31 agosto 2011

MINISTRA MARIA DO ROSÁRIO REPUDIA ELOGIOS DA ROTA À DITADURA

Por Celso Lungaretti

A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosario, ficou indignada ao tomar conhecimento da retórica ditatorial adotada no site do 1º Batalhão de Choque da Polícia Militar (Rota), abrigado no Portal do Governo de São Paulo:
"Eu me senti aviltada por isso, uma página oficial de um governo estadual, no período democrático, que faz uma homenagem à deposição de um presidente legitimamente eleito [João Goulart]. Tenho certeza de que o governador Geraldo Alckmin vai tomar as providências que se impõem".
Segundo ela, trata-se de "uma estrutura do Estado de São Paulo, não se pode comemorar o golpe, não se pode comemorar a violação do estado democrático de direito, sob pena de se plantar novas violações". Maria do Rosário prometeu discutir o assunto pessoalmente com Alckmin.

A Rota também se ufana do papel por ela desempanhado na perseguição aos resistentes que pegaram em armas contra a ditadura e o terrorismo de estado implantados pelo golpe militar de 1964.

Venho questionando tal aberração desde outubro de 2008. Já encaminhei denúncia formal a três governadores -- José Serra, Alberto Goldman e Geraldo Alckmin --, além de conseguir que Serra fosse indagado a este respeito na sabatina da Folha de S. Paulo, durante a última campanha presidencial. Mais recentemente, o deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL) fez uma interpelação a Alckmin.

O valoroso companheiro Ivan Seixas, também veterano da Resistência à ditadura militar, vem acompanhando passo a passo esta pequena cruzada. Foi dele a iniciativa de levantar o assunto em audiência pública a que Maria do Rosário compareceu na Assembléia Legislativa de São Paulo.

A assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou que somente a Polícia Militar poderia se manifestar sobre o tema. Procurada pela reportagem de O Globo, a PM não se posicionou.

"Não nos contentamos com o cinismo daqueles que escreveram a história oficial. Devemos agir diante disso", afirmou a ministra, concluindo:
"Construir a democracia é uma tarefa cotidiana. Me incomoda que, todos os dias, no jornal, haja novos elogios ao período da ditadura militar, inclusive à Rota, como se naquele tempo tivéssemos mais segurança ou direitos que hoje. Quando eu vejo elogios ao período da ditadura militar e vejo na página de governo um batalhão que se orgulha de ter participado da deposição de um presidente eleito e pelos massacres promovidos pela violência de Estado, vejo que temos muito que afirmar".

ASSINE AQUI A PETIÇÃO ON LINE PELA SUPRESSÃO DOS ELOGIOS  AO GOLPISMO,  À DITADURA E AO TERRORISMO DE ESTADO NA PÁGINA VIRTUAL DA ROTA

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29 agosto 2011

GRANDE DOUTOR: LEVANTA, SACODE A POEIRA E DÁ A VOLTA POR CIMA!

Por Celso Lungaretti

No palanque das diretas, anunciado por Osmar Santos 
Ótima notícia é a alta de Socrates Brasileiro.

Parafraseando a inesquecível frase com que George Foreman esquivou-se de comparar os geniais Muhammad Ali e Joe Louis ("Não sei dizer se Ali foi o maior peso-pesado de todos os tempos, mas, sem dúvida, foi o melhor cidadão que já lutou boxe"), eu diria que o doutor foi o melhor cidadão que já se tornou grande futebolista.

Antes dele, os craques eram quase todos vaquinhas de presépio dos cartolas -- vis parasitas que vicejam à sombra das chuteiras imortais, para, da arte dos boleiros, extraírem grana, prestígio e poder.

Mesmo os que tinham espírito mais crítico e independente, evitavam dizer o que realmente pensavam da engrenagem mafiosa do futebol. Afonsinho, rara exceção, não teve a carreira que seu talento prefigurava, exatamente por haver ousado trombetear a nudez do rei.

O que Sócrates conseguiu foi impressionante: não só venceu como jogador (apesar do submundo do futebol e a venal imprensa caudatária terem insistentemente tentado desmoralizá-lo), como conseguiu unir o elenco do Corinthians em torno de suas idéias e impô-las aos dirigentes do clube.

Parabéns pelo novo gol, doutor!
Lembrem-se: ainda estávamos sob ditadura. A  democracia corinthiana  (o direito de os atletas participarem da tomada de decisões que os afetavam, como a necessidade ou não de concentração antes dos jogos) servia como modelo e cartão de visitas da democracia  em si. Havia um conteúdo político maior, subjacente à afirmação da dignidade profissional dos jogadores.

E, exatamente como Muhammad Ali, teve Sócrates a grandeza de dispor-se a um grande sacrifício pessoal em nome de suas convicções.

Ali perdeu o cinturão, muita grana e alguns dos melhores anos da carreira de um pugilista por recusar-se a servir como relações públicas para a agressão estadunidense ao povo vietnamita -- atitude que justificou com argumentos religiosos, mas cujo motivo maior ficou evidenciado na frase "Vietcong nenhum me chama de nigger  [pejorativo muito usado pelos racistas dos EUA]".

Da mesma forma, Sócrates abriria mão de muita grana italiana se tivesse a oportunidade de contribuir para a reconstrução democrática do Brasil. Foi o que jurou num ato público da campanha das diretas-já, no Vale do Anhangabaú (SP): comprometeu-se solenemente a, caso fosse aprovada a emenda Dante de Oliveira, recusar a estratostérica proposta da Fiorentina.

Tenha vida longa, doutor. Ainda precisamos de você... e muito!

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O AMARGOR E A ESPERANÇA

Por Celso Lungaretti

Jornal publica, com o apoio de um vídeo, que policiais deixaram bandidos agonizantes sem socorro, mandando-os estrebucharem de uma vez.

Os leitores, em expressiva maioria, aplaudem os policiais e criticam o jornal (extremamente criticável por outros motivos, mas certo desta vez).

Militar toma o poder num país árabe e impõe uma tirania pessoal, com tinturas anticolonialistas para dourarem a pílula. No entanto, o arbítrio, as torturas e assassinatos de opositores eram os mesmíssimos dos regimes de gorilas latino-americanos como Pinochet.

Muitos esquerdistas brasileiros tomam as dores do tirano, lamentando sua derrubada porque os revoltosos têm apoios discutíveis... embora seja indiscutível que o povo queria mesmo é ver-se livre do clã que o oprimia há 42 anos, enquanto seus membros ostentavam repulsivos privilégios de nababos.

No fundo, são dois exemplos de um mesmo comportamento: pessoas que abdicam de serem boas, justas, nobres e dignas. Preferem ser amargas, más, rancorosas e vingativas. Optam por jogar a civilização no lixo, apoiando a imposição da força bruta e abrindo as portas para a barbárie.

Mas, nem a criminalidade será extinta com o extermínio dos bandidos (outros tomarão seu lugar, indefinidamente), nem a revolução mundial avançará um milímetro com a esquerda apoiando tiranos execráveis. Quem é guiado pelo amargor, apenas se coloca no mesmo plano do mal que combate, abdicando da superioridade moral e desqualificando-se para liderar o povo na busca de soluções reais.

No caso dos esquerdistas desnorteados, eles esquecem que os podres poderes se sustentam exatamente na descrença dos homens quanto às possibilidades de mudar o mundo.

Céticos, eles se tornam impotentes. Cabe a nós devolvermo-lhes as esperanças.

Nunca teremos recursos materiais equiparáveis aos do capitalismo. Nosso verdadeiro trunfo é personificarmos tais esperanças -- principalmente a de que a justiça social e a liberdade venham, enfim, a prevalecer.

Ao apoiarmos um Gaddafi, sinalizamos para o homem comum que ele só tem  isso  a esperar de nós. Quem, afora fanáticos, quererá dedicar sua vida à construção... de uma ditadura?!

Então, ou falamos o que faz sentido para os melhores seres humanos (os únicos que conseguiremos trazer para nosso lado no atual estágio da luta) ou continuaremos falando sozinhos, sem força política para sermos verdadeiramente influentes.

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28 agosto 2011

Por que 7% do PIB para a Educação é pouco?

Publicado originalmente pela Fundação Lauro Campos PSOL. 

Campanha Nacional pelo Direito à Educação 

Cálculo dos investimentos adicionais necessários para o novo PNE garantir um padrão mínimo de qualidade

A partir da lógica utilizada nas notas explicativas e na planilha de custos apresentadas pelo Ministério da Educação (MEC) para justificar suas opções na elaboração do PNE 2011/2020, o objetivo desta Nota Técnica (NT) é calcular qual deve ser a "meta de aplicação de recursos públicos em políticas educacionais como proporção do produto interno bruto (PIB)" (CF/88, Art. 214, Inciso VI) para o cumprimento de dois princípios da Constituição Federal de 1988 (CF/88): garantir a "igualdade de condições para o acesso e permanência na escola" e o "padrão de qualidade".

Para tanto, o percurso utilizado parte de um breve trecho em que é apresentado o contexto no qual este exercício é empreendido (tópico 2), passa por uma rápida sistematização das críticas mais correntes da comunidade educacional às notas explicativas e à planilha de custos do MEC (tópico 3), justifica e apresenta a memória de cálculo para a universalização de um padrão mínimo de qualidade na educação pública, aferindo a demanda por educação para a próxima década (tópico 4) e, por fim, compara os resultados encontrados por este exercício com os números apresentados pelo MEC (tópico 5).

A conclusão é que o investimento de 7% do PIB em educação pública colaborará de maneira precária com a expansão da oferta educacional. Além disso, será insuficiente para a consagração de um padrão mínimo de qualidade na educação. Em outras palavras, caso o Projeto de Lei (PL) 8035/2010 não sofra mudanças no Congresso Nacional, o Brasil insistirá – por mais uma década – na incorreta dissociação entre acesso e qualidade, ambos os elementos fundamentais para a garantia plena do direito à educação. 


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27 agosto 2011

Evento no Colégio Pedro II - São Cristovão

No dia 31/08/2011 às 10:00 h haverá um evento em frente ao Prédio da Direção Geral em São Cristóvão, para comemorar a retirada do nome Almirante Haedemaker do prédio.

Haedemaker foi Ministro da Marinha e integrante da junta militar que governou o País entre agosto e outubro de 1969, durante a ditadura.
O prédio havia recebido o nome do almirante durante a Ditadura Militar e em 19/04 a Congregação do Colégio Pedro II decidiu pela retirada da "homenagem" após um abaixo assinado de Professores, alunos e entidades civis. 
Também será prestada homenagem aos alunos do Colégio que foram mortos pela repressão. 

O endereço é Campo de São Cristóvão, 177 - São Cristovão - Rio de Janeiro.

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A luta é pela transformação da maior "prisão a céu aberto" do mundo em uma terra livre!

Por Sturt Silva*

No dia 13 de setembro de 2011 a Palestina pode ser reconhecida pela 66ª sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) como estado “independente” e “soberano”. E para pressionar que isso aconteça, já que o estado de Israel vem tentando evitar que este ato histórico e justo aconteça - na medida em que tenta interferir na posição dos países membros - via seus embaixadores, alguns movimentos que atuam em defesa da causa Palestina no Brasil, lançará um Comitê pelo Estado da Palestina Já, em São Paulo no dia 29 de agosto a partir de 17 horas no Sindicato dos Engenheiros (Rua Genebra, nº 25, Centro).

A luta em primeiro momento é por um estado independente, gerido por palestinos, sem interferência do imperialismo e do sionismo. “Somos Todos Palestinos”, como é o nome de um blog brasileiro, editado por vários comitês brasileiros de Solidariedade à Luta do Povo Palestino. Comitês que parecem terem posições bem mais “radicais” e humanistas do que as propostas das entidades que compõem o que será lançada em SP na próxima segunda.

Enquanto o segundo tem como foco principal a proposta da OLP, pelo reconhecimento diplomático da ONU, os primeiros têm propostas mais bem enraizadas na história e na cultura do povo palestino e da Palestina. Isso fica claro com os artigos e manifestos postado no blog “Somos Todos Palestinos” e em sites/blogs relacionados.

Essa semana mesmo circulou pela net o texto: Lutar pela libertação do povo palestino, contra o Estado terrorista de Israel e o imperialismo, onde há uma crítica à posição da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) que decidiu solicitar na Assembleia Geral da ONU, em setembro, o reconhecimento do Estado da Palestina (e é a proposta que o comitê “Palestina já” apoia) como membro da organização, tendo como referência as fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias de 1967, salientando que não houve um debate amadurecido e aprofundado sobre o tema. Também coloca, se a ONU reconhecer o estado será de forma nominal.

De fato a luta não vence por meios diplomáticos. A luta deve ser em defesa da liberdade do povo palestino, inclusive pela volta dos milhões de refugiados às suas terras, pela solidariedade às lutas dos povos árabes e pela condenação dos crimes históricos dos sionistas. Alias esse texto é um manifesto do O Mopat (Movimento Palestina para Tod@s).

Porém ainda não sei se tem comitês e movimentos, que atuam em defesa da causa palestina, com propostas mais “independentes e complexas”, compondo o do “Estado já”. De qual quer jeito o debate está aberto e deve ser expandindo e qualificado depois do reconhecimento, ou não, da ONU.

É muito importante a solidariedade com povo palestino e a condenação do terrorismo praticado pelo estado sionista nas regiões palestinas. E o Comitê pelo “Estado da Palestina Já” tem todo meu apoio. Mas a história nos provou que sempre temos que fazer o melhor discurso para conquistar algo realmente prático. Apesar de reconhecer que o fato político é importante e que poderá ter grande repercussão internacional, concordo com os movimentos mais enraizados na luta. O estado palestino deve ser obra dos próprios palestinos. A ONU hoje, como os outros órgãos de atuação internacional, é dominado pelas potências hegemônicas e atua de acordo com os interesses destas. Sem contar que não tem como negociar paz e justiça com um dos estados que repete praticas, em sua totalidade, de um dos piores "regimes-doutrinas" que já existiu na humanidade.

Também reproduz abaixo, até para dar visibilidade da necessidade de um estado livre para os palestinos, um artigo da enviada especial do jornal Brasil de Fato á Ramallah (Palestina) acompanhado de um vídeo, feito por uma ONG israelense em forma de curta animação, sobre a situação que vive os palestinos, principalmente os da sitiada Gaza.

Israel aplica bloqueio total – terra, água e mar – à Faixa de Gaza desde junho 2007 

São cerca de 1,6 milhão de pessoas vivendo nos apenas 360 km² da Faixa de Gaza. Não podem sair dali porque os governos israelenses construíram cercas eletrificadas ao redor de seu território. Só há três passagens, controladas pelo exército israelense, e as autorizações para cruzá-las são regularmente negadas. Outra saída, entre Rafah e a fronteira egípcia, sofre um contínuo processo de fechamento e abertura, com o Egito impondo uma série de restrições.

A entrada de bens como comida, medicamentos e combustível é regulada por Israel, e o montante permitido não é suficiente para atender as necessidades da população. As exportações e importações sofreram reduções drásticas.

De junho de 2007 – quando o bloqueio de Israel a Gaza, iniciado em 2000, tornou-se total (terra, mar e ar) – a setembro de 2008, praticamente todas as operações industriais foram paralisadas. Das quase quatro mil indústrias de antes, hoje funcionam apenas 23. Cerca de 40 mil agricultores e mais de 70 mil trabalhadores de outras áreas perderam seus empregos.

Caos social

Em Gaza 80% da população vive abaixo da linha da pobreza, dependendo de ajuda internacional para sobreviver. A Organização Mundial da Saúde calcula que mais de 10% sofre de má nutrição crônica. A maior parte da água que os gazenses consomem, entre 90% e 95% do total, está contaminada. Os cortes na energia elétrica duram de 8 a 12 horas por dia.

A situação tornou-se ainda mais dramática depois dos violentos ataques militares que Israel infligiu a Gaza durante 22 dias, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009. Mais de 1,4 mil palestinos foram mortos, incluindo 431 crianças e 114 mulheres. Quase 5,4 mil pessoas ficaram feridas, mais da metade crianças e mulheres. As redes de água e energia elétrica foram destruídas, o que agravou as já precárias condições humanitárias daquela parte do mundo. Os ataques deixaram mais de 14 mil casas parcial ou totalmente destruídas. Cerca de 50 mil gazenses ficaram sem teto, e 100 mil foram transferidos para outras áreas. A rede de saúde foi desarticulada, sofrendo destruição parcial ou total, incluindo 15 hospitais e 41 postos de primeiros-socorros. O ataque militar sionista acabou com mais de 600 mil hectares de plantações.

Pesca e agricultura

Hoje, cerca de 30% das regiões cultiváveis de Gaza não podem ser alcançadas senão sob risco de ferimento ou morte, por estarem próximas às zonas-tampão – áreas militares fechadas, de entrada proibida, que se estendem pelo território palestino e pelo mar.

A pesca também sofre restrições. Pelos acordos de Oslo, os palestinos poderiam navegar até 20 milhas náuticas no Mediterrâneo. Essa distância foi diminuindo com o tempo, até alcançar as 2 milhas de hoje. Quando os pescadores se aproximam desse limite, são advertidos com tiros, bombas, agressões físicas, prisões e confisco dos barcos. Desde 2000, dois terços dos pescadores abandonaram suas atividades.

A Gisha, ong israelense fundada em 2005 para proteger a liberdade de movimento dos palestinos, em especial os residentes em Gaza, produziu um desenho animado que resume a situação em que vive a população da Faixa. O desenho pode ser visto no vídeo abaixo:

 

*Sturt Silva é estudante e blogueiro

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25 agosto 2011

Chico Alencar, Reguffe e Jean: melhores na Câmara

Chico Alencar é o mais votado pelos jornalistas pelo terceiro ano seguido. Reguffe e Jean Wyllys vêm em seguida. Romário também está entre os finalistas do Prêmio Congresso em Foco

por Edson Sardinha para o site Congresso em Foco.  
 
Um parlamentar em terceiro mandato e dois estreantes na Câmara são os melhores deputados de 2011, segundo os jornalistas que cobrem o Congresso. O veterano Chico Alencar (Psol-RJ) e os novatos Reguffe (PDT-DF) e Jean Wyllys (Psol-RJ) foram os que mais bem representaram a população na Casa este ano, na avaliação da maioria dos 267 profissionais de imprensa, de 55 veículos, que votaram na primeira etapa do Prêmio Congresso em Foco.

Pelo terceiro ano consecutivo, Chico Alencar foi o mais votado na primeira fase da premiação. Ele obteve 120 votos, dois a mais que Reguffe. Jean Wyllys obteve 74 votos e ficou na terceira colocação. Os três abrem a lista dos 25 deputados finalistas do Prêmio Congresso em Foco 2011. A classificação final será definida pelo internauta, em votação que começa na internet na próxima segunda-feira (22).

A relação dos finalistas é rica em diversidade: reúne nomes de oito partidos políticos, de sete estados e do Distrito Federal. Combina lideranças do governo e da oposição. E mistura experientes congressistas como Miro Teixeira (PDT-RJ) e Roberto Freire (PPS-SP) com revelações como o ex-craque Romário (PSB-RJ) e o Delegado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), dois debutantes na vida política. Dos 25 finalistas, nove não estavam na legislatura passada. Desses, sete são novatos na Casa.

Veja a relação dos deputados finalistas do Prêmio Congresso em Foco 2011 e os votos de cada um:

Chico Alencar (Psol-RJ) – 120 votos
Reguffe (PDT-DF) – 118 votos
Jean Wyllys (Psol-RJ) – 74 votos
Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) – 65 votos
Aldo Rebelo (PCdoB-SP) – 41 votos
ACM Neto (DEM-BA) – 37 votos
Domingos Dutra (PT-MA) – 37 votos
Ivan Valente (Psol-SP) – 36 votos
Luiza Erundina (PSB-SP) – 32 votos
Romário (PSB-RJ) – 31 votos
Erika Kokay (PT-DF) – 24 votos
Cândido Vaccarezza (PT-SP) – 22 votos
Marco Maia (PT-RS) – 20 votos
Miro Teixeira (PDT-RJ) – 18 votos
Jandira Feghali (PCdoB-RJ) – 18 votos
Delegado Protógenes (PCdoB-SP) – 17 votos
Dr. Rosinha (PT-PR) – 16 votos
Duarte Nogueira (PSDB-SP)– 16 votos
Vicentinho (PT-SP) – 16 votos
Alfredo Sirkis (PV-RJ) – 15 votos
Henrique Fontana (PT-RS) – 14 votos
Carlos Sampaio (PSDB-SP) – 13 votos
Mara Gabrilli (PSDB-SP) – 12 votos
Paulo Teixeira (PT-SP) – 12 votos
Roberto Freire (PPS-SP) – 12 votos

Veja a relação dos senadores finalistas do Prêmio Congresso em Foco 2011

A primeira fase da votação, concluída ontem (18), teve recorde de participação de jornalistas. Ao todo, 267 profissionais, de 55 veículos de comunicação (clique aqui para ver a lista), manifestaram suas preferências em relação aos melhores representantes da população na Câmara e no Senado.

Os votos dos jornalistas começaram a ser colhidos na terça-feira (16), por meio de duas urnas itinerantes, com o acompanhamento e a fiscalização do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF).

Conforme o regulamento do prêmio, os jornalistas escolhem os 25 melhores deputados e os dez melhores senadores, além de cinco nomes para cada uma das seguintes categorias: parlamentar de futuro (com menos de 45 anos) e os que mais se destacam na defesa da saúde, da segurança jurídica, dos municípios, dos direitos do consumidor e da democracia e cidadania. O objetivo da premiação é estimular o eleitor a acompanhar os trabalhos do Legislativo e a refletir sobre a atuação de cada congressista.

Não perca, nas próximas horas, a divulgação completa dos finalistas das seis categorias especiais.

Estreantes se destacam entre os melhores do Senado

Clique aqui para saber mais sobre o Prêmio Congresso em Foco 2011

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24 agosto 2011

Verdade, memória e justiça

por Assessoria Deputado Federal Chico Alencar - PSOL RJ. 
Volta e meia alguma autoridade pede que 'viremos a página' das atrocidades cometidas contra quem ousou enfrentar a ditadura. Sim, queremos virar essa página, pois o processo histórico anda e as sociedades mudam. Mas 'virar a página' infeliz da nossa História pressupõe lê-la atentamente, e dela tirar lições. Nada de esquecê-la, nem pulá-la ou arrancá-la".
Leia o pronunciamento em que Chico registra manifesto em defesa da criação da Comissão da Verdade, durante o lançamento do Coletivo-RJ Verdade, Memória e Justiça.


A transição brasileira da ditadura à democracia, ainda inconclusa, foi realizada, no primeiro momento da conquista das liberdades democráticas, nos anos 80, pelo alto, sob a tutela dos chefes militares. Por isso, o direito elementar dos povos à sua própria História ainda não é assegurado no Brasil. Volta e meia alguma autoridade, de qualquer dos três Poderes, ou mesmo um chamado ‘formador de opinião’, pede que ‘viremos a página’ das atrocidades cometidas contra quem ousou enfrentar o regime autoritário. Sim, queremos virar essa página, pois o processo histórico anda e as sociedades mudam. Mas ‘virar a página’ infeliz da nossa História pressupõe lê-la atentamente, e dela tirar lições. Nada de esquecê-la, como até aqui – ao contrário dos nossos vizinhos que também amargaram ditaduras – nem pulá-la ou arrancá-la.

Por isso, Sr. Presidente e colegas parlamentares, comunico aqui o lançamento, ontem, 15/8, no Rio de Janeiro, do Coletivo-RJ Verdade, Memória e Justiça. OAB, ABI e diversas entidades e personalidades públicas compõem essa articulação. Nessa ocasião foi lançado Manifesto que aqui registro:

“Por conhecer a importância da reparação integral aos homens e mulheres que foram presos, torturados, banidos, exilados e aos que tiveram familiares executados e desaparecidos pela repressão militar, entendemos que esta é uma causa do presente, que diz respeito, sobretudo, a toda a sociedade brasileira. Demanda, por isso, uma resposta efetiva, democrática e participativa, e exige das autoridades competentes responsabilidade na formulação de políticas públicas.

Não podemos perder de vista que ainda ocorrem no país prisões arbitrárias, tortura sistemática, sequestros, execuções e desaparecimentos forçados, que vitimam a população em geral, e que são práticas inaceitáveis, inadmissíveis em um Estado Democrático de Direito. Torna-se, então, urgente e necessário que as políticas públicas incluam, em suas pautas, os Direitos Humanos, para que estes deixem de ser mero acessório retórico às políticas de segurança pública.

Para reduzir os danos sociais, é preciso que se esclareça definitivamente o que aconteceu no período da ditadura militar, se reconheçam publicamente os crimes cometidos por agentes do Estado e colaboradores, se identifiquem e se responsabilizem individualmente seus autores.

É neste sentido que valorizamos a proposta de instalação da primeira Comissão da Verdade no Brasil, entendendo que esse instrumento poderá ser de importância fundamental no processo de conquista do direito à Memória, à Verdade e à Justiça e no fortalecimento da democracia.

O COLETIVO RJ tem formulado observações críticas sobre alguns itens do Projeto de Lei da criação da Comissão Nacional da Verdade, atualmente tramitando no Congresso, e considera a necessidade de que se amplie esse debate com os mais variados setores da sociedade civil, situação que o Estado ainda não se dispôs a fazer. Isto possibilitará um processo inclusivo e co-responsável, permitindo reformulações neste Projeto de Lei.

Uma Comissão da Verdade deve ser independente e autônoma e buscar garantir um processo transparente e participativo. Pretende--se, desta forma, assegurar que seus resultados sejam bem documentados, esclarecedores sobre o ocorrido no período e diretos na identificação das responsabilidades pelos crimes de Estado. Mais ainda, seu relatório final deve ser amplamente difundido no país e formalmente encaminhado às autoridades competentes.

Para tanto, é preciso que se tenha acesso irrestrito a toda e qualquer documentação referente à ultima ditadura, e é essencial que o país cumpra seus compromissos internacionais de respeito aos Direitos Humanos.

Enfatizamos ainda que o debate acerca da Comissão da Verdade não exclui a necessidade de Justiça em seu âmbito formal. Ambos os instrumentos podem acontecer concomitantemente já que, na maioria dos crimes, as informações disponíveis permitem o início das investigações, processamento judicial e responsabilização dos agentes públicos e privados, não havendo necessidade de se aguardar os resultados da Comissão Nacional da Verdade.

Concebendo a Memória, a Verdade e a Justiça como dimensões esclarecedoras e reparatórias, interdependentes e complementares, o COLETIVO RJ luta:

- Por uma Comissão da Verdade autônoma e independente;

- Pela abertura de todos os acervos documentais produzidos naquele período e contra qualquer instrumento que promova o ‘sigilo eterno’;

- Pelo cumprimento integral da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso da Guerrilha do Araguaia;

- Pelo resgate da Memória e da Verdade sobre a história da resistência à ditadura 1964-88.
Rio de Janeiro, 15 de agosto de 2011.

O PSOL assume esse compromisso!

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23 agosto 2011

O exemplo que vem do Chile

por Ib Sales Tapajós publicado originalmente pela Fundação Lauro Campos.

Durante muitos anos, o Chile foi apresentado pelos arautos do neoliberalismo como um país modelo no que tange às políticas educacionais. Ainda hoje, mesmo com a enorme crise em que se encontra a educação chilena, há "especialistas" na América Latina que reivindicam os sucessos do sistema de ensino municipalizado, privatizado, competitivo e "eficiente" construído a partir da ditadura do general Augusto Pinochet, que governou o país a ferro e fogo de 1973 a 1990.

De fato, o Chile foi um verdadeiro laboratório do neoliberalismo, o primeiro país latino-americano a aplicar o receituário neoliberal, reduzindo drasticamente o âmbito de atuação do Estado para dar lugar à iniciativa privada. Na educação, foram realizadas sucessivas contra-reformas que negaram completamente o ideal de um ensino público, gratuito e universal.

A ditadura de Pinochet reduziu a menos da metade o gasto público em educação. A gestão das escolas foi descentralizada, passando para o controle dos municípios. Por outro lado, a meritocracia foi uma diretriz levada ao extremo pelo governo chileno, a ponto de se estabelecer distinção de salário entre os professores, de acordo com a "eficiência" e "produtividade" de cada um. O ensino privado, por sua vez, cresceu vertiginosamente, em decorrência principalmente dos subsídios concedidos pelo Estado às instituições particulares, que geraram lucros exorbitantes aos empresários da educação.

Em 1981, foi realizada a (contra) reforma que extinguiu a gratuidade no ensino superior. Hoje não há no Chile nenhuma universidade pública! Existem tão-somente universidades privadas e "mistas" (que recebem subsídios do governo). No lugar da gratuidade, criou-se um sistema de créditos "solidários" para ajudar os estudantes a pagarem os altos preços das mensalidades, que podem chegar a 4 milhões de pesos ao ano – o equivalente a R$ 16 mil. [1] Além de não abarcar a totalidade dos estudantes universitários, mas apenas os estudantes de renda mais baixa, esse sistema de créditos tem gerado um endividamento muito sério na juventude chilena, que, ao sair da Universidade, se depara com contas altíssimas que comprometem durante anos ou mesmo décadas sua renda – situação parecida (porém mais grave) à que ocorre atualmente no Brasil com o FIES. [2]

Contra esse sistema educacional excludente, os estudantes chilenos travam uma heróica batalha, que já dura cerca de dois meses. Centenas de milhares de jovens vêm tomando as ruas de várias cidades do Chile em defesa da educação pública e gratuita. O movimento estudantil chileno, ao contrário dos últimos governos do país, enxerga a educação como um direito social, e não como mercadoria; e luta para que a educação, em todos os níveis, sirva para promover o desenvolvimento do Chile, e não para gerar lucro fácil para um pequeno grupo de empresários.

Nas manifestações de rua, ouvem-se cantos como "Y va a caer, y va a caer la educación de Pinochet". A determinação dos jovens estudantes de lutar por mudanças no sistema educacional é marcante. "Estamos dispostos a perder todo o ano escolar para não pagarmos mais pela educação" – afirma Miguel Roboyedo, um líder estudantil secundarista. [3] As mobilizações sacodem o país inteiro e foram responsáveis diretas pela queda do ministro da educação Joaquim Lavín, que é um empresário da educação, dono de uma universidade privada e de um centro de pesquisas educacionais.

As massivas marchas da juventude chilena golpearam profundamente a imagem do presidente direitista Sebastián Piñera, cujo governo atinge índices de rejeição de 60%. Acuado, o governo aumenta a repressão contra o movimento estudantil. Na quinta-feira passada (04/08), a polícia reprimiu duramente os estudantes que tentaram marchar pela avenida central Alameda, resultando em mais de 800 detidos.

A vereadora do PSOL de Porto Alegre Fernanda Melchionna, que acompanha o processo de mobilização estudantil no Chile, relata que a polícia chilena, a mando do governo, tem utilizado práticas das ditaduras, dos estados de exceção, para tentar dispersar as manifestações [4]. Bombas de gás lacrimogêneo, água suja e tóxica, prisões etc., tudo para tentar conter a aguerrida estudantada do Chile. Há inclusive o caso de desaparecimento de um estudante universitário que foi preso no dia 4 de agosto e cujo paradeiro é desconhecido até hoje.

No entanto, a força de vontade da juventude chilena é imbatível. Novas marchas e uma paralisação nacional foram convocadas nesta semana. 35 estudantes estão em greve de fome para chamar atenção da sociedade à repressão policial e também para ganhar mais adeptos ao movimento.

A força das mobilizações atuais se deve em grande parte à histórica tradição de luta dos estudantes chilenos, que em 2006 protagonizaram a famosa "revolução dos pingüins". [5] Nesse ano, cerca de 800 mil jovens envolveram-se em paralisações e protestos, exigindo passe livre nos ônibus e melhoria da qualidade do ensino e da infra-estrutura das escolas. O movimento estudantil que hoje sacode as ruas do Chile é herdeiro da "revolução dos pingüins" e tem condições inclusive de superar em termos políticos o levante de 2006.

Por outro lado, o processo de mobilização dos nossos irmãos chilenos ocorre num momento muito especial da política internacional. Nos últimos meses a juventude vem se levantando em muitos países em defesa de uma nova sociedade, mais justa, democrática e inclusiva. No mundo árabe e na Europa, os jovens estão indignados com a tirania de governantes que governam para atender aos interesses do mercado, em detrimento da maioria da população.

As revoluções árabes, que derrubaram ditadores no Egito e na Tunísia e ameaçam os regimes tiranos da Síria, Líbia e Iêmen, mostraram aos jovens do mundo inteiro que, mobilizados, podemos mudar o curso da história. A juventude da Europa, com destaque para a espanhola, segue esse exemplo e ocupa as praças de várias cidades contra os efeitos da crise econômica mundial e em defesa de Democracia Real Já. O clima de agitação política presente em vários cantos do mundo certamente foi um fator importante de inspiração para os estudantes chilenos.

De qualquer forma, a luta dos 'pinguins' pode representar um divisor de águas na América Latina, dando início a um processo mais amplo de mobilização da juventude do nosso continente. Os problemas vivenciados pelos estudantes do Chile são também sentidos na pele, com maior ou menor intensidade, por estudantes de vários países latino-americanos, onde as políticas neoliberais desmontaram impiedosamente vários serviços públicos, em particular a educação. O combate a tais problemas, tal como no Chile, passa necessariamente pela ocupação das ruas.

Independentemente dos resultados concretos que serão obtidos pelos estudantes chilenos, não resta dúvida de que eles já são vitoriosos. Colocaram em xeque o modelo arcaico e privatista de educação vigente no país, que até então era tido por muitos como um "sucesso". Além disso, pautas muito progressivas ganharam destaque este ano, graças à iniciativa dos valentes pingüins. Dentre elas, a renacionalização do cobre, uma reforma tributária para redistribuir a renda do país e a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte para substituir a Constituição herdada de Pinochet por uma nova Carta Magna efetivamente democrática.

Por conta de suas bandeiras de luta, que ultrapassam e muito as reivindicações meramente corporativas, a luta dos estudantes conta com 86% de aprovação da população do país. As articulações com outros setores da sociedade chilena são também uma característica importante desse movimento. Além dos professores, que participam ativamente das manifestações, os mineiros do cobre mantêm laços sólidos com o movimento estudantil e estão com uma greve nacional marcada para os dias 24 e 25 de agosto.

Por tudo isso, precisamos olhar atentamente para o Chile e extrair daí todas as lições possíveis. O movimento estudantil brasileiro tem importantes lutas a travar neste segundo semestre de 2011, com destaque para a campanha por 10% do PIB para a educação. A mobilização permanente dos estudantes e da sociedade é um método obrigatório para conseguirmos êxito em nossos objetivos.

Sigamos o exemplo que vem do Chile – não em relação ao modelo neoliberal de educação implantado pelos governantes desse país, mas sim quanto à coragem e determinação dos estudantes que enfrentam a polícia em defesa de uma educação pública, gratuita e de qualidade e por uma sociedade justa e democrática. Juntos somos fortes e podemos mudar o Brasil e o mundo. Se o presente é de luta, o futuro nos pertence!

Notas:

[1] Entrevista com José Manuel Morales, da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (FECh), disponível no Blog do Juntos!

[2] Vide o artigo A armadilha do FIES

[3]Leia a entrevista completa Blog do Juntos!

[4] Confira o vídeo gravado pela vereadora Fernanda Melchionna relatando a repressão policial às manifestações do dia 04 de agosto no site http://www.fernandapsol.com.br/videos.php

[5] Os estudantes secundaristas do Chile são conhecidos como "pinguins" devido ao uniforme preto e branco que vestem.

Ib Sales Tapajós é coordenador geral da União dos Estudantes de Ensino Superior de Santarém (UES) e militante do movimento Juntos! Juventude em luta

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QUEM TEM OLHOS NA NUCA NÃO VÊ A PRIMAVERA CHEGANDO

Por Celso Lungaretti

Cada vez que apresento análises alternativas aos clichês esquerdistas dominantes, recebo uma enxurrada de críticas de certos companheiros, como se fosse um herege contestando mandamentos divinos...

O marxismo nem sequer existiria se o velho barbudo não tivesse ousado lançar sua visão alternativa aos clichês anarquistas dominantes. Mas, o vezo autoritário enraizou-se de tal forma na esquerda durante o pesadelo stalinista que nunca mais conseguimos nos livrar dele por completo.

Daí a facilidade com que o inimigo afasta de nós os cidadãos dotados de espírito crítico: ao defendermos com tanto ardor regimes execráveis e execrados como o de Gaddafi, damos todos os pretextos para sua máquina de propaganda trombetear que nosso objetivo último seria estabelecer tiranias. E a indústria cultural deita e rola em cima de nós.

Comigo não, violão. A despeito de quaisquer pressões dos que encaram o futuro com a nuca, continuarei tentando discernir o que está à frente e oferecer melhores opções ao movimento revolucionário do que as hoje prevalescentes.

Pois, queiramos ou não, é o capitalismo que domina o mundo e nós vimos perdendo terreno desde a segunda metade da década de 1980.

Está na hora de começarmos a virar esse jogo. E não será com Husseins, Gaddafis, al-Assads e Ahmadinejads que recolocaremos a revolução mundial em pauta.

Pois, é disto que se trata: regimes híbridos em países isolados são facilmente cercados e inviabilizados pelas potências capitalistas, o que acaba forçando-os, para sobreviverem, a incidirem em distorções de todo tipo. Tornam-se mais úteis para o inimigo como espantalhos do que para nós como cartões de visita.

Marx sonhava com uma onda revolucionária varrendo o planeta. É uma hipótese que se tornará cada vez mais viável com o agravamento das crises cíclicas do capitalismo (as quais, mais dia, menos dia, desembocarão numa depressão talvez ainda mais terrível que a da década de 1930) e com as catástrofes ambientais que se avizinham.

Se há um sentimento comum à maioria dos povos, neste início do século 21, é o repúdio a governos que achatam os governados. Até nos países árabes, como bem destaca Vladimir Safatle no seu ótimo artigo desta 3ª feira, Outro jogo, é "sintomático que a palavra mais usada seja  respeito":
"Seus levantes (...) foram em nome do fim de uma mistura entre opressão política e desencanto econômico".
Trocando "opressão política" por "falta de verdadeira representatividade política", pode-se dizer o mesmo das revoltas européias. O povo quer respeito e quer o fim dos sacrifícios inúteis que o capitalismo putrefato lhe impõe, embora ainda não tenha consciência de que são inerentes ao sistema capitalista e só acabarão quando ele acabar.

A internet, principalmente, está sacudindo o marasmo secular. Há cada vez mais frações da massa se descobrindo como gente, "que é para brilhar, não para morrer de fome", na bela frase de Caetano Veloso.

E se recusando a ser "povo marcado, povo feliz", como disse o Zé Ramalho, completando o raciocínio do seu guru Geraldo Vandré, de que "gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente".

É entendendo, harmonizando-nos com e passando a expressar esse sentimento  tão difuso quanto poderoso, que reconstruiremos a esquerda, tornando-a novamente capaz de sacudir o mundo -- e não lambendo a bota de tiranos.

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22 agosto 2011

FIM DE UMA TIRANIA

Por Celso Lungaretti

Tripoli em festa: contra imagens não há argumentos
No jogo de xadrez, as peças menores são sacrificadas em nome da vitória final. É comum a partida acabar sem que reste um peão sequer no tabuleiro.

Na vida, isto é inconcebível e inaceitável. Se não priorizarmos a existência humana como valor supremo, propiciaremos o advento da barbárie.

Para os revolucionários, mais ainda. Existimos para defender os peões, não os reis ameaçados.

Então, é simplesmente grotesco e indefensável o alinhamento de qualquer esquerdista com déspotas como o que está sendo derrubado na Líbia e o que precisa ser derrubado na Síria.

Devemos, sim, fazer tudo que pudermos para evitar que sejam substituídos por outros tiranos e/ou joguetes dos EUA e de Israel.

Pode um revolucionário identificar-se com ISTO?!
Mas, estendermo-lhes as mãos significa trairmos nossa missão, conforme foi brilhantemente enunciada por Marx.

Cabe-nos conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização, sentenciou, com máxima clareza, o velho barbudo. Não acumpliciarmo-nos com retrocessos históricos. Jamais!

Absolutismo, feudalismo, estados teocráticos, tiranias pessoais, tudo isso foi merecidamente para a lixeira da História. E é lá que deve permanecer.

Nosso compromisso é com a construção de uma sociedade que concretize, simultaneamente, as duas maiores aspirações dos homens através dos tempos: a justiça social e a liberdade.

Muammar Gaddafi e Bashar al-Assad, brutais genocidas, não nos aproximaram dessa sociedade um milímetro sequer. São carniceiros comparáveis a Átila e Gengis Khan.

Todos deveríamos manter deles a mesma distância que mantivemos de Pol Pot a partir do momento em que ficaram comprovadas, sem sombra de dúvida, as características monstruosas do regime do Khmer Vermelho.

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21 agosto 2011

30 ANOS SEM GLAUBER ROCHA, GLADIADOR DEFUNTO MAS INTACTO

Por Celso Lungaretti

Nesta 2ª feira (22) se completam 30 anos da morte do baiano Glauber Rocha, o maior cineasta brasileiro de todos os tempos.

Tudo nele era trepidante, tempestuoso. Depois de realizar um filme apenas promissor sobre misticismo e consciência social (Barravento, 1962), deu um salto incrível de qualidade em apenas um ano, obtendo consagração instantânea com Deus e o Diabo na Terra do Sol, parábola delirante sobre cangaceiros e fanáticos.

O espanto e a admiração foram tão intensos que poucos críticos perceberam se tratar de um filme um tanto desequilibrado: a primeira parte, em que o casal de camponeses  Manoel  (Geraldo Del Rey) e  Rosa  (Yoná Magalhães) ingressa no rebanho do   Santo Sebastião (ersatz de Antônio Conselheiro) é muito inferior à segunda, a da passagem de ambos pelo cangaço. E não só porque o ótimo Othon Bastos deu um banho de interpretação como  Corisco, enquanto Lídio Santos (Sebastião) era amadoresco e tinha carisma zero.

Aliás, o  Corisco  glauberiano foi o melhor cangaceiro que o cinema brasileiro criou, em mais de uma dezena de filmes. Um personagem contraditório e explosivo, ora se vendo como um instrumento de São Jorge ("o santo do povo"), ora barbarizando o sertão qual endemoniado, para vingar a morte de Lampião.  

Outro grande acerto de Glauber foi o contraponto de  Corisco: o jagunço  Antônio das Mortes  (o papel da vida do grandalhão Maurício do Valle).

Antônio  mata cangaceiros e beatos a soldo do latifúndio, mas acredita estar desimpedindo o caminho para a libertação do povo, pois este deverá travar sua grande cruzada "sem a cegueira de Deus [Sebastião] e do diabo [Corisco]" - motivo pelo qual ele liquida os dois.

É o conceito que encerra o filme: a morte de  Corisco  tira  Manoel  da órbita messiânica do Bem e do Mal. Em fuga, ele corre e o oceano parece vir ao seu encontro, realizando a profecia de  Sebastião: "o sertão vai virar mar e o mar virar sertão". É claro que Glauber tinha em mente os altos mares da revolução.

O que veio, entretanto, foi o golpe militar. E a imensa depressão causada pela derrota foi expressa/purgada na obra-prima seguinte de Glauber, Terra em Transe (1967), sobre o confronto entre o político populista  Felipe Vieira  (José Lewgoy) e o direitista  Porfirio Diaz  (Paulo Autran) num país fictício com todo o jeitão de Brasil, culminando numa quartelada que tem total apoio da empresa estrangeira dominante.

Entre os dois está colocado o poeta  Paulo Martins (Jardel Filho), representando uma intelectualidade oscilante e confusa, mas que, no momento da decisão, lança-se à luta contra o golpismo (o maquiavélico  Diaz,  evidentemente, foi inspirado no  corvo  Carlos Lacerda).

É uma contundente autocrítica da esquerda brasileira transposta para as telas. O que se discute, basicamente, são os erros cometidos pelo Partido Comunista e o apoio oportunista a um político que não era verdadeiramente revolucionário nem estava à altura do momento histórico. Quando  Vieira  evita resistir para que não seja derramado "o sangue das massas", é João Goulart que está falando pela boca dele.

E, de certa forma, trata-se de um filme premonitório: o poeta não aceita a perspectiva de viver debaixo das botas e provoca a própria morte, em nome do "triunfo imortal da justiça e da beleza". Foi mais ou menos o que fizemos nos anos seguintes, ao lançarmo-nos numa luta impossível de ser vencida -- embora, claro, não nos movesse nenhuma propensão ao suicídio, mas sim a esperança de libertar nosso povo. Tínhamos  fé cega na justeza de nossos ideais, mas a faca amolada, quem a possuía era o inimigo...

O ciclo se fechou com O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1968), um filme feito com a consciência de que era iminente o confronto armado entre a esquerda e a ditadura.

Foi uma profissão de fé na revanche histórica dos humilhados e ofendidos.   

Antônio das Mortes  entra em parafuso, repensa o papel que vinha cumprindo e acaba se reposicionando na trincheira correta, ao lado de um professor ligeiramente inspirado no médico Che Guevara (Othon Bastos) e dos fantasmas do cangaço, de Canudos e de Palmares, todos numa santa união contra o coronelismo personificado por Jofre Soares.  Finalmente, São Jorge crava sua lança no dragão.

Fora das telas, entretanto, quem acabou vencendo foi a besta-fera. E Glauber, como o  Paulo Martins  de Terra em Transe, não reencontrou seu caminho, nem inspiração, em meio à pasmaceira e ao medo.

Fez filmes repetitivos e dispensáveis, até chegar ao fundo do poço: o caótico, no mau sentido, A idade da Terra (1980), tão sem rumo no espaço que o Glauber passou quase um ano tentando montá-lo, até que, por imposição da Embrafilme, entregou qualquer coisa para exibição num festival. Comentei, então, que podíamos entrar e sair no trecho que quiséssemos, dava no mesmo...

Chegou até a levar seu estilo nervoso, com câmara na mão, à TV, fazendo intervenções  criativas  num programa dominical do SBT. Só que, estando aquelas  ousadias  meio gastas, ele foi encarado mais como atração bizarra.

No Festival de Brasília de 1978, o curta-metragem estava começando quando alguém começou a gritar no escuro:
- Aqui é o Glauber Rocha, falando em nome das aberturas democráticas [a "distensão lenta, gradual e progressiva" do ditador Geisel]. Vim para denunciar o maior dedo-duro da História do  Brasil, que é fulano [nominou o então presidente da Fundação Cultural do Distrito Federal].
Os espectadores o calaram com apupos e berros de "respeita o trabalho dos outros!". Foi embora furibundo.

No dia seguinte, ouvi o acusado. Ele disse que o problema do Glauber era apenas não ter recebido uma subvenção com a qual contava.

Telefonei também ao Glauber, pedindo-lhe uma entrevista. Ele marcou para o começo da tarde, no seu hotel... e decolou para o RJ na hora do almoço.

Mas, todos os que curtimos intensamente o sonho de 1968 ficamos fora do eixo naquela terrível década subsequente - uns mais, outros menos.

Prefiro recordar o Glauber que lavou a minha alma com os três filmes que, até hoje, melhor expressaram o transe brasileiro.

Cai como uma luva, para ele próprio, a estrofe de Mário Faustino que Glauber encaixou em Terra em transe, como um tributo ao seu personagem que também termina como poeta suicida:
"Não conseguiu firmar o nobre pacto
entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o facto
da vitória do caos sobre a vontade
augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura)"

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A Força da Crise

por Paulo Passarinho 

No momento em que escrevo, as bolsas de valores pelo mundo afora voltam a apresentar fortes quedas nas cotações dos preços das ações negociadas. A bolsa de Nova York, pelo índice Dow Jones, cai 3,5% e o Ibovespa, da bolsa de S.Paulo, recua mais de 4%, acompanhando as fortes quedas nas bolsas européias – Londres, mais de 4%; Paris, mais de 5%; e Frankfurt, mais de 6%.

Bolsas de valores vivem da aposta especulativa e fortes oscilações podem muitas vezes fazer parte do roteiro desse universo. O que chama atenção, contudo, é que essas fortes quedas se inserem em um processo de graves dificuldades que vêm se acumulando, na dinâmica das economias mais desenvolvidas do mundo.

Nos Estados Unidos, o temor é a possibilidade de um novo mergulho recessivo da sua economia. Apesar das medidas anticíclicas assumidas pelo governo Obama, a economia do país não apresenta indicadores de recuperação do emprego, da renda e dos investimentos de modo a recuperar a confiança dos investidores, e da própria massa de assalaiados, em dias melhores.


Na Europa, a crise do endividamento dos Estados nacionais mais frágeis da União Européia, provocada principalmente pelas operações de socorro, realizadas em 2007 e 2008, para o salvamento dos bancos privados, produziu elevação das dívidas consolidadas dos países e forte ampliação dos déficits fiscais de cada um deles. O remédio que vem sendo adotado, contudo, poderá agravar ainda mais a crise em curso. No afã de se garantir os interesses dos bancos privados, os ditos programas de socorro aos países em maiores dificuldades – Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha – exigem cortes de gastos públicos e privatizações. Redução nos programas de novos investimentos desses países e arrocho de salários e vencimentos, além de redução das despesas que garantem direitos sociais, produzirá forte retração da atividade econômica dos países, com novas dificuldades de natureza fiscal, a partir da inevitável queda na arrecadação de impostos e tributos.

Fechando essa rápida abordagem da evolução da crise no hemisfério norte, as economias asiáticas são aquelas que apresentam uma melhor condição, particularmente em função do papel que a economia chinesa vem desempenhando, como motor do crescimento econômico de toda essa região. Entretanto, a vitalidade da economia chinesa – que nos últimos trinta anos (!!) cresce a uma taxa média anual de 10% – pode também vir a apresentar uma desaceleração desse extraordinário ritmo de crescimento. A partir de uma forte indução ao crescimento tendo como base o seu mercado interno, a China hoje tem em suas exportações um importante vetor de sua dinâmica econômica. Um forte processo recessivo na Europa e nos Estados Unidos produzirá, inevitavelmente, impacto negativo na economia chinesa e em todas as economias em sua área de influência

É nesse ponto que convém olhar com cuidado o que o governo brasileiro e a mídia dominante difundem com relação aos chamados “bons fundamentos” de nossa economia

Desde as reformas de natureza privatizante e de abertura ao mercado financeiro internacional, a partir dos anos 1990, o Brasil e a sua economia produtiva procuram consolidar um papel de fornecedor de matérias primas, em especial minérios, produtos agrícolas e carnes para o resto do mundo e, em particular, para países da Europa, Ásia e Estados Unidos. Ao mesmo tempo, dadas as características do modelo macroeconômico vigente desde então, baseado em altas taxas de juros e câmbio valorizado, o processo de desnacionalização do parque produtivo brasileiro e de endividamento do Estado avançou de forma muito acentuada. Nossa indústria, inclusive por decisões que fogem ao nosso controle – em decorrência do papel exercido pelas matrizes das multinacionais aqui instaladas – e pelas condições favorecidas pela política econômica, é cada vez mais dependente da importação de peças e componentes para a viabilização de sua produção.

Durante a primeira década desse século, o Brasil se beneficiou da enorme expansão do comércio internacional, principalmente puxada pela China e seus parceiros asiáticos. Porém, desde 2007, experimentamos uma paulatina redução do nosso superávit comercial (pelo crescimento das despesas com importações), ao mesmo tempo em que a conta de serviços do país é cada vez mais negativa (por conta de despesas cada vez mais elevadas de remessas lucros e dividendos, pagamento de juros e viagens internacionais)

Uma grave reversão, portanto, das condições da economia mundial, a partir da desaceleração chinesa, da estagnação dos Estados Unidos e da recessão européia, poderá nos atingir de forma muito grave. A redução nos preços das commodities levará a uma diminuição das nossas receitas de exportação, podendo reduzir ou mesmo anular o saldo comercial do país. Em um quadro como esse, nossas necessidades de financiamento externo através da conta de capital irá expor o país, ainda mais, ao apetite dos investidores externos – com mais desnacionalizações ou mais endividamento – ou, pior, produzirá uma maciça fuga de capitais

O governo alega dispor de reservas internacionais que nos permitiria “segurar o tranco” frente à possível deterioração das condições da economia mundial. De fato, com reservas de US$ 350 bilhões, temos uma retaguarda importante. Contudo, os direitos financeiros de estrangeiros no país ultrapassam em muito ao atual volume das reservas. Ações em bolsas, títulos da dívida pública e participações nos lucros das empresas superam em muito o valor de nossas reservas. Estimativas apontam que do total do passivo externo do país, mais de US$ 900 bilhões seriam de natureza financeira

Além disso, os enormes dispêndios gerados com o pagamento de juros e amortizações de uma dívida pública interna que ultrapassa a R$ 2,4 trilhões, apenas evidenciam que nos encontramos em um caminho muito perigoso em termos de endividamento, comprometimento do Orçamento da União com despesas financeiras e a continuidade da degradação dos serviços públicos voltados à população.


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20 agosto 2011

Impunidade para quem?

por Heloisa Helena, publicado originalmente pela Fundação Lauro Campos.  
Os velhos humanistas espanhóis propagavam em belo enunciado que as leis ao serem aplicadas deveriam ser flexíveis para os fracos, firmes para os fortes e implacáveis para os contumazes. Na realidade, dos nossos tristes e violentos dias, os fracos enfrentam o rigor das leis ou a própria barbárie em que eles estão inseridos enquanto que os poderosos e contumazes sempre conseguem usufruir da flexibilidade da legislação e das benécias do poder para consolidar a vergonhosa impunidade. 
Vez ou outra – tipo um em um milhão - é que um desses poderosos é condenado até para salvaguardar o próprio sistema e sua podridão! 
Em outro texto – antigo e bastante atual – o Pe. Antonio Vieira alertava que até Jesus tratava de forma diferenciada o ladrão pobre do ladrão rico... Para Dimas - pobre e por isso mesmo crucificado com Ele e que nada tinha a restituir - o perdão imediato em "Estarás comigo hoje na Casa do meu Pai!"... 
Para Zaqueu - rico não por trabalhar, mas por muito roubar - o perdão só veio mesmo quando ele se assumiu como ladrão e se comprometeu a restituir quadruplicado o que tinha roubado! O texto é de 1655, mas muito atual ao mostrar a metodologia dos "príncipes" que conjugam de todas as formas e modos o verbo roubar e costumam não restituir o dinheiro público vorazmente roubado e até ousam restituir aos cargos aqueles igualmente mal acostumados na conjugação do tal verbo. Segundo o referido Padre vão todos para o inferno e eu sempre fico a me perguntar se haverá braseiro suficiente pra tanto político cínico e ladrão... por isso prefiro lutar para que essas excelências delinqüentes sejam devidamente condenados, como manda a legislação em vigor no país, na experiência terrena mesmo!

Mas analisemos a situação concreta – e alternativas de reversão – de quem está sendo cotidianamente condenado de forma implacável, sem julgamento, sem conhecimento das motivações e vivenciando as penalidades, sem possibilidade de superação dos dramáticos momentos do cotidiano e sem mecanismos objetivos de ressocialização se já formalmente encarcerados. Existem milhões de seres humanos em nosso país (Alagoas ostenta os piores indicadores sociais) que nasceram em comunidades vulneráveis socialmente nas periferias e são condenados à miséria humana (que é infinitamente mais infame que a pobreza absoluta). 
Foram condenados a nascer em condições absolutamente precárias - e se não foram jogados numa calçada em noite fria ou numa lata de lixo – foram condenados a ter como chão para suas brincadeiras os esgotos a céu aberto... Foram condenados a morar num casebre sem lençóis limpos e perfumes delicados, compartilhando camas com adultos onde a sexualidade precoce é estimulada ou a maldita iniciação sexual é ditada pelo abuso e exploração na pedofilia... 
Foram condenados a não manusear a textura dos papéis de livros cheios de estórias e desenhos maravilhosos que poderiam até encantar e suavizar as suas próprias histórias dilacerantes de dias e dias de gritos, espancamento, alcoolismo e outras drogas, destruição de laços afetivos familiares e tantas outras situações angustiantes... 
Foram condenados a perderem seus nomes e a ingenuidade da identidade infantil, pois logo cedo foram "incluídos" como aviãozinho, fogueteiro, mula do pequeno e maldito tráfico de drogas – conduzido por pequenos bárbaros - para fomentar a imensa riqueza de uma canalha muito rica e poderosa, que vive muito distante das favelas e movimentam bilhões de dólares com as drogas psicotrópicas lícitas ou não... 
Foram condenados nos presídios imundos a se tornarem depósitos de AIDS, tuberculose, hepatites, hanseníase e a serem estuprados e violentados na sua dignidade pelos chefes dos presídios - que já barbarizados pela vida - criam verdadeiras "escolas" de crimes e perversidades para a grande maioria que lá está por ser pobre e por ter praticado pequenos delitos e acaba saindo do cárcere com "diploma" de assassino potencial.

Quais as opções a serem assumidas e implementadas por uma sociedade que se apresenta como moderna e civilizada? Quais os verdadeiros compromissos de uma sociedade que se apresenta como democrática, mas admite de forma cínica e dissimulada a tirania da miséria e do sofrimento dilacerador? 
Quais os verdadeiros Projetos para minimizar a Violência em Prevenção – educação, música, cultura, esporte, emprego digno – e Repressão – com condições dignas de trabalho e salários para os trabalhadores civis e militares da área de segurança pública – e na Recuperação e Ressocialização – do tratamento dos usuários de drogas psicotrópicas até a capacitação profissional e inserção econômica... 
Quais as Metas e Prazos e Cronogramas para a implementação das Ações, Projetos, Leis? Volto a insistir na necessidade de implementação de Políticas Públicas voltadas para intervenções globais em comunidades vulneráveis socialmente antes que a indigência social e a miséria humana aniquilem as possibilidades, de talento e vida digna, para milhões de crianças e jovens que podem acabar vivenciando apenas o triste e perverso decreto das gerações perdidas. 
Sempre lutei muito por tudo isso – com Projetos, Emendas ao Orçamento, Propostas Concretas – mesmo sendo incompreendida pela inocência de alguns e atacada pelos sórdidos vigaristas das gangues políticas que não aceitam conviver com quem não é domesticada pelo banditismo deles. 
Continuo lutando e acreditando que é possível resgatar o que de melhor e mais belo ainda possa existir especialmente nas crianças e jovens – em situações de risco - antes que a vida os condene à barbárie e se encarregue de afastá-los definitivamente da solidariedade, da bondade, da compaixão, do amor! 
Como dizia Mandela: "Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar as pessoas precisam aprender e, se pode aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar!".

Heloísa Helena é vereadora pelo PSOL em Maceió (AL)

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18 agosto 2011

Prêmio TOP BLOG 2011

Estamos concorrendo ao Prêmio Top Blog edição 2011 na categoria Política.  Em 2009 e 2010 ficamos entre os 100 mais votados, durante a primeira fase. (Votação Popular pela Internet). 

Se você já votou, valeu a força. Se ainda não  clique no botão abaixo  ou  no selo na barra lateral do blog.  

Você será direcionado à página do TOP BLOG. Informe seu nome e email e clique no botão votar. Você receberá um email com um link,  clique nele e confirme o voto.











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17 agosto 2011

CARLOS LAMARCA - 40 ANOS DE SUA EXECUÇÃO

Prezados Companheiros.
 
Boa tarde a todos. Em anexo comunicado da Família Lamarca de forma serena e consciente.
Um forte abraço a todos.
 
Cesar Lamarca.
 
 
 
 
CARLOS LAMARCA
Data de Nascimento: 27 de outubro de 1937.
Data de Falecimento: 17 de setembro de 1971.
40 anos de sua execução
 
Tudo que já se escreveu sobre Carlos Lamarca permite a reflexão de um momento da História do Brasil. Não há dúvidas de que sua atitude, decisão e sacrifício foram refletidos em gerações que ainda, pouco ou nada sabem sobre este brasileiro.
 
Em 11 de setembro de 2011 um canal brasileiro mostrará ao Brasil, ao povo brasileiro, 10 anosdo acontecimento em New York, quando as torres do World Trade Center foram atingidas por duas aeronaves de grande porte, que resultou na morte de inúmeras pessoas.
 
Em 17 de setembro de 2011, farão 40 anos da execução sumária de Carlos Lamarca, nenhuma reportagem será efetuada. 
 
São fotografias fortes, mas reais a aqueles momentos onde a solidão, a fome, o cansaço acompanhado do inóspito, da caatinga do território baiano tomou as últimas forças de um homem a mercê na Morte.
 
É de conhecimento geral que foi executado por forças federais brasileiras, por muito tempo fora forjada a “idéia” de que apesar de sua condição física, esta constatada após a execução, que ele teria oferecido resistência impar as forças federais, não sendo-lhe possível nenhum tipo de reação a sua condição física a aquele momento.
 
Seu corpo fora violado após a morte, sobre seu cadáver ocorreram atos abomináveis ao ser humano e a conduta de honra entre militares, seu transporte foi da mesma forma quando uma caça é abatida, até sua chegada ao IML de Salvador – Estado da Bahia – BA.
 
Foi exposto ao olhar de curiosos, de personalidades políticas e militares como um troféu e somente após a chegada de alguns parentes vindo do Rio de Janeiro, e a pedido de um deles, que foi cessada aquela peregrinação. Seu corpo foi reconhecido por parentes, enterrado em cova comum no cemitério da cidade de Salvador, e somente em 1973 foi possível o traslado para a cidade do Rio de Janeiro por seus parentes e sepultado no cemitério do Caju.
 
Tudo isto ocorreu longe de sua companheira e seus filhos, pois residiam em Havana – Cuba e somente regressariam após a “abertura política” no Brasil em 1979. Cumpriram exílio durante 10 anos seguidos.
 
São 40 anos de sua execução. A família Lamarca resgatou de forma silenciosa a cidadania brasileira, pois se encontrava em terra estrangeira, se mantém sob orientação de Maria Pavan Lamarca, hoje com 74 anos de idade e sua convicção é de que ainda há muito a ser feito em memória de seu companheiro.
 
Contrariando orientações, seguindo a sua determinação pessoal foi a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos e com muito afinco e determinação prova que, a farsa forjada na Operação Pajussara era frágil demais para ser mantida, com ajuda do Deputado Federal Nilmário Miranda, do Partido dos Trabalhadores exumou os restos mortais de seu companheiro e no IML de Brasília o Legista Médico, Nelson Mazzini prova a execução de seu companheiro.
 
A Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos e a imprensa recebem de um repórter do Jornal O Globo, um material comprometedor as forças federais brasileiras, o qual estava escondido dentro de um cofre, em uma sala esquecida na Polícia Federal em São Paulo, onde lá foram encontradas sete pastas que mostram um dossiê completo e fotografias de Carlos Lamarca e que serviram de base para contribuir com a suspeita de execução em contribuição com as observações profissionais do médico legista.
 
Não houve dúvidas a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, Carlos Lamarca fora executado sumariamente, lhe fora interrompida a vida, lhe fora privado o direito a rendição, a prisão, ao julgamento, a pena e possivelmente a anistia política e restituição dos direitos, inclusive a promoção militar, pois lhe interromperam a vida, assim como ocorreu com muitos outros.
 
A Carlos Lamarca lhe foi alienado o direito a vida. A sua companheira vai a Comissão de Anistia requerer o que também, o Poder Judiciário atual não reconhece em benefício de seu companheiro, em benefício do resgate do direito constituído, o direito a anistia política.
 
Seus representantes judiciais lutam até a presente data, de tribunal em tribunal, de recurso em recurso, de agravos em agravos para derrubar uma liminar sustentada pelo Clube Militar do Rio de Janeiro contra a anistia de Carlos Lamarca, além de lutarem a 24 anos seguidos pelos reparos devidos a sua companheira Maria Pavan Lamarca.
 
São 40 anos da execução de um homem que entregou sua vida pela luta democrática, optou pela luta armada, pois que se impôs no poder pela violência deveria ser removido da mesma forma.
 
Nós da família Lamarca lamentamos que, após 40 anos da execução de Carlos Lamarca sua condição seja a mesma.
 
Carlos Lamarca, ainda e possivelmente seja o único brasileiro não anistiado pela própria Lei de Anistia, pelo Poder Judiciário e pela própria União.
 
Ousar Lutar, Ousar Vencer.
 
Maria Pavan Lamarca.
Cesar Pavan Lamarca.
Claudia Pavan Lamarca.

Rio de Janeiro, RJ, 12 de agosto de 2011.
 
 

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DITADOR SÍRIO É CLONE DE PINOCHET

Por Celso Lungaretti

Bashar al Assad: a mesma carranca...
O ditador sírio Bashar al Assad esmera-se em imitar, detalhe por detalhe, o carniceiro chileno Augusto Pinochet: seu regime genocida não só liquidou o Victor Jara do seu país, como está despejando presos políticos em estádios de futebol.

Compositor e cantor de músicas que combinavam ritmos folclóricos com mensagens de protesto, Jara lembrava muito o nosso Geraldo Vandré, também assassinado por uma ditadura bestial, embora por outros meios: dele só exterminaram a alma, deixando o corpo a perambular como zumbi.

Já do expoente máximo da  Nueva Canción Chilena  os militares ensandecidos tiraram também a vida.

pinochetazzo  o surpreendeu na universidade, sendo lá sequestrado pelas tropas golpistas, juntamente com outros alunos e professores.

Levaram-no ao Estádio Chile (não confundir com o Estádio Nacional do Chile), onde eram amontoados os seguidores do presidente legítimo Salvador Allende. Uma boa idéia dos horrores que lá tiveram lugar é dada no filme O Desaparecido - um grande mistério (d. Costa Gravas,  1982), cujas sequências mais chocantes são as que mostram as pilhas de cadáveres dos cidadãos executados pelos fascistas.

A versão mais difundida da morte de Jara é a que aparece em outro filme, Chove Sobre Santiago (1976), do chileno Helvio Soto: ele é desafiado a cantar para seu público, reunido nas arquibancadas do estádio sinistro -- e o faz. Então, os verdugos o espancam até a morte.

Seu corpo foi exumado em 2009, quando ficou comprovado que realmente esmagaram-lhe as mãos a coronhadas.

Teve seus restos mortais atirados num matagal de beira de estrada, mas acabaram sendo encontrados e levados à câmara mortuária. Depois que a esposa o identificou, foi enterrado no Cemitério Geral de Santiago.

...e a mesma bestialidade de Pinochet.
Enfim, tratou-se de um destino bem semelhante ao que acaba de ter o músico sírio responsável pelo  hino  das manifestações contra a tirania do seu país -- cujo título, numa tradução livre, seria 'Pede pra sair, Basher'.

O cadáver do autor da canção, Ibrahim Qashoush, apareceu boiando num rio, no início do mês passado.

Agora, chega a notícia de que as tropas do ditador sírio estão invadindo casas num distrito sunita do porto de Latakia, prendendo pessoas às centenas e as levando para os estádios da Cidade Esportiva de al-Raml, sede dos Jogos Mediterrâneos na década de 1980.

"Os estádios da Cidade Esportiva estão servindo de abrigo para refugiados, para impedir que eles fujam de Latakia e, tal qual vimos em outras cidades atacadas, também como um centro de detenção", disse o diretor do observatório Rami Abdelrahman à agência Reuters.

Os relatos de torturas provêm de todos os lados. Só não foram confirmadas, por enquanto, execuções nos estádios-masmorras.

É só o que falta para Bashar al Assad igualar-se a Pinochet em tudo e por tudo.

Quanto à presidente Dilma Rousseff, o que falta é ela confirmar a alardeada priorização dos direitos humanos, repudiando a ditadura síria com a mesma firmeza adotada em relação à congênere iraniana.

Afinal, para quem é ou foi revolucionário(a), não importa o sexo da vítima ou se a forma de execução é particularmente cruel (caso do apedrejamento). Temos o dever moral de nos posicionar contra as matanças, a barbárie e o despotismo em si mesmos, sob quaisquer circunstâncias e independentemente das conveniências econômicas.

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