O POUM foi fundado a partir da fusão entre o Bloque Obrero y Campesino (BOC) e a Izquierda Comunista de España (ICE).
O BOC tinha suas origens em duas tendências comunistas: um grupo de militantes da Confederación Nacional del Trabajo (CNT) no início dos anos 20 liderado por um professor nascido na província espanhola de Aragão, Joaquín Maurín, e um grupo de jovens ativistas atraídos pelo comunismo por sua posição sobre a questão nacional que formaram o Partit Comunista Català em 1928. Ambas rechaçavam a burocratização e o ultraesquerdismo do "comunismo oficial" e unificaram-se em 1931.
Ainda que o BOC defendeu a necessidade de um partido revolucionário em nível nacional, estava limitado quase exclusivamente à Catalunha. Era minoritário em comparação com a CNT e, no resto da Espanha, com o Partido Socialista Obrero Español (PSOE), mas teve um papel central na criação das Alianzas Obreras em 1934 e no movimento sindical catalão não-anarquista.
Ainda que a ICE (antiga oposição trotskista) apenas contava com algumas centenas de militantes, teve em suas fileiras ativistas experientes e capazes como Andreu Nin, Juan Andrade, José Luis Arenillas etc., Nin viveu na União Soviética entre 1921 e 1930, onde foi dirigente da Internacional Sindical Vermelha (seção sindical da Internacional Comunista).
No início, o BOC e a ICE mantiveram relações bastante conflituosas. Diante da crescente ameaça fascista e a pressão a favor da unidade dentro do movimento operário, o BOC e a ICE aproximaram-se tanto na prática (na experiência das Alianzas Obreras) como no terreno programático. A ruptura da ICE com o movimento trotskista depois de uma série de divergências (sobretudo, sua rejeição ao "entrismo" no PSOE) contribuiu para esta aproximação.
Apesar da maior força relativa do BOC, o novo partido foi o resultado de uma fusão e não uma absorção. Segundo a ICE: "A fusão foi realizada sobre a base de um programa escrito em comum, como resultado de uma discussão que durou meses e que contém todos os nossos princípios fundamentais: afirmação do caráter internacional da revolução proletária, crítica à teoria do socialismo em um só país (…) defesa da União Soviética, com o absoluto direito de criticar todos os erros da direção soviética, afirmação da falência das II e III Internacionais e da necessidade de restabelecer a unidade do movimento operário internacional sobre uma nova base".
A Frente Popular
O aparente apoio do POUM à Frente Popular foi freqüentemente mal-entendido. Na realidade, o POUM denunciou em seguida, quando foi apresentada em 1935, a nova política comunista a favor de alianças antifascistas com setores das classes médias em defesa da democracia burguesa. Maurín descreveu a posição stalinista como a prova de uma "incompreensão total" da natureza do fascismo, que unicamente representava um freio à classe operária. Ao manter a luta dentro de um marco burguês, dava-se tempo para que fosse preparada a contra-revolução. Repetia "o que os mencheviques desejavam na Rússia em 1917", igual à posição do socialismo reformista que levou a Itália, a Alemanha e Áustria ao desastre. Ao invés da colaboração de classe que este novo giro representou, Nin argumentou em março de 1936 que era necessário criar a curto prazo as condições para a conquista do poder e que isto significava "forjar as armas necessárias para a vitória: a Alianza Obrera e o partido revolucionário". O POUM não descartou alianças com os partidos pequeno-burgueses, mas com a condição de que o movimento operário mantivesse sua completa independência ideológica e organizativa.
Com a convocatória de eleições no início de 1936, o POUM propôs formar uma Frente Operária com os demais partidos operários que alcançasse um acordo tático com os republicanos. Mas tanto os socialistas como o PCE aceitaram uma aliança direta com os republicanos de esquerda, sobre a base de um programa de viés liberal. O resultado foi um pacto eleitoral assinado tanto pelos partidos republicanos como pelas organizações operárias, como o POUM.
Juan Andrade justificaria mais tarde argumentando que o partido se viu forçado a reconhecer a "existência material de uma lei eleitoral", assim como obrigado a realizar "acordos provisórios" com a esquerda republicana "para evitar a vitória da burguesia".
Mais determinante foi a posição da CNT. O apoio massivo entre a classe operária a alguma forma de unidade eleitoral, ainda que fosse apenas para alcançar a anistia, conduziria os anarquistas a abandonar seu abstencionismo e mobilizar efetivamente seus filiados a votarem. Diante desta situação, o POUM temeu ficar isolado.
O POUM encarou a vitória eleitoral da esquerda como um grande triunfo para os trabalhadores e camponeses e uma importante derrota para a contra-revolução. Não era uma vitória da democracia burguesa, nem tampouco representava o apoio das massas ao republicanismo pequeno-burguês. O POUM advertiu que, considerando a profundidade da crise econômica e social em 1936, qualquer tentativa de realizar inclusive os aspectos mais suaves do programa eleitoral da esquerda provocaria a violenta resistência da classe dominante.
Durante os meses seguintes, o POUM denunciou constantemente as tentativas tanto dos social-democratas como dos stalinistas de subordinar o movimento operário ao republicanismo pequeno-burguês. Diante desta crise, Nin havia declarado pouco depois das eleições que era "um crime e uma traição" exigir que a classe operária renunciasse à destruição do Estado burguês e à tomada do poder – suas máximas aspirações – "em nome da necessidade de "consolidar" a República". Maurín escreveu em maio de 1936 que a revolução que se avizinhava na Espanha não seria "democrático-burguesa, mas sim democrático-socialista ou, para ser exato, socialista".
Revolução
Na véspera da guerra civil, o POUM ainda era uma organização bastante pequena se comparada não apenas com o PSOE, mas também com o Partido Comunista da Espanha (PCE). A maioria de seus 6 mil membros ainda estava concentrada na Catalunha. O POUM cresceu rapidamente nos primeiros meses da guerra e no fim de 1936 já tinha 30 mil filiados. Editava 5 jornais diários e vários jornais semanais e controlava emissoras de rádio em Barcelona e Madrid. Para o POUM, a guerra e a revolução eram inseparáveis: a dupla tarefa imediata dos trabalhadores e camponeses era a derrota das forças fascistas e a construção do socialismo.
Um passo importante para a restauração da "ordem republicana" foi a criação em setembro de 1936 de um novo governo catalão baseado em todas as organizações antifascistas, incluindo o POUM.
Antes da formação deste novo governo da Generalitat, o poder na Catalunha estava nas mãos de um conjunto de comitês antifascistas que organizavam o abastecimento, garantiam a segurança na retaguarda, coordenavam as milícias e faziam funcionar as fábricas e terras coletivizadas. O comitê mais importante. O comitê mais importante e, possivelmente, o embrião de um governo revolucionário, era o Comitê Central de Milícias Antifascistas. O POUM ficou sozinho na defesa da transformação destes comitês na base de um novo Estado revolucionário.
O POUM justificou sua participação na Generalitat que as organizações operárias estavam em maioria, o novo governo catalão tinha um "programa socialista" e os partidos da pequena burguesia catalã tinham radicalizado. Em um nível menos público, o POUM temia ser mal-interpretado pelas massas, isolado e, portanto, ficar privado de provisões para suas milícias e inclusive abrir o caminho para ser colocado na ilegalidade, como já defendiam os stalinistas. Ao fazê-lo, o partido acreditou que entrando no governo catalão evitaria que a CNT fosse arrastada para o recém-formado partido stalinista catalão, o Partit Socialista Unificat de Catalunya (PSUC), e os republicanos.
Apesar de "legalizar" muitas conquistas da revolução – sobretudo no terreno da coletivização – o novo governo catalão estava subordinado à política frentepopulista da Esquerra Republicana de Catalunya (ERC) e do PSUC. Conseqüentemente, a formação deste governo representava um passo importante, apesar das intenções da CNT e do POUM, para o desmantelamento da revolução. Os comitês locais foram dissolvidos, as forças foram reconstruídas e as milícias convertidas em unidades do novo exército regular.
Em dezembro de 1936, foi expulso o representante do POUM, Nin, da Generalitat, como conseqüência das pressões diretas do governo soviético sobre as autoridades republicanas.
Enric Adroher, um dirigente do partido, escreveria mais tarde que o novo governo da Generalitat havia desempenhado "uma missão histórica (…) a liquidação dos comitês", que o POUM havia se encarregado "de convencer as forças revolucionárias dos limites da necessidade de aceitar aquele sacrifício, que devia ser mais um passo no retrocesso revolucionário", e que uma vez concluído este "serviço inestimável", o POUM foi tirado do governo.
O POUM e a CNT
Em setembro de 1936, Nin declarava que "todo o futuro da Revolução Espanhola depende, em grande parte, da atitude que adotarão a CNT e a Federación Anarquista Ibérica (FAI)". Assim, o principal problema do POUM durante a guerra civil era como ganhar ao menos uma parte da CNT para suas posições.
Em fevereiro de 1937, foi fundada a Frente de la Juventud Trabajadora Revolucionaria (FJTR), com base na juventude poumista (a Juventud Comunista Ibérica) e seus homólogos libertários. A FJTR foi, sem dúvida, o mais próximo que o POUM esteve de formar uma frente única com os anarcossindicalistas, porém os setores mais apolíticos da direção da CNT estavam não apenas contra tomar o poder, mas também de qualquer colaboração com partidos políticos. No entanto, o apoliticismo dos anarcossindicalistas não se estendeu às relações sindicais e, durante a guerra, a CNT fez vários pactos com a Unión General de Trabajadores (UGT) catalã, central dominada pelos stalinistas.
Dada a importância de se ganhar as bases anarcossindicalistas, possivelmente o maior problema enfrentado pelo POUM durante a guerra consistiu em ter filiado os sindicatos sob sua direção à UGT ao invés da CNT. Com o decreto de sindicalização obrigatória do governo catalão, tanto os sindicatos anarquistas como os socialistas cresceram bastante. O POUM não teve outra opção senão entrar em uma das duas centrais sindicais.
Os líderes do POUM justificaram sua decisão de entrar na UGT baseando-se na convicção de que na Catalunha poderiam ganhar a direção da débil central socialista. Quando isso acontecesse, o POUM afirmava que seria possível pautar a questão da unidade sindical com a CNT. Não demoraria muito para que o POUM visse o erro que havia feito em seus cálculos.
Muitos destes novos filiados vinham dos setores menos combativos da classe trabalhadora. Com a ajuda de seus aliados na direção nacional da UGT, os stalinistas não tiveram grandes problemas para ganhar estes novos e inexperientes filiados e então ter relativa facilidade para acabar com a influência do POUM dentro dos sindicatos. Em poucos meses, o partido viu-se desprovido de suas próprias bases sindicais.
Contra-revolução
No início de 1937, a contra-revolução estava ganhando terreno na zona republicana. Na imprensa stalinista aumentavam os ataques caluniosos contra os "fascistas" do POUM, assim como as exigências de sua proibição. Os chamados do POUM a favor de uma revolução socialista e suas denúncias de perseguição dos velhos bolcheviques na União Soviética feriam particularmente os stalinistas, tanto dentro como fora da Espanha. Em Madrid, a repressão contra o POUM já havia começado. Foi apenas uma questão de tempo para que se adotassem medidas similares na Catalunha, mas o poder da revolução na zona republicana, ainda forte, dificultava.
Os ataques contra a revolução culminaram quando, em 3 de maio, forças de segurança da Generalitat atacaram a Telefônica de Barcelona, controlada pela CNT, o que provocou uma greve geral e um levante armado.
O POUM imediatamente se colocou ao lado dos trabalhadores e propôs a criação de Comitês de Defesa em cada bairro, baseados em todas as organizações revolucionárias. O partido acreditava que era possível tomar Barcelona e posteriormente forçar as autoridades a negociar com os revolucionários. No entanto, mesmo que tenha sido relativamente fácil a tomada do controle total da cidade pelas organizações revolucionárias, o movimento foi eventualmente sabotado pela direção da CNT, que temia causar danos à "unidade antifascista". A maioria dos trabalhadores armados, que eram principalmente da CNT, desorientados e frustrados, aceitaram as de largar as armas. A ordem republicana foi então restaurada e o equilíbrio de poder inclinou-se decisivamente a favor da contra-revolução.
O POUM reconhecia que a CNT havia traído a luta, mas dizia: "A tática nos impõe fazer esta crítica com precaução para não nos isolarmos. Se a direção da CNT fosse atacada frontalmente, a base da CNT se levantaria de forma unânime em sua defesa". Como não estava preparado para romper publicamente com os dirigentes da CNT, o POUM teve pouco o que escolher e viu-se obrigado a abandonar as barricadas para evitar uma "repressão sangrenta".
Adroher concluiu alguns meses depois do final da guerra que seu partido falhou na hora de compreender o curso dos acontecimentos até maio, porque não tinha se preparado para a luta e não sabia como tirar vantagem da "grande traição do anarquismo". "Ao invés de tratar" a situação "como era: uma luta violenta pelo poder", escreveu, o POUM "encarou como uma pequena provocação contra-revolucionária". Não foi apenas uma provocação, mas sim "a solução definitiva" da contradição que surgiu em julho de 1936 "a favor da contra-revolução".
Foi executada uma nova onda de repressão contra os setores mais combativos do movimento operário durante as semanas posteriores, acompanhada de uma campanha de propaganda massiva desenvolvida pelos comunistas contra os "trotskistas", que foram acusados de instigar a insurreição. Em Valência, um novo governo central, liderado pelo socialista moderado Juan Negrín, rapidamente cedeu às pressões stalinistas e declarou a ilegalidade do POUM em 16 de junho. Muitos membros do POUM e anarquistas radicais foram detidos e outros desapareceram. Dezenas de anarquistas e militantes do POUM foram assassinados, o caso mais notório foi o de Andreu Nin.
A história do POUM transcorreu desde então na perseguição, na clandestinidade e nos vários anos de exílio.
Tradução: Henrique Sanchez
fonte:
En Lucha e
Revolutas