodita que se reproduz na relação consigo mesmo (D-D’), explica muita coisa. A dívida pública, um Himalaia de juros sobre juros. A prevalência do financiamento privado de campanhas eleitorais cada vez mais caras. O tal superávit primário, que sacrifica direitos sociais e sucateia serviços públicos essenciais para garantir o pagamento religioso dos juros.

Montaigne, no célebre ensaio “Dos Canibais”, relata a presença de índios trazidos do “Novo Mundo” recém descoberto para visitar a reluzente corte francesa. Ao invés de se embasbacarem com tanto luxo e riqueza, eles se espantaram foi com a desigualdade. Para eles, a brutal disparidade entre o palácio e as ruas não era natural. O sentimento igualitário do passado imemorial há de retornar no futuro utópico. Por enquanto, quando os bancos publicarem balancetes, por favor, tirem as crianças da sala para evitar o espetáculo obsceno. 


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Plínio, uma história de primeira

por Chico Alencar (PSOL RJ) 

Veja o vídeo com um resumo da biografia de Plínio, realizado por estudantes da Universidade de Brasília (UnB), da entidade Brasil e Desenvolvimento (B&D).








Em pesquisas realizadas pela internet, o pré-candidato do PSOL tem tido excelente aprovação. No levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), aparece em primeiro lugar, com 54,5%. 
Na pesquisa realizada pelo Twiticos, perfil no twitter de provocação ao debate político, Plínio tem 17%. Em levantamentos oficiais, dos institutos, nem sempre é citado...


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24 maio 2010

Miséria é o principal "produto" do capitalismo

por Atilio A. Boron*
O capitalismo tem legiões de defensores. Muitos o fazem de boa vontade, produto de sua ignorância e pelo fato de que, como dizia Marx, o sistema é opaco e sua natureza exploradora e predatória não é evidente ante os olhos de homens e mulheres. Outros o defendem porque são seus grandes beneficiários e amassam enormes fortunas, graças às suas injustiças e iniquidades.

Além do mais há outros ("gurus" financeiros, "opinólogos", jornalistas "especializados", acadêmicos "pensadores" e os diversos expoentes do "pensamento único") que conhecem perfeitamente bem os custos sociais que, em termos de degradação humana e do meio-ambiente, o sistema impõe.

No entanto, são muito bem pagos para enganar as pessoas e prosseguem com seu trabalho de forma incansável. Eles sabem muito bem, aprenderam muito bem, que a "batalha de ideias", à qual Fidel Castro nos convocou, é absolutamente estratégica para a preservação do sistema, e não retrocedem em seu empenho.

Para resistir à proliferação de versões idílicas acerca do capitalismo e de sua capacidade para promover o bem-estar geral, examinemos alguns dados obtidos de documentos oficiais do sistema pelas Nações Unidas.

Isso é sumamente didático quando se escuta, principalmente no contexto da crise atual, que a solução aos problemas do capitalismo se obtém com mais capitalismo; o que o G-20, o FMI, a OMC e o Banco Mundial, arrependidos de seus erros passados, vão poder resolver os problemas que provocam agonia à humanidade. Todas essas instituições são incorrigíveis e irreformáveis, e qualquer esperança de mudança não é nada mais que uma ilusão. Seguem propondo o mesmo, só que com um discurso diferente e uma estratégia de "Relações Públicas", desenhada para ocultar suas verdadeiras intenções. Quem tiver dúvidas que olhe o que está propondo para "solucionar" a crise na Grécia: as mesmas receitas que aplicaram e que seguem aplicando na América Latina e na África desde os anos 1980!

A seguir, alguns dados (com suas respectivas fontes) recentemente sistematizados pelo Programa Internacional de Estudos Comparativos sobre a Pobreza (CROP, na sigla em inglês), da Universidade de Bergen, na Noruega. O CROP está fazendo um grande esforço para, a partir de uma perspectiva crítica, combater o discurso oficial sobre a pobreza elaborado há mais de trinta anos pelo Banco Mundial e reproduzido incansavelmente pelos grandes meios de comunicação, autoridades governamentais, acadêmicos e vários "especialistas".

População mundial: 6,8 bilhões, dos quais:
  • 1,02 bilhão têm desnutrição crônica (FAO, 2009) 
  • 2 bilhões não têm acesso a medicamentos (www.fic.nih.gov
  • 884 milhões não têm acesso a água potável (OMS/UNICEF 2008) 
  • 924 milhões de "sem teto" ou que vivem em moradias precárias (UN Habitat 2003) 
  • 1, 6 bilhão não tem eletricidade (UN Habitat, “Urban Energy”) 
  • 2,5 bilhões não tem acesso a saneamento básico e esgotos (OMS/UNICEF 2008) 
  • 774 milhões de adultos são analfabetos (www.uis.unesco.org
  • 18 milhões de mortes por ano devido à pobreza, a maioria delas de crianças com menos de 5 anos (OMS)
  • 218 milhões de crianças, entre 5 e 17 anos, trabalham em condições de escravidão ou em tarefas perigosas ou humilhantes, como soldados, prostitutas, serventes na agricultura, na construção civil ou na indústria têxtil (OIT: A Eliminação do Trabalho Infantil: Um Objetivo a Nosso Alcance, 2006) 

Entre 1988 e 2002, os 25% mais pobres da população mundial reduziram sua participação na riqueza global de 1,16% para 0,92%, enquanto que os 10% mais ricos acrescentaram mais riquezas, passando de 64,7 para 71,1% da riqueza produzida mundialmente. O enriquecimento de poucos tem como reverso o empobrecimento de muitos. 

Só esse 6,4 % de aumento da riqueza dos mais ricos seria suficiente para duplicar a renda de 70% da população da Terra, salvando inumeráveis vidas e reduzindo as penúrias e sofrimentos dos mais pobres. Entenda-se bem: tal coisa seria obtida se tão só fosse redistribuído o enriquecimento adicional produzido entre 1988 e 2002, dos 10% dos mais ricos do planeta, deixando intactas suas exorbitantes fortunas. Mas nem sequer algo tão elementar como isso é aceitável para as classes dominantes do capitalismo mundial.

Conclusão: Se não se combate a pobreza (nem fale de erradicá-la sob o capitalismo!) é porque o sistema obedece a uma lógica implacável, centrada na obtenção do lucro, o que concentra a riqueza e aumenta incessantemente a pobreza e a desigualdade econômico-social.

Depois de cinco séculos de existência, isto é o que o capitalismo tem para oferecer. Que esperamos para mudar o sistema? Se a humanidade tem futuro, será claramente socialista. Com o capitalismo, em troca, não haverá futuro para ninguém. Nem para os ricos, nem para os pobres. A sentença de Friedrich Engels, e também de Rosa Luxemburgo: "Socialismo ou barbárie", é hoje mais atual e vigente que nunca. Nenhuma sociedade sobrevive quando seu impulso vital reside na busca incessante do lucro, e seu motor é a ganância. Mais cedo que tarde provoca a desintegração da vida social, a destruição do meio ambiente, a decadência política e uma crise moral. Todavia ainda temos tempo, mas não muito. 

fonte: Jornal La República, Espanha

*Atílio Boron é sociólogo e politólogo. É secretário executivo do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso)  e professor de Teoria Política na Universidade de Buenos Aires. Autor de Estado, Capitalismo e Democracia na América Latina e A Coruja de Minerva.

para conferir este artigo no original  Sepa lo que es el capitalismo

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